A Microsoft anunciou uma espécie de sistema de gamificação para que chefes rastreiem seus funcionários por meio das ferramentas do Microsoft 365, e com isso gerem “pontos de produtividade”. Se você achou isso meio bizarro, saiba que não está sozinho — especialistas em privacidade têm criticado este novo recurso.

A ferramenta foi revelada em outubro. Na época, a empresa disse que essa era uma forma de fornecer aos chefes “percepções que transformam a forma como o trabalho é feito”. Para isso, a plataforma reúne dados sobre o comportamento de cada funcionário em 73 métricas e apresenta uma análise útil para seus gerentes no final de cada mês.

Segundo a Forbes, essas métricas incluem a frequência com que os funcionários ligam suas câmeras durante reuniões virtuais, quantos e-mails eles enviam por dia (e quantos contêm menções a outras pessoas), se contribuem regularmente para documentos compartilhados ou bate-papos em grupo, e o número de dias em que usaram as ferramentas da Microsoft, como Word, Excel, Skype, Outlook ou Teams, no último mês.

O vice-presidente corporativo do Microsoft 365, Jared Spataro, especificou em um post no blog da empresa que o recurso, que estreou com pouco alarde em 17 de novembro, “não é uma ferramenta de monitoramento de trabalho”, e que a Microsoft incorporou várias medidas de segurança para demonstrar seu compromisso com a privacidade. Por exemplo, a pontuação de produtividade de cada funcionário é agregada ao longo de um período de 28 dias, e há controles de privacidade disponíveis para tornar esses dados anônimos ou removê-los completamente.

No entanto, o que Spataro deixou de mencionar é que apenas o chefe de cada departamento pode acessar esses controles. Em uma declaração ao The Guardian, um porta-voz da Microsoft ecoou essa pretensão de escolha, chamando a função de “uma experiência opcional”, mesmo que os trabalhadores sejam os únicos que não podem decidir se aceitam. “A pontuação de produtividade é uma experiência opcional que dá aos administradores de TI percepções sobre o uso de tecnologia e infraestrutura”, disse o porta-voz.

Críticas

Especialistas em privacidade estão irritados ao ver a vigilância do local de trabalho sendo vendida como uma ferramenta de otimização de produtividade. David Heinemeier Hansson, cofundador da suíte de escritório Basecamp, classificou a ferramenta como “moralmente falida em sua essência” em uma série de tuítes esta semana.

“A palavra distópico nem de longe é forte o suficiente para descrever o novo buraco do inferno que a Microsoft acabou de abrir, Estar sob vigilância constante no local de trabalho é abuso psicológico. Ter que nos preocupar em parecer ocupado pelas estatísticas é a última coisa que precisamos infligir a alguém agora”, escreveu.

O pesquisador de privacidade de dados Wolfie Christl, que chamou o recurso de “problemático em muitos níveis”, apontou que, embora a Microsoft ofereça aos empregadores a opção de desligar o monitoramento de funcionários, ele é habilitado por padrão quando inicializam o Microsoft 365. Ele acrescentou que a nova ferramenta pode ser considerada ilegal em alguns países da União Europeia, devido aos regulamentos estritos da região sobre como as empresas podem acessar dados dos usuários.

Heinemeier Hansson resumiu como a “Pontuação de Produtividade” da Microsoft é perturbador em um de seus tweets. “Uma maneira para cristalizar o quão assustador é esse esquema é imaginar uma pessoa com um cronômetro e uma prancheta sentada atrás de você. Registrando meticulosamente quanto tempo você gasta em cada tarefa, compilando um dossiê sobre todos fazendo o mesmo e relatando as descobertas à gerência”, disse.

A vigilância no local de trabalho se tornou uma preocupação predominante neste ano, com a pandemia levando cada vez mais pessoas a trabalhar em casa. Em junho, a empresa de pesquisa Gartner descobriu que 16% dos empregadores estavam usando ferramentas de monitoramento com mais frequência para rastrear o uso do computador de seus empregados, comunicações internas e engajamento, entre outros dados. E com os casos de coronavírus que não param de aparecer, especialistas esperam que o desenvolvimento e a adoção dessas ferramentas aumentem ainda mais.