Apesar dos casos de coronavírus continuarem aumentando em todo o mundo, as legiões de moderadores de conteúdo contratados do Facebook ainda precisam trabalhar nos escritórios “para manter os lucros do Facebook durante a pandemia”. A afirmação está em uma carta aberta publicada no software de comunicação interna da empresa Workplace, e assinada nesta quinta-feira (19) por mais de 200 moderadores de conteúdo.

“Os trabalhadores pediram à liderança do Facebook e de suas empresas de terceirização, como Accenture e CPL, que tomassem medidas urgentes para nos proteger e valorizar nosso trabalho. Vocês recusaram. Estamos publicando esta carta porque não temos escolha”, diz a mensagem.

Em março, Mark Zuckerberg disse a repórteres que a maior parte dessa força de trabalho teria permissão para trabalhar em casa até que “a resposta de saúde pública fosse suficiente”. Aparentemente, essa barreira foi eliminada em meados de outubro, quando o Facebook disse às equipes de moderação de conteúdo que eles deveriam voltar a trabalhar nos escritórios.

O Intercept relatou mais tarde que um funcionário terceirizado que trabalhava em uma instalação do Facebook de propriedade da Accenture em Austin, Texas, tornou-se sintomático apenas dois dias depois de retornar ao trabalho e obteve um teste positivo para COVID-19 alguns dias depois. Foxglove, a firma de advocacia que representa esses contratados, acrescentou em uma declaração ao New York Times que contratados adicionais baseados na Irlanda, Alemanha e Polônia tiveram teste positivo para COVID-19.

Naturalmente, a carta faz alguns pedidos para reparar a relação obviamente tensa entre esses contratantes e a administração.

Primeiro, eles pedem que todos os moderadores de conteúdo que são ou moram com alguém em um grupo de alto risco tenham permissão para trabalhar em casa por tempo indeterminado e, independentemente do estado de saúde, “o trabalho que pode ser feito em casa deve continuar a ser feito em casa”. No momento, os únicos moderadores que têm esse privilégio são aqueles que trazem um atestado médico provando que estão sob alto risco. Mesmo assim, afirma a carta, essa opção não é oferecida em alguns locais de trabalho.

No anúncio em que Zuckerberg originalmente concedeu trabalho remoto para os funcionários terceirizados de sua empresa, ele mencionou que alguns dos assuntos mais delicados – ou potencialmente ilegais – como abuso infantil seriam mais bem tratados no escritório para fins de segurança. A carta concorda que, embora o conteúdo criminoso deva ser tratado no local, não há razão para que o restante da equipe de moderação de conteúdo seja forçado a fazer o mesmo.

A carta também pede que os moderadores que trabalham nesses tipos de postagens de alto risco recebam um pagamento de periculosidade – 1,5 vez maior do que seu salário normal, enquanto todos os moderadores de conteúdo devem receber cuidados de saúde e psiquiátricos “reais” para o trabalho que eles fazem. Moderadores, eles argumentam, merecem “pelo menos” tanto apoio mental e físico quanto a equipe empregada pelo Facebook.

Talvez a mais ousada das exigências da carta peça ao Facebook que pare de terceirizar totalmente a moderação. “Há mais clamor do que nunca por moderação agressiva de conteúdo no Facebook. Isso exige nosso trabalho”, escrevem os peticionários. “O Facebook deve trazer a força de trabalho de moderação de conteúdo internamente, dando-nos os mesmos direitos e benefícios de uma equipe registrada pelo Facebook”.

Os contratantes ainda observam que as tentativas anteriores do Facebook de moderar silenciosamente sua plataforma com soluções baseadas em IA foram falhas abjetas. “Discursos importantes foram censurados pelo filtro do Facebook – e conteúdos perigosos, como automutilação, permaneceram”, escreveram os moderadores. “Os algoritmos do Facebook estão a anos de atingir o nível necessário de sofisticação para moderar o conteúdo automaticamente. Eles podem nunca chegar lá”.

Vale ressaltar que esses funcionários terceirizados já enfrentavam dificuldades na era pré-pandemia. Relatórios descreveram as longas horas de trabalho, baixos salários e trauma psicológico envolvidos no que a carta corretamente chama de um dos trabalhos mais “brutais” do Facebook. Como a carta explica, os trabalhadores que monitoram o Facebook quanto a abuso infantil tiveram sua carga de trabalho aumentada durante a pandemia, mas não receberam “nenhum apoio adicional”.

O Facebook atualmente conta com uma equipe de moderação de cerca de 35.000 pessoas em todo o mundo. Não está claro quantos deles a Foxglove pretende representar ou em que capacidade.

Entramos em contato com o Facebook e a Foxglove em busca de comentários e atualizaremos essa publicação se recebermos uma resposta.