Com mais de 90 mil casos do novo coronavírus confirmados em todo o mundo e mais de 3 mil mortes relatadas — sete delas nos EUA –, os cientistas estão se concentrando em quão mortal é o vírus e quem está sob maior risco. As pesquisas mais recentes sugerem que a taxa de mortalidade está entre 1,4% e 2,3%, mas o verdadeiro impacto do vírus é realmente mais complicado — e provavelmente menos grave.

O surto de COVID-19 ainda está em seus estágios iniciais, depois de ter surgido na China em algum momento no final de 2019 e se espalhado para dezenas de países no início de 2020. Ainda não sabemos muito sobre esse vírus, chamado SARS-CoV-2, mas está começando a surgir uma imagem mais clara de como ele se espalha e de quem corre maior risco de contrair e morrer com essa doença.

Como o coronavírus mata?

Antes de começarmos as pesquisas mais recentes, no entanto, é importante entender como uma infecção por SARS-CoV-2 realmente leva à morte.

Este novo coronavírus é semelhante ao que causa a SARS (sigla em inglês para “síndrome respiratória aguda grave”), sendo inclusive informalmente chamado de SARS-2. A doença, associada a febre e tosse, também foi chamada de NCIP, que significa “nova pneumonia por infecção de coronavírus (2019-nCoV)”. Como ambos os títulos sugerem, a doença afeta os pulmões e nossa capacidade de respirar.

Em casos graves, a pneumonia resultante pode desencadear uma condição perigosa conhecida como síndrome do desconforto respiratório agudo (SDRA), que faz com que os pulmões se encham de líquido e se tornem rígidos.

Isso dificulta a respiração, tornando-a às vezes impossível e exigindo que alguns pacientes sejam conectados a ventiladores mecânicos. Consequentemente, a morte por COVID-19 é tipicamente por causa de grandes danos nos pulmões e insuficiência respiratória progressiva, de acordo com pesquisas recentes publicadas na Lancet.

Qual a mortalidade da doença do coronavírus?

Então é assim que a COVID-19 mata, mas quão mortal ela é no geral?

Um estudo publicado no New England Journal of Medicine (NEJM) em 28 de fevereiro de 2020 apresentou uma taxa de mortalidade geral de 1,4%. Esses números, compilados pelo Grupo de Tratamento Médico da China para COVID-19 e muitas outras instituições chinesas, foram baseados em 1.099 pacientes que foram admitidos em 552 hospitais em toda a China até 29 de janeiro de 2020.

A idade mediana desses pacientes era de 47 anos, e a maioria deles — 58,1% — era do sexo masculino. Dos 5% dos pacientes que foram admitidos em unidades de terapia intensiva, 2,3% tiveram que passar por ventilação mecânica invasiva, que, na maioria das vezes, não conseguiu salvar suas vidas.

Em um artigo relacionado publicado no New England Journal of Medicine, Anthony Fauci, diretor do Instituto Nacional de Alergia e Doenças Infecciosas dos EUA, juntamente com seus coautores, escreveu que o surto de COVID-19 apresenta “desafios críticos para a saúde pública e para as comunidades médicas e acadêmicas”, mas que a taxa real de mortes pela doença é provavelmente menor do que a relatada pelos pesquisadores chineses. A razão, dizem eles, é que muitos casos são leves e, portanto, não estão sendo relatados.

“Se alguém presumir que o número de casos assintomáticos ou minimamente sintomáticos é várias vezes maior que o número de casos relatados, a taxa de mortalidade de casos pode ser consideravelmente inferior a 1%”, escreveram Fauci e seus colegas.

Presumindo que isso esteja correto, isso significa que as consequências para a saúde do COVID-19 são mais semelhantes à gripe sazonal grave, que está associada a uma taxa de mortalidade de 0,1%, ou aos surtos de pandemia de influenza de 1957 e 1968, de acordo com Fauci et al.

Esses números são misericordiosamente muito mais baixos do que as taxas de mortalidade de dois outros notórios coronavírus, como o da SARS (taxa de mortalidade entre 9% e 10%) e o da MERS (taxa de mortalidade de 36%), de acordo com uma pesquisa publicada na Nature Reviews Microbiology em 2016.

Essas são estimativas preliminares e ainda há muito a ser aprendido sobre o SARS-CoV-2 e como ele funciona. Dados recentes divulgados pelo Centro de Controle de Doenças da China em Pequim apresentaram uma taxa de mortalidade para o COVID-19 em 2,3%. Provavelmente, ela é muito alta, pelos motivos mencionados anteriormente, mas é alarmante. Essa taxa foi baseada em 44.672 casos relatados em 11 de fevereiro de 2020.

Quem corre mais riscos de morrer de coronavírus?

Alegar que as pessoas têm uma chance de X por cento de morrer de uma doença é uma afirmação bastante precipitada e não totalmente informativa, pois essa taxa se aplica à população total infectada e não a um indivíduo em específico.

Dito isso, as estatísticas do órgão de prevenção de doenças da China estão fornecendo uma visão mais detalhada da condição e de quem está em maior risco.

Os homens parecem estar mais em risco de contrair e morrer de COVID-19. As estatísticas do órgão chinês mostram que 2,8% dos homens morreram com a doença, em comparação com 1,7% das mulheres. Não está claro imediatamente por que isso acontece, mas muitos fatores sociológicos e culturais podem explicar por que os homens podem ser mais propensos a contrair a doença — talvez mais homens na China viajem a trabalho, por exemplo.

Dito isto, o fator de risco mais significativo para morrer de COVID-19 é a idade. Segundo o Centro de Controle de Doenças da China,

  • pessoas acima de 80 anos têm 14,8% de chance de morrer da doença;
  • pessoas na faixa dos 70 anos, 8%;
  • pessoas na faixa dos 60 anos, 3,6%;
  • e pessoas na faixa dos 50 anos, 1,3%.

Uma vez abaixo dessa faixa etária, o risco de morrer cai para 0,2 a 0,4%. Novamente, esses números podem estar superestimados devido ao fato de que muitos casos leves provavelmente não foram relatados.

Além da idade, condições médicas preexistentes também contribuem muito para a morte pela doença. De acordo com o CDC da China, pacientes com COVID-19 que também tinham:

  • doença cardiovascular tiveram 10,5% de chance de morte;
  • diabetes, 7,3%;
  • doença respiratória crônica, 6,3%;
  • hipertensão, 6%;
  • e qualquer forma de câncer, 5,6%.

Claramente, a idade avançada e qualquer uma dessas condições formam uma combinação perigosa.

Outra pesquisa publicada no NEJM na semana passada descreve a “dinâmica de transmissão precoce” da doença. Este estudo foi feito por Qun Li, do China CDC, e outros autores.

O trabalho analisou os primeiros 425 casos relatados em Wuhan, China, o epicentro da epidemia. Esta pesquisa incluiu casos de dezembro a 22 de janeiro de 2020. Os números fornecidos neste documento são importantes, mas, novamente, precisam ser tratados com cautela, pois esses dados foram coletados durante os estágios iniciais do surto.

Com uma idade mediana de 59 anos, os pacientes eram um pouco mais velhos do que os relatados em outros lugares. Desses pacientes, 56% eram do sexo masculino.

Não houve relatos de crianças menores de 15 anos com a doença. O motivo é que “as crianças podem ter menos chances de se infectar ou, se infectadas, podem apresentar sintomas mais leves, e qualquer uma dessas situações seria responsável pela sub-representação na contagem confirmada de casos”, segundo os autores.

Se esse for realmente o caso, isso significa que os cientistas não possuem uma imagem completa do surto atual, pelo menos de acordo com esta amostra limitada.

O período de incubação da doença é de cerca de cinco dias, mas pode ser de até 12 dias em alguns casos, de acordo com o estudo de Li. É importante ressaltar que essa evidência sustenta o período de quarentena de 14 dias para indivíduos expostos.

Os pacientes que tiveram que ser internados no hospital tendem a ter entre 9 e 12 dias de doença. Esse atraso no aparecimento de sintomas graves pode fornecer pistas importantes sobre o vírus e como ele funciona, além de “fornecer uma janela única de oportunidade para intervenção”, escreveram Fauci e seus colegas em seu artigo relacionado.

Fauci e seus colegas disseram que “deveríamos estar preparados” para que o COVID-19 “ganhasse terreno em todo o mundo, inclusive nos Estados Unidos”. Lamentavelmente, eles dizem que talvez não tenhamos escolha a não ser sair do modo de contenção e adotar estratégias de mitigação.

Essas estratégias podem envolver “distanciamento social”, conforme formulado por Fauci et al, que envolveria o isolamento de pessoas doentes (por exemplo, ficar em casa), fechar escolas, cancelar eventos como seminários e conferências e trabalhar de casa, entre outras medidas.

Dependendo de onde você ou seus entes queridos estejam no espectro demográfico, os números apresentados nos trabalhos de pesquisa até agora são alarmantes ou dão alguma tranquilidade. Ao mesmo tempo, provavelmente não devemos comparar o COVID-19 a outros surtos, como a gripe. Esta doença e o surto que se seguiu é um problema totalmente novo. Está claro pelos dados que agora estamos em território desconhecido.