A Associated Press publicou uma matéria no início da manhã de quinta-feira (27) usando reportagens do Ningbo Evening News, uma agência com sede na China, falando que as autoridades chinesas estavam enviando 100 mil patos ao Paquistão para ajudar a combater a nuvem de gafanhotos que assola o país.

Veículos de imprensa em todo o mundo publicaram sobre a batalha entre patos e gafanhotos antes que a AP alterasse sua reportagem para observar “perguntas que foram levantadas” sobre a reportagem chinesa.



Bem, temos respostas. E, pessoal, estou aqui para informar que não tem nenhum exército poderoso de patos indo para o Paquistão para ajudar a derrotar o reino destrutivo dos gafanhotos do mal. Isso é realmente lamentável, porque a situação dos gafanhotos é muito ruim. O Paquistão declarou emergência nacional no início do mês, inclusive.

As nuvens de gafanhotos estão devastando nações da África Oriental, como Quênia e Etiópia. A República Democrática do Congo foi invadida por uma nuvem na semana passada pela primeira vez em mais de meio século. A FAO (Organização para Agricultura e Alimentação) descreve a situação como “extremamente alarmante”.

Isso se deve em parte aos insetos vorazes: a FAO diz que uma nuvem de gafanhotos do tamanho de Paris pode comer a quantidade de comida que metade da França consome em um único dia. Isso é muita comida para que as pessoas desta parte do mundo se arrisquem a perder. Mais de 40% das pessoas das regiões afetadas por gafanhotos já estão desnutridas.

Imagine só a empolgação de todos quando ouviram que patos iriam para auxiliar. Depois que uma agência chinesa reportou e citou Lu Lizhi, pesquisador da Academia de Ciência Agrícolas de Zhejiang, a história se espalhou como fogo antes da atualização da AP questionar a veracidade da história. Veículos de mídia como New York Times e ABC News reproduziram a reportagem da AP, embora agora estejam exibindo a versão atualizada. Outros veículos, como a Bloomberg, também ficaram com a história no ar por um bom tempo.

E, olha, eu entendo a razão. Um exército de patos? Quem não gostaria de escrever uma matéria sobre o assunto? Infelizmente, isso não seria nem o próximo do suficiente para fazer algo contra essa nuvem de gafanhotos, mesmo que as notícias fossem verdadeiras.

Cada quilômetro quadrado de uma nuvem pode ter entre 40 milhões e 80 milhões de gafanhotos, de acordo com a FAO. Um exército de 100 mil patos poderia comer 20 milhões de gafanhoto em um dia, segundo Keith Cressman, meteorologista sênior da FAO. Isso equivale a apenas meio quilômetro quadrado de insetos. No Chifre da África (a região Sudeste do continente), as nuvens de gafanhotos se espalharam por centenas de quilômetros em alguns países, escreveu Cressman em um e-mail para o Gizmodo.

“Não há patos o suficiente, e eles não podem comer gafanhotos do deserto o suficiente para ter um impacto significativo”, disse Cressman.

E para estragar ainda mais seus sonhos de uma batalha épica no deserto, os patos nem comem esses insetos. Os patos são aquáticos e normalmente comem insetos nas zonas úmidas em que eles conseguem pegá-los com seus bicos, disse Michael Eichholz, professor associado de zoologia da Universidade Southern Illinois, especialista em ecologia de aves aquáticas,  ao Gizmodo. Isso não apenas mantém os patos alimentados; mas também os deixam hidratados.

“Tenho certeza de que eles podem pegar gafanhotos e potencialmente sobreviver, mas há certas espécies de insetos que não evoluíram para obter água de fontes alimentares, para que não precisam ser água para beber”, disse Eichholz. “Não conheço nenhuma espécie de pato que receba umidade suficiente das fontes de alimentos e que elas também não precisam obter água. Portanto, você não pode colocá-las nesse ambiente árido sem fonte de água”.

Mesmo se os patos domesticados — que normalmente não vivem na água — acabariam lutando para sobreviver na árida paisagem do deserto, disse Eicholz.

Infelizmente, o exército de patos provavelmente não iria dar certo, mesmo que os mandem até o local com a maior boa vontade. Para o fim, deixo vocês com um vídeo (bem impreciso) como presente de despedida. Talvez um dia tenhamos nosso exército de patos prontos para enfrentar gafanhotos, mas desculpe-me CGTN, mas esse dia ainda não chegou.