A SpaceX ganhou um lucrativo contrato com a Nasa para construir o primeiro módulo lunar desde o programa Apollo. O anúncio foi uma grande surpresa, já que a empresa liderada por Elon Musk derrotou dois concorrentes promissores, incluindo a Blue Origin de Jeff Bezos.

A SpaceX terá o privilégio de colocar seu logotipo no próximo módulo lunar, de acordo com o anúncio da Nasa feito em uma conferência de imprensa nessa sexta (16). A mudança destaca a confiança crescente da agência espacial em seu parceiro comercial. A Nasa tem planos de levar astronautas à Lua novamente, pela primeira vez desde 1972.

“Esta é uma escolha corajosa e arriscada da Nasa”, disse Jonathan McDowell, astrofísico do Harvard-Smithsonian Center for Astrophysics, via Twitter. “Se a Starship funcionar conforme planejado, ela fornecerá muito mais capacidade do que os outros participantes. Mas isso é um grande ‘se’.”

A chance de a Starship não funcionar “é significativamente maior do que as opções mais tradicionais”, escreveu ele.

McDowell tem razão — essa não era a escolha segura. Um foguete de pouso vertical, ao contrário de um módulo lunar no estilo dos anos 1960, é algo que nunca foi tentado antes. Ao tomar essa decisão, fica claro que a Nasa está olhando para o futuro e para a inovação contínua nesta área.

Já se sabia que a agência espacial estava procurando o setor privado para projetar e construir um Sistema de Pouso Humano (HLS, na sigla em inglês). A Nasa distribuiu US$ 967 milhões para as três empresas chegarem a um módulo de pouso para as próximas missões Artemis. Mas a agência não alocou esses fundos uniformemente, dando à Blue Origin US$ 579 milhões, à Dynetics, com sede no Alabama, US$ 243 milhões, e à SpaceX uma quantia aparentemente simbólica de US$ 135 milhões.

A oferta da Blue Origin parecia ser a principal candidata. Além de receber a maior parte do financiamento da NASA, ela fez parceria com três grandes empresas para fazer isso acontecer: Lockheed Martin, Northrop Grumman e Draper. A Blue Origin, liderada pelo CEO da Amazon, Jeff Bezos, até entregou uma maquete em escala real de sua solução, chamada Integrated Lander Vehicle (veículo integrado de pouso, em tradução livre), em agosto do ano passado. A decisão da Nasa pela SpaceX provavelmente será um golpe para Bezos, que diz ser fascinado pela Lua desde ter visto o pouso da Apollo quando criança.

A SpaceX usará sua futura plataforma Starship para pousos lunares. O veículo incluirá uma grande cabine e duas eclusas de ar para os passeios lunares dos astronautas. É importante ressaltar que ela também é reutilizável. O contrato recém-concedido é de US$ 2,89 bilhões e, sob os termos deste acordo baseado em marcos, a SpaceX terá que demonstrar um voo de teste de pouso lunar não tripulado, como Mark Kirasich, administrador associado adjunto da divisão de Sistemas de Exploração Avançada da NASA, explicou durante a coletiva.

Kathy Lueders, administradora associada da Direção de Exploração Humana e Missão de Operações da Nasa, não forneceu detalhes sobre por que a SpaceX foi escolhida em relação às outras concorrentes, dizendo que a decisão é “parte de uma estratégia mais ampla e geral” para ir à Lua de forma sustentável. A SpaceX era a melhor opção “neste ponto”, e a Nasa agora abrirá discussões com outros parceiros comerciais para as próximas licitações. “Este é o primeiro passo”, disse Lueders.

O administrador em exercício da Nasa, Steve Jurczyk, foi mais direto, dizendo que os concorrentes foram escolhidos com base em critérios relacionados ao custo técnico, viabilidade e abordagem de gerenciamento. Embora a SpaceX tenha sido escolhida para a demonstração inicial de pouso, os diretores deixaram claro que outros parceiros comerciais estarão envolvidos conforme o projeto avança, acrescentando que a sustentabilidade será um fator chave no futuro. A Blue Origin e a Dynetics, ao que parece, ainda podem ter um papel importante a desempenhar após a demonstração de tecnologia pendente da SpaceX.

Na conferência de imprensa de hoje, a gerente do programa HLS Lisa Watson-Morgan disse que o próximo Sistema de Lançamento Espacial da Nasa (SLS, na sigla em inglês) continua sendo um componente crítico do Artemis. O foguete gigante vai entregar a cápsula Orion — junto com sua tripulação — a um ponto de encontro predeterminado na órbita lunar. Idealmente, este ponto será o Lunar Gateway, um posto avançado lunar permanente que ainda precisa ser construído. Lá, a tripulação sairá do Orion e entrará no SpaceX HLS. A tripulação pousará na Lua, realizará seus deveres, retornará à Starship e voltará ao posto avançado.

Quanto à SpaceX, ela lançará uma Starship da Terra, reabastecerá o veículo na órbita terrestre baixa, entregará o HLS ao ponto de encontro e fará com que espere pela tripulação do Artemis. Estranhamente, a SpaceX não participou da coletiva dessa sexta.

Protótipos da Starship estão sendo testados na instalação da SpaceX em Boca Chica, no Texas. Esses testes parecem estar indo relativamente bem, principalmente nos aspectos de lançamento, mas a empresa ainda não conseguiu pousar o foguete sem que ele explodisse em uma enorme bola de fogo. Elon Musk espera que a próxima geração de protótipos, começando com o SN15 atualizado (atualmente na plataforma de lançamento em Boca Chica), tenha um desempenho melhor do que as versões anteriores.

O novo contrato é “um grande triunfo para a SpaceX” e “mostra a confiança que a Nasa ganhou na empresa enquanto trabalhava com eles nos lançamentos de carga útil do Falcon 9 e depois no Crew Dragon”, disse McDowell.

Kirasich disse que 2024 ainda é a meta para um pouso tripulado na Lua. Dada a importância do Lunar Gateway para a arquitetura da missão, no entanto, esse alvo parece cada vez mais implausível.

Sob a administração de Trump, a NASA foi instruída a levar astronautas novamente à Lua até 2024, mas o presidente Biden ainda não se comprometeu com esta data ambiciosa (sua equipe está atualmente trabalhando em um novo cronograma), apesar de se comprometer com o programa Artemis em si. De forma empolgante, o governo Biden também se comprometeu a enviar uma mulher e um homem à Lua, e também a primeira pessoa negra.