O músico Neil Young tem uma carreira longa: são 45 anos de estrada e mais de 35 álbuns. Esta semana, ele entrou para a lista de celebridades que estão se rebelando contra serviços de streaming – mas por motivos bem questionáveis.

As músicas de Neil Young ainda estão no Spotify e Apple Music, mas devem ser removidas no futuro próximo. Não é pelo dinheiro: é que a qualidade de áudio não é lá essas coisas. Ele diz no Facebook:

O streaming acabou para mim. Espero que isso seja ok para os meus fãs.

Não é por causa de dinheiro, embora a parte que cabe a mim tenha sido drasticamente reduzida (como com todos os outros artistas) em maus negócios feitos sem o meu consentimento.

É sobre a qualidade do som. Eu não preciso que minha música seja desvalorizada pela pior qualidade na história da radiodifusão ou de qualquer outra forma de distribuição. Eu não me sinto bem permitindo que isto seja vendido para os meus fãs. É ruim para minha música.

Fico feliz que ele esclareceu isso! Por um segundo, eu pensei que Neil Young estaria tomando uma posição contra a exploração econômica de sua obra. Isso seria compreensível. Mas não, Neil Young está em sua cruzada na defesa da qualidade do som – que é baseada em ciência ruim.

Vamos recapitular: Neil Young acredita que nem mesmo a qualidade de CD (44,1 kHz/16-bit) é boa o suficiente. Ele é uma das principais vozes no movimento do áudio de alta resolução (HRA), um grupo vocal de nerds de áudio e empresas que dizem que nós perdemos a qualidade de áudio na transição para o digital. (Isso é verdade.)

A solução? Usar hardware caro e arquivos de áudio enormes a 192 kHz/24-bit. Young até abriu uma empresa, a Pono, para fabricar um gadget de US$ 400 que reproduz essas músicas em HRA com precisão.

PonoPlayer

O problema é que não há ciência respeitável para provar que o áudio de alta resolução soa diferente ao ouvido humano do que a qualidade comum de CD.

Um estudo de 2007 fez um teste duplo-cego com uma grande amostra de ouvintes, que não conseguiram notar a diferença nas altas taxas de áudio. Por sua vez, o especialista em codecs Monty Montgomery diz que o HRA “é uma solução para um problema que não existe, um modelo de negócios baseado em ignorância intencional e enganação das pessoas”.

Tecnicamente, a maioria dos serviços de streaming usa arquivos de áudio com perdas: ou seja, eles não são uma cópia matematicamente perfeita da fonte original. Em tese, um ser humano normal pode notar a diferença se ouvir atentamente. No entanto, a maioria das pessoas racionalmente prefere perder um pouco de qualidade para ter a conveniência de acessar milhões de músicas com facilidade.

Não é mais importante atender ao máximo de fãs possível, em vez de discutir sobre gradações minúsculas de qualidade de áudio que a maioria das pessoas mal consegue notar?

Afinal, se levarmos o argumento de qualidade às últimas consequências, Young teria que retirar suas músicas das rádios AM e FM, do iTunes e de várias outras lojas. Restariam o Tidal, do Jay-Z, que oferece streaming a taxas mais altas; e a PonoMusic, loja que vende músicas em alta resolução, cujo dono é… Neil Young. [Stereogum]

Foto por kris krüg/Flickr