Estreou na madrugada de quinta para sexta o primeiro conteúdo exclusivo do Netflix Brasil: “A Toca”, seriado produzido pela Parafernalha, produtora criada por Felipe Neto. Porém, muito mais do que pensar se você gostou ou não dos três capítulos de meia hora da série, trata-se de um momento de pensar em algo maior – pensar no cenário de produção de conteúdo no Brasil, e como o Netflix enxerga tudo isso.

“A Toca” surge como o primeiro seriado exclusivo do Netflix por aqui, mas a empresa faz questão de deixar claro que, não, ele não é um “Netflix Original”. Uma produção original do Netflix são seriados grandiosos, como House of Cards e Orange is the New Black, principalmente por causa do alto investimento e dos elencos hollywoodianos. O seriado de Felipe Neto, no entanto, foi sim produzido com dinheiro do Netflix, mas como era de se esperar, menos dinheiro do que as produções americanas.

Era de se esperar porque, hoje, há pouco mais de um milhão de assinantes de Netflix na América Latina. Mesmo o Brasil sendo o primeiro da lista local, segundo a empresa, o investimento, claro é menor. Nos EUA, com 30 milhões de assinantes, o Netflix vislumbra um futuro grandioso. Ted Sarandos, diretor de conteúdo da empresa, cunhou a agora famosa frase: o Netflix quer ser a HBO antes que a HBO seja o Netflix.

Pois bem. Aqui, o Netflix quer ser o YouTube antes que o YouTube seja o Netflix.

Conversei com Felipe Neto sobre a produção de “A Toca”, e o ator e produtor deixou claro que trata-se de uma continuação do trabalho do seriado que já existia no canal da Parafernalha. Porém, antes com média de 8 minutos, os vídeos agora foram dividos em três episódios de 30 minutos – algo novo para a produtora, que sempre focou seu trabalho no YouTube.

O crescimento do YouTube no Brasil é monstruoso. São diversos os canais com média de mais de 1 milhão de visualizações por vídeo. Faça uma comparação rápida com a televisão: cada ponto do Ibope corresponde a 60 mil casas assistindo ao programa em São Paulo. Os números de consumo do YouTube no Brasil são gigantescos. E muitas empresas não querem apenas que o Google sorria com isso tudo, certo?

Felipe Neto me mostrou alguns números da Parafernalha, e eles são bem altos: média de 15 a 20 milhões de visualizações por mês, com 56 milhões de minutos assistidos. Também mostrou números mostrando que, diferente do que este que vos escreve disse, o público da Parafernalha não é tão jovem assim: 29% dos espectadores têm entre 18 a 24 anos, enquanto 23% deles têm entre 25 a 34 anos. “Eu fiz questão de desvencilhar minha imagem da Parafernalha por um tempo para podermos atingir este novo público”, ele diz.

Mas, mais do que números, Neto tem algo menos palpável, mas sensível, ao seu favor: depois de anos vivendo no mundo da pirataria e bradando por soluções eficazes e baratas, o brasileiro parece estar se acostumando a pagar mais por conteúdo. Jogando limpo, tendo uma boa estrutura e oferecendo qualidade, serviços como Netflix, Rdio, Deezer e afins estão derrubando a barreira de que “na internet, tudo é de graça”. Não é: quem produz o conteúdo deve ser remunerado por isso, e se você gosta de tal conteúdo, é seu dever também apoiar o artista, para que ele produza mais conteúdo do seu interesse.

Quem assina hoje o Netflix é quem gosta de séries, principalmente, e é o tipo de público que gosta também de explorar o YouTube. Por isso mesmo, faz todo o sentido (com o perdão do trocadilho com o nome do vlog do Felipe Neto) o movimento da empresa em investir em conteúdo que está grande na janelinha do YouTube. Não adianta tentar aqui encarar gigantes como a Globo – esse público ainda está distante do streaming. Como o Google procura cada vez mais formas de monetizar seu conteúdo – não só com publicidade, mas também canais pagos, algo que recentemente foi lançado lá fora – o Netflix precisa fazer esse movimento: ser o meio termo entre a televisão e o YouTube. Dar a liberdade que os produtores têm no YouTube, mas com a promessa de maior penetração e um público mais focado no conteúdo – sem tantas abas abertas e pop-ups de publicidade.

O Netflix nunca anunciou a audiência de seus programas, e apesar de isso incomodar vários analistas, o movimento da empresa faz sentido. Os canais de televisão medem a audiência principalmente para vender conteúdo publicitário. Se o Netflix não veicula propagandas, o que importa para eles é menos tangível do que estamos acostumados – é a capacidade de atrair novos clientes. Se Kevin Spacey ou Jenji Kohan são nomes fortes para atrair assinantes nos EUA, Felipe Neto surge como a primeira arma nacional para angariar mais assinantes. No fim, para o Netflix uma busca no Twitter pode interessar mais do que o número de plays. “A recepção foi incrível, e eu recebi muitas mensagens de pessoas que estão dispostas a assinar o serviço”, disse Felipe.

Mais do que cliques e assinantes, Felipe Neto espera que “A Toca” abra as portas para novos conteúdos serem produzidos de forma ainda mais profissional, e atingindo públicos maiores. “Há muita produção nacional de altíssimo nível. Saber que o Netflix escolheu o Brasil dentre tantos outros países para produzir seu primeiro conteúdo exclusivo fora dos EUA é um sinal muito importante”. Sem dúvida é. E é a chance, enfim, de termos um meio termo interessante para todos: séries mais livres, produzidas por uma nova geração que não tem tanto interesse assim em chegar aos grandes canais, cheios de burocracias e egos – a Porta dos Fundos está aí para provar que não é preciso mais ir ao horário nobre para chamar tanta atenção. E que venham mais seriados. Até com o nome Netflix Original, quem sabe.