Dados iniciais de um estudo em andamento no Reino Unido estão gerando uma onda de alarme sobre a pandemia nesta semana. Foram encontradas evidências de que os níveis de anticorpos contra SARS-CoV-2 caíram drasticamente na população geral da Inglaterra durante o começo do segundo semestre, gerando temores de que a imunidade ao COVID-19 pode diminuir significativamente em apenas três meses.

Embora as descobertas do estudo sejam relevantes, elas não são tão assustadoras quanto parecem. Esses tipos de estudos por si só não podem nos dizer se a imunidade desaparece tão rapidamente. O que é mais importante ainda é que os anticorpos não são o único fator que determina a imunidade a doenças infecciosas como o COVID-19. Outra pesquisa, incluindo um estudo publicado nesta quarta (28), sugere que nossos anticorpos mais importantes contra o coronavírus não correm tanto perigo quanto o estudo do Reino Unido indica.

Pesquisadores do Imperial College London, com a ajuda do governo, têm conduzido o estudo Real Time Assessment of Community Transmission (avaliação em tempo real da transmissão comunitária, em tradução livre), ou REACT, na Inglaterra desde o início do verão no país. Uma parte do projeto foca nos níveis de anticorpos contra o coronavírus na comunidade, pedindo às pessoas que usem testes para levar para casa e coletar uma amostra de sangue por punção digital.

Esta semana, no site de pré-impressão (que publica estudos ainda não revisados por pares) medRxiv, os pesquisadores divulgaram dados preliminares do estudo, envolvendo mais de 350.000 residentes.

No final de junho, eles descobriram, cerca de 6% dos voluntários tinham níveis detectáveis desses anticorpos. Mas em setembro, esse número caiu para 4,4%.

“Considerando as evidências, eu diria, com o que sabemos sobre outros coronavírus, que parece que a imunidade diminui na mesma taxa que os anticorpos diminuem, e que isso pode indicar uma redução de imunidade a nível da população”, Wendy Barclay, chefe do Departamento de Doenças Infecciosas do Imperial College London, disse a repórteres em uma conferência que anunciou os resultados esta semana.

Barclay está absolutamente certa em apontar que nossa imunidade a outros coronavírus desaparece com o tempo. Os especialistas há muito dizem que o mesmo provavelmente acontecerá com o coronavírus que causa a doença COVID-19, em algum momento.

Mas, além disso, a imunidade a qualquer doença específica pode ser um nó difícil de desemaranhar. E embora esses resultados possam ser válidos, dado o grande tamanho da amostra, as implicações para nossa imunidade ao COVID-19 não são tão claras.

Por um lado, é perfeitamente normal ver os níveis de anticorpos contra qualquer germe recente cair com o tempo. Portanto, ver esse declínio nos últimos três meses não é, por si só, prova de que a imunidade desaparecerá nesse período.

A outra consideração é que nem todos os anticorpos são iguais. Os mais importantes são chamados de anticorpos neutralizantes, porque eles podem impedir diretamente algo como o coronavírus de infectar novas células. Mesmo que os níveis de anticorpos contra o coronavírus caiam em curto prazo, a maioria das pessoas que já foram infectadas ainda pode ter anticorpos neutralizantes suficientes para interromper a reinfecção por mais algum tempo.

Ainda esta tarde, um novo estudo parece mostrar exatamente isso acontecendo. O estudo, publicado na Science, analisou os níveis de anticorpos entre 30.000 nova-iorquinos diagnosticados com níveis leves a moderados de COVID-19. Três meses após a infecção, os pesquisadores continuaram a encontrar um nível estável de anticorpos neutralizantes em mais de 90% de seus voluntários; em um subconjunto de voluntários atendidos cinco meses após a doença, os níveis caíram apenas um pouco.

“Embora isso não possa fornecer evidências conclusivas de que essas respostas de anticorpos protegem contra reinfecção, acreditamos que é muito provável que diminuam as chances de reinfecção”, escreveram os autores.

Como especialistas disseram ao Gizmodo anteriormente, os níveis atuais de anticorpos de uma pessoa não são o único fator relevante para analisar a imunidade. Nosso sistema imunológico também tem células B de memória, que despertam o restante dele quando detectam um germe que reaparece, incluindo o aumento da produção de anticorpos. Isso geralmente resulta em uma resposta imunológica muito mais rápida na segunda vez.

Além disso, existem certas células T que “lembram” um germe do passado e entram em ação quando ele tenta nos reinfectar. Esses outros componentes podem não impedir totalmente a reinfecção por coronavírus, mas geralmente tornam o segundo caso muito mais fácil de ser tratado pelo corpo.

Tudo isso é muito complicado e há muito sobre nossa resposta imunológica ao coronavírus que ainda estamos começando a entender (sem mencionar como essas respostas afetarão a eficácia de uma vacina). Infelizmente, houve vários relatos de reinfecção confirmada em vários países, incluindo os EUA. Em alguns, mas não na maioria desses casos, o paciente apresentou sintomas mais graves na segunda vez e pelo menos uma pessoa morreu após a reinfecção. Mas muitos especialistas não acham que essas reinfecções estejam acontecendo em massa agora, embora ainda faltem os dados necessários para confirmar com que frequência isso acontece.

A principal lição aqui é que devemos ter cuidado ao tirar conclusões precipitadas sobre quaisquer estudos de anticorpos que soem assustadores. Ainda é verdade que buscar uma “imunidade de rebanho” é uma ideia ridícula e perigosa, porque vai levar a muitas mortes e infecções evitáveis, não porque vamos ser todos reinfectados em alguns meses.

De fato, como observei em junho, o perigo mais presente do COVID-19 continua sendo o primeiro surto de infecção. Apesar de os EUA estarem agora no meio de seu terceiro grande pico da pandemia, a maioria dos americanos — e, de fato, das pessoas ao redor do mundo — ainda não pegou a doença. Esperamos que a maioria de nós nunca pegue.