De acordo com um artigo pulicado nesta segunda-feira (29) no Proceedings of the National Academy of Sciences, os humanos e outros mamíferos têm as mesmas bases genéticas que a cobra para desenvolvimento de veneno via oral. Essa conexão foi descoberta por uma equipe de pesquisa que examinou o tecido produtor de veneno de 30 víboras da espécies habus, natural do leste da Ásia. Os pesquisadores analisaram os genes dos animais para entender quais tinham um papel na expressão das proteínas complexas que compõem o veneno das cobras.

As toxinas no veneno desses animais evoluem rapidamente e é difícil ter uma noção de como as antigas toxinas podem ter se diferido daquelas sequestradas nas glândulas dos animais atuais. Em vez de procurar por esses estados anteriores, os pesquisadores Agneesh Barua e Alexander S. Mikheyev, do Instituto de Ciência e Tecnologia de Okinawa do Japão, examinaram os genes que são instrumentais na produção das toxinas. É como não ser capaz de ouvir uma música antiga, mas, em vez disso, obter uma ideia de como outras músicas derivaram dela com base nas regras comuns de ritmo, compasso e notas.

Depois de aprender como os genes expressavam proteínas relacionadas a toxinas, o próximo passo foi estabelecer correlações entre os genes, no caso, quais estavam mais ou menos associados. Assim, os pesquisadores descobriram que os genes do veneno eram aqueles que trabalhavam para manter a estrutura da proteína, além do cultivo de um ambiente biológico que permitia a produção de uma grande quantidade delas.

“Isso faz todo o sentido, porque o veneno é um coquetel feito de proteínas de toxinas”, disse Barua por e-mail ao Gizmodo. “É vital que a estrutura proteica dessas toxinas seja mantida. Caso contrário, o veneno não funciona e o animal não seria capaz de fisgar sua presa”.

“Isso sugere que existe uma estrutura molecular comum entre as glândulas de veneno em cobras e o tecido salivar em mamíferos não venenosos”, afirmou Barua, acrescentando que o atributo compartilhado representa uma composição genética antiga herdada por ambos os grupos de animais modernos.

Uma víbora Russel em um centro de extração de veneno na Índia em 2016. Foto: ARUN SANKAR/AFP (Getty Images)

Alguns mamíferos têm veneno; ambos os tipos vivos de monotremados têm glândulas para injetar toxinas, embora apenas dos ornitorrincos sejam funcionais. As espécies musaranhos e lóris lentos também podem desencadear uma picada tóxica – a deste último envolve a combinação de saliva com secreções da glândula sudorípara. No geral, entretanto, o mundo reptiliano compartilha algumas características com os mamíferos, produzindo uma grande variedade de espécies com um repertório de diferentes venenos.

As glândulas salivares de ratos, cães e humanos, por exemplo,  se parecem geneticamente com as de nossos primos distantes e escorregadios. Contudo, ainda não se sabe por que as serpentes se tornaram especialistas em toxicidade, enquanto os mamíferos apenas manifestam essa característica útil de forma superficial.

“É provável que o ancestral das cobras venenosas tivesse uma vantagem particular no desenvolvimento de secreções orais, o tipo de vantagem que os ancestrais dos musaranhos ou dos ratos não tinham”, disse Barua. “Pode-se imaginar que as condições para os ancestrais não peçonhentos das cobras eram ‘perfeitas’ para desenvolver o veneno.”

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É teoricamente possível que as glândulas salivares não peçonhentas de mamíferos, como as de humanos ou camundongos, possam eventualmente se tornar venenosas. Mas, é meio difícil imaginar qual seria o propósito adaptativo do veneno para nós, com toda a cadeia de abastecimento global e tudo mais.

Por enquanto, pelo menos, a pesquisa é um lembrete de que a vida complexa neste planeta tem raízes compartilhadas muito antigas, e até mesmo répteis e mamíferos são geneticamente ligados.