Vários dos produtos anunciados durante o evento anual de iPhone da Apple, realizado nesta quarta-feira (12), certamente animarão as pessoas. Porém, é a quarta e mais nova iteração do Apple Watch que pode ter grandes repercussões nas questões de saúde.

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O Apple Watch já era propagandeado como um monitor de frequência cardíaca. Agora, ele terá sensores capazes de fazer o eletrocardiograma (ECG) de um usuário; ele também será capaz de avisar o usuário se ele possivelmente tem uma condição cardíaca séria chamada de fibrilação atrial.

Embora essas alegações possam parecer o tipo de afirmação grandiosa feita por qualquer empresa tentando vender sua tecnologia wearable, a Apple aparentemente está fazendo coisas reais. Não apenas os novos recursos do relógio foram aprovados pela Associação Americana do Coração, como eles também foram liberados pela FDA (órgão norte-americano equivalente à Anvisa) como um novo tipo de dispositivo médico.

“Capturar dados significativos sobre o coração de alguém em tempo real está mudando a forma como praticamos a medicina”, disse Ivor Benjamin, presidente da Associação Americana do Coração, no palco imediatamente após o anúncio do relógio pelo diretor de operações da Apple, Jeff Williams.

Os ECGs são basicamente o padrão de excelência da medição de frequência cardíaca. Em um consultório médico, os eletrodos colocados perto do coração registram a atividade elétrica do órgão batendo, permitindo uma medição instantânea.

O Apple Watch redesenhado, em comparação, tem um eletrodo acoplado na traseira, assim como na coroa. Para usar o app e obter uma leitura, você coloca seu dedo na coroa por 30 segundos. Se o seu batimento cardíaco estiver normal, a leitura vai aparecer como um ritmo sinusal. Mas se não estiver, o relógio vai te notificar que você pode ter fibrilação atrial, um batimento cardíaco irregular, normalmente muito rápido, que pode diminuir o fluxo sanguíneo e aumentar o risco de outras condições cardiovasculares, como ataque cardíaco e derrame. Os dados dessas leituras, segundo a Apple, serão criptografados, permitindo aos usuários compartilhá-los apenas se quiserem, podendo levar a seus médicos por meio de um PDF.

Outros novos recursos do relógio incluem a possibilidade de notificar usuários se sua frequência cardíaca está baixa demais e de ligar para a emergência se você cair e ficar no chão sem se mexer por um minuto, algo parecido com sistemas de alerta médico como o Lifealert. Ele tem até uma tela maior.

Depois de a Apple anunciar que o recurso de ECG do relógio, assim como sua capacidade de detectar fibrilação atrial, havia sido liberado pela FDA, a agência lançou seu próprio comunicado.

“A FDA trabalhou junto com a empresa à medida que eles desenvolveram e testaram esses produtos de software, que podem ajudar milhões de usuários a identificar preocupações com a saúde mais rapidamente”, disse o chefe da FDA, Scot Gottlieb.

Apesar das alegações da empresa, o Apple Watch na verdade não é a primeira peça de tecnologia wearable a ter capacidade de ECG. Em novembro do ano passado, um anexo de sensor para o Apple Watch com características semelhantes, o Kardiaband, também foi liberado pela FDA. E a empresa por trás desse acessório, a AliveCor, já tinha sua tecnologia de monitoramento de ECG liberada pela FDA para uso sem prescrição. Mas as tecnologias utilizadas no relógio, de acordo com os documentos sumários oficiais detalhando a sua liberação, são únicas o suficiente para fazerem com que ambas sejam classificadas como novos dispositivos médicos.

O potencial desses wearables é certamente alto. Estima-se que entre 2,7 e 6,1 milhões de americanos tenham fibrilação atrial, com cerca de 750 mil pessoas sendo enviadas ao pronto-socorro anualmente como resultado disso. E parte do que torna a condição tão perigosa é que, muitas vezes, as pessoas podem tê-la e não apresentar sintomas visíveis.

Mas devemos também ser um pouco cautelosos sobre a empolgação em torno desses recursos. Como até mesmo a FDA aponta em seu documento sumário, o aplicativo de ECG não deve ser usado em pessoas com menos de 22 anos e também não é recomendado para pessoas com outras doenças cardíacas conhecidas que possam perturbar o ritmo do seu coração.

No documento sumário da segunda funcionalidade que notifica as pessoas de uma possível fibrilação atrial, a agência também aponta que o aplicativo “não tem a intenção de fornecer uma notificação sobre cada episódio de ritmo irregular sugestivo de fibrilação atrial, e a ausência de uma notificação não é uma indicação de que nenhum processo de doença esteja presente”.

Essa ressalva é bem importante!

Outros wearables, como o Fitbit, aguentaram sua cota de críticas por causa da queda de precisão de sua tecnologia de frequência cardíaca quando as pessoas estão se movendo. ECGs normais sejam melhores em lidar com movimento do que sensores à base de luz encontrados em outros rastreadores de atividades. Mesmo assim, vale a pena estudar se sua precisão pode se degradar ao serem miniaturizados para dentro de um relógio. E, além de não detectar todo caso de fibrilação atrial, também existe a preocupação de que os usuários vão se assustar e correr para o médico caso falsos positivos defeituosos aconteçam na leitura.

Todas essas preocupações não deveriam diminuir a importância do anúncio da Apple. Em primeiro lugar, a decisão da empresa de ganhar aprovação da FDA é um passo significativo para um dia validar a utilidade desses dispositivos em ajudar a melhorar as nossas vidas — contanto que você consiga pagar pelo preço base de US$ 399, é claro. Este é um passo que outros fabricantes, talvez, precisem repetir para permanecer competitivos com a Apple. Só não espere qualquer milagre do seu relógio.

Imagem do topo: Apple