Na semana passada, a Agência Espacial Europeia divulgou uma foto curiosa, capturada pelo satélite Mars Express: uma formação de nuvens com 1.496 quilômetros de extensão, saindo do enorme vulcão Arsia Mons, que tem 17,8 quilômetros de altura. O fenômeno tem sido observado há várias semanas seguidas. Ele certamente deu uma aparência de que o vulcão estava prestes a explodir, o que seria curioso, já que sua última erupção data de cerca de 50 milhões de anos atrás, segundo estimativas.

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Acontece que há uma explicação muito mais simples do que o Arsia Mons ter voltado à ativa, de acordo com o New York Times: um fenômeno meteorológico rotineiro chamado levantamento orográfico. É quando o vento, ao bater em uma estrutura maciça como uma montanha — o Arsia Mons, neste caso —, é forçado a ir para cima, resfriando e se expandindo devido à pressão atmosférica mais baixa. Como resultado, o vapor de água contido no interior pode condensar e congelar em nuvens (o levantamento orográfico é uma das razões pelas quais, na Terra, as regiões montanhosas tendem a ser particularmente nubladas).

A atmosfera marciana pode ser muito menos densa do que aquilo a que nós, terrestres, estamos acostumados. Ela contém uma quantidade tão pequena de água que se estima ser de apenas 20 microns de profundidade se fosse espalhada uniformemente na superfície do planeta. Mas, mesmo assim, ainda tem nuvens de gelo. O Dr. Eldar Noe Dobrea, cientista sênior do Instituto de Ciência Planetária, disse ao New York Times que não há chance de que espaçonaves em órbita falhem em detectar os sinais reveladores de uma erupção próxima e que não há nada de incomum nas formações de nuvens no lado oeste do vulcão:

O Dr. Noe Dobrea disse que isso não é um evento vulcânico, porque as espaçonaves teriam detectado um aumento no metano, no dióxido de enxofre e em outros gases que saem das erupções. Em vez disso, esse é um exemplo de como a topografia afeta o clima.

De fato, é raro não haver nuvens sobre Arsia Mons. Há mais de uma década, o Dr. Noe Dobrea analisou observações de uma missão anterior da NASA, a Mars Global Surveyor, tentando coletar uma imagem livre de nuvens da superfície marciana. Porém, toda vez que a espaçonave passava pelo flanco ocidental de Arsia Mons, estava nublado.

“Acontece que nenhuma das observações teve, em nenhum momento, uma visão limpa da superfície neste ponto”, disse ele.

Como a Motherboard observou, os cientistas detectaram nuvens semelhantes em 2009, 2012 e 2015, durante todo o inverno marciano — o que também está ocorrendo agora, acompanhado por recentes tempestades de poeira que podem ter tornado as nuvens mais visíveis (essas tempestades de poeira lançam minúsculos grãos para a atmosfera, fornecendo uma âncora ideal para o congelamento do gelo).

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Marte costumava ser geologicamente muito mais ativo, com evidências recentes indicando que, se há um vulcanismo ativo no planeta, seu escopo é muito limitado em comparação com seu passado distante. Por exemplo, o enorme vulcão Olympus Mons — a montanha planetária mais alta conhecida no Sistema Solar, a uma altitude estimada de 21,9 quilômetros — pode estar adormecido, e não totalmente inativo.

No entanto, em geral, como escreveu a Conversation no início deste ano, o planeta tem muito menos massa do que a Terra, e acredita-se que ele perdeu tanto da sua energia térmica que qualquer atividade vulcânica restante seria tão rara a ponto de dificultar a observação de qualquer nível mínimo, pelo menos em uma escala de tempo tão fugaz quanto uma vida humana. Pode levar milhões de anos até que os maiores vulcões do planeta consigam fazer jorrar rochas fundidas.

Então, não, desculpe, mas essas nuvens não são uma indicação de que Marte está prestes a explodir. Mas fique à vontade! Divirta-se um pouco com algumas das mais estranhas teorias da conspiração, como se tudo isso fosse uma ação da NASA orquestrada para esconder que eles estragaram Arsia Mons enquanto construíam uma base secreta nas redes de cavernas.

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[New York Times]

Imagem do topo: ESA/GCP/UPV/EHU Bilbao (ESA)