Depois de sei lá quanto tempo, eu entro no Orkut e a primeira coisa que vejo é a atualização automática de três amigos dizendo que estão agora no Google+. Dou uma olhada nos scraps, o espaço que há quase uma década checava compulsivamente e vejo a terra arrasada: mensagens de amigos que viraram zumbis de spammers, com links para “o vídeo que fiz de nós dois” (um .zip) e mensagens de “feliz aniversário”. De 2010. A rede social criada por um funcionário do Google neste 24 de janeiro de 2004 rapidamente virou brasileira (desde 2008 era controlada, inclusive, pelo Google Brasil) mas acaba de perder o trono no País para o Facebook. Há este bolinho tímido ali no blog oficial, que inclusive parece meio mal-feito, uma mensagem de poucas palavras, mas há o que comemorar?

Provavelmente não. Ok, o Orkut ainda é muitíssimo acessado, ganhou um app para iPhone na semana passada (dando uma nova definição à palavra “atrasado”) e está mais bonito que há alguns anos, mas ele está claramente em declínio. Fortíssimo declínio – segundo o Alexa, ele perdeu mais de 20% de audiência nos últimos 3 meses e saiu de segundo para 9º site mais acessado do País em menos de um ano. O Facebook é a rede social da vez, para usuários e marcas e a sensação que se tem é que mesmo o Google, pai da criança, não tem mais interesse. Pudera. Gerenciar essa bagunça que é o Orkut dá muito trabalho. Há aquele monte de processos por “perfis fakes que caluniaram”, a necessidade de colaborar com a justiça para caçar pedófilos e racistas ou fechar comunidades de pirataria bem antes do escândalo Megaupload. De ferramentas de migração de fotos a publicidade por todos os lados, há várias mensagens subliminares pedindo com carinho para os orkuteiros deixarem logo o Orkut em troca do Google+, para que o Google possa fechar a lojinha, como eles têm feito com tantos outros serviços.

Não sei se fico exatamente triste por ver o Orkut comemorando seu oitavo aniversário de maneira tão melancólica. Porque eu me recordo bem como era a coisa em 2004. Havia aquela coisa de “clube exclusivo”, de pessoas que só entravam com convite e tudo, e se as pessoas reclamam do exibicionismo e futilidade que é o Facebook, deveriam se lembrar da infância do Orkut. A briga era para ver quem tinha mais “fãs” (ou a proporção de amigos e admiradores), qual a porcentagem de amigos que achava você “atraente”, quem recebia o “testimonial” mais meloso do namorado. Era uma novidade, mas um grande pedaço do Orkut era a realização de bobagens adolescentes, com as pessoas experimentando com as ferramentas narcisísticas, sem muita noção dos problemas do excesso de exposição: todo mundo tem alguma história de briga com a(o) namorada(o) depois de um scrap “daquela amiga”.

Mas não foi só como um proto-Facebook que o Orkut prosperou. A rede achou no Brasil a grande vocação como fórum, com comunidades gigantescas de gente tirando dúvidas de gadgets, discutindo futebol, videogames ou trocando informações sobre as séries favoritas – inclusive arquivos das mesmas. Com a proliferação de blogs especializados, o Twitter e o próprio Facebook, o Orkut foi perdendo a razão de ser, por melhor que ele já tenha sido em termos de interface.

É claro que ainda há muita gente acessando, mas uma rede social virtual só faz sentido quando a sua rede social está junta, conversando. À medida que os seus amigos vão saltando o barco, ela perde a razão de ser, e morre. Este processo no Orkut está acelerado, já que nem mesmo o pai parece muito preocupado em mantê-lo vivo. Um bom “jogo de Orkut” (lembra desses?) agora seria apostar em quando que ele sairá do ar. Chuto antes do fim deste ano ainda. Em 2013, esse papo de “testimonials” se tornará uma relíquia da internet, ali do lado do Geocities.