Hoje, o Google será tostado, fatiado e fritado no Congresso americano, que está em cima do gigante das buscas com acusações de atividade anticompetitiva. Há duas possibilidades: o Google está violando a lei ou é apenas vítima de seu próprio sucesso.

O lado contra o Google

No resumo, os competidores do Google acreditam que o gigante das buscas está criando uma hegemonia massiva e injusta na internet. Se você é o Yelp, você está pê da vida com o Google Places pelo tratamento preferencial que ele tem quando as pessoas buscam resenhas de restaurantes. Se você é o Yahoo!, você odeia que o Google Maps seja o primeiro resultado para a busca “maps”. Isso também funciona para e-mail, viagens e compras, e é por isso que executivos da Nextag, da Expedia e da Yelp irão servir de testemunhas contra o Google e seu CEO, Eric Schmidt.

O testemunho que Jeremy Stoppelman, CEO da Yelp, pretende dar hoje ao Congresso estabelece de forma bem sucinta a queixa como um todo:

O Google não está mais no negócio de levar às pessoas às melhores fontes de informação da web. Agora ele espera ser o próprio destino final em um mercado vertical após o outro, incluindo notíticas, compras, viagens e, agora, resenhas de locais de trabalho. Uma coisa seria se esses esforços fossem conduzidos em um campo neutro, mas a realidade é que eles não são. A experiência em minha indústria diz: o Google força os sites de resenhas a promover seu conteúdo de graça para benecifiar o próprio produto do Google — não os consumidores. Assim, o Google dá aos seus produtos tratamento preferencial nos resultados de buscas do site.

Em resposta às nossas objeções, o Google informou-nos que apenas cessaria a prática se nós concordássemos em sermos removidos do index de busca do Google, impedindo assim que o Yelp aparecesse em qualquer resultado de busca no Google. Isso é, claro, uma falsa escolha. A posição dominante do Google no mercado previne que serviços como o Yelp exerçam qualquer tipo de escolha: é uma escolha entre permitir que o Google coopte o conteúdo de alguém e não tenha competição alguma.

Em outras palavras: o Google é dono das buscas, as empresas precisam do Google, o Google força as empresas a sentarem na mesa das crianças ou morrerem de fome. Empresas como a Yelp entendem que o Google é culpado na acusação de conduta anticompetitiva porque eles ludibriam as massas que usam a internet e pensam que podem fazer as próprias escolhas — na verdade, nós estamos passeando por uma grande plantação idêntica onde apenas os produtos do Google importam.

O lado a favor do Google

Eric Schmidt deu o claro posicionamento da empresa: “Usuários podem e irão mudar. O preço para ir a outros lugares é zero, e usuários podem e usam outras fontes para encontrar a informação que procuram”. Diferente da Microsoft, que fez um caminhão de dinheiro porque nós não tínhamos escolha nenhuma a não ser comprar um PC com Windows instalado, usar o Bing e o Yahoo! é fácil e é de graça. Tudo que o Google oferece é de graça. E se nós não gostamos de algo, nós podemos usar um competidor. Além disso, a competição anda muito bem ultimamente! Não gosta de Android? Compre um Windows Phone. Não gosta do Google Maps? Use o Bing Maps. E por aí vai. O Google é muito popular porque, na maioria dos casos, ele é o melhor — O Hotmail continua uma dor de cabeça, o MapQuest é constrangedor e, talvez até por razões puramente psicológicas, a busca do Google ainda é considerado o padrão de ouro quando o assunto é “o que a internet pode oferecer”. Vendo por esse lado, o Google está sendo atacado basicamente por ser melhor do que os outros.

E, por fim, é tão injusto assim que eles favoreçam seus próprios produtos? Se eles forem transparentes sobre isso, e continuarem oferecendo a opção de as pessoas clicarem em outros lugares, eu não consigo enxergar como injustiça. Quando você vai ao McDonalds, você não reclama ao não encontrar um Whopper do Burger King. Se o Google se considerar um portal de serviços, por mais tosco que ele seja, em vez de um simples mecanismo de busca, boa parte das reclamações perde sua base. Se essa é a situação de fato, avaliar o caso por este prisma faz a situação parecer muito menos um caso horrível de monopólio.

O que o Google diz sobre seu sistema de ranking de páginas?

O Google está sendo acusado de turbinar artificialmente seus próprios produtos, em vez de deixar apenas seu algoritmo sagrado fazer o serviço. Ouvir o posicionamento oficial nesse sentido, sendo pressionado pelo governo, será interessante e crucial para a discussão. Se o Google está controlando o sistema sem contar para ninguém, é difícil ter muita simpatia à empresa no caso. O Google, claro, nega as acusações, dizendo que “nós ranqueamos os resultados de busca para entregar as melhores respostas aos usuários, e essa é o único objetivo — sem pontos de vista políticos, e sem propagandear dinheiro”.

Como o Google se enxerga?

Será que o Google irá pintar a si próprio como um mecanismo de busca imparcial ou irá admitir que ele já não é mais apenas isso?

Quão violento será o sopetão do Congresso?

A atitude tomada no Congresso pode refletir e influenciar o resto do governo federal, incluindo a FTC (Federal Trade Comission), que está fazendo investigações próprias sobre o Google. Se o Google chegar ao Congresso choramingando e não abrindo o jogo, eles podem criar uma imagem muito negativa aos olhos do público. Se eles se apresentarem de forma razoável, com argumentos pró-consumidor, eles provavelmente ficarão bem com os políticos.

De qualquer modo, nós saberemos muito mais (e teremos mais ainda a dizer) em poucas horas, quando as viradas de papéis e reposicionamento de óculos em uma grande sala começarão no Congresso. Fico imaginando se Eric Schmidt está, neste momento, se olhando no espelho e dando tapas em seu próprio rosto gritando “burro, burro!”. Hoje trata-se apenas de um depoimento ao Congresso, claro, mas se o trem do antitruste pegar velocidade, o Google pode acabar sofrendo uma grande investigação do Departamento de Justiça dos EUA. E aí a chapa esquenta.