Com os casos de Covid-19 aumentando mais uma vez nos Estados Unidos — alimentados pelo surgimento da variante Delta, que é mais transmissível –, mesmo as pessoas vacinadas estão preocupadas. Esta semana, uma nova pesquisa preliminar sugeriu que aqueles que receberam a vacina da Johnson & Johnson (J&J) teriam significativamente menos proteção contra a Delta do que cepas anteriores. Mas outras pesquisas recentes têm sido mais encorajadoras, e alguns cientistas não têm tanta certeza de que medidas adicionais, como uma dose de reforço, sejam necessárias para essas pessoas, pelo menos não com base nas evidências coletadas até agora.

O estudo que despertou as últimas preocupações foi lançado no site bioRXiv e realizado por pesquisadores da Universidade de New York (NYU). A equipe coletou amostras de sangue de pessoas vacinadas contra a Covid-19 com duas doses de imunizantes mRNA (Pfizer ou Moderna) ou a vacina de dose única baseada em adenovírus da Janssen, em vários períodos de tempo (o último sendo de dois a três meses após vacinação). Em seguida, eles introduziram nessas amostras de sangue pseudo-vírus — partículas virais projetadas que não se replicam, mas podem ser modificadas para se parecerem com outros vírus. Os pesquisadores criaram diferentes versões do falso coronavírus, feito para se assemelhar às variantes que agora se espalharam pelo mundo, incluindo a Delta. O objetivo era ver com que frequência os anticorpos, gerados por vacinação contra o coronavírus original, responderiam às réplicas dessas variantes.

Pessoas que receberam uma vacina de mRNA pareciam produzir moderadamente menos anticorpos neutralizantes em resposta às variantes do que a cepa original do coronavírus, embora seus níveis gerais permanecessem altos. No entanto, naqueles que receberam a dose única da Janssen, “uma fração significativa de indivíduos vacinados” tinha níveis muito mais baixos de anticorpos neutralizantes. Tanto em seu estudo quanto em citações à mídia, os autores do estudo expressaram preocupação com suas descobertas, argumentando que as pessoas vacinadas com o imunizante fossem precisar de reforço.

A cobertura primária da pesquisa, também publicada no New York Times, teve o cuidado de listar suas muitas limitações, levando em conta que era um estudo pequeno e preliminar conduzido em laboratório e não necessariamente refletia o desempenho da vacina no mundo real. Mas mesmo a manchete original do NYT (desde então alterada) não tinha muitas nuances, apenas declarando que uma dose da vacina era ineficaz contra a Delta. Felizmente, e como o NYT alude, há motivos para suspeitar que a situação não seja tão terrível para os cerca de 12 milhões de americanos que receberam a injeção da Johnson & Johnson.

Na semana passada, outro estudo foi publicado no New England Journal of Medicine (NEJM), que analisou de forma semelhante as respostas imunológicas daqueles que tomaram a vacina J&J um mês e oito meses depois. Ao contrário do outro estudo, eles também foram capazes de examinar as células de defesa (células T). Nesta pesquisa, que também usou pseudo-vírus, eles encontraram apenas uma pequena queda no nível de anticorpos neutralizantes para a Delta e outras variantes, em relação à cepa original. Esses níveis também permaneceram estáveis ​​e às vezes até aumentaram oito meses depois, o que evidencia a capacidade do sistema imunológico de evoluir ao longo do tempo, criando uma gama mais ampla de anticorpos que poderiam ser mais responsivos a futuras variantes de um germe. 

As respostas das células T das pessoas ao vírus também permaneceram fortes ao longo do tempo. Os autores do estudo argumentam ainda que a durabilidade e adaptabilidade encontradas no sistema imunológico das pessoas vacinadas mostraram que a vacina da J&J continua sendo um auxílio valioso na luta contra a Covid-19.

É importante destacar que o estudo NEJM envolveu pesquisadores filiados à J&J, enquanto o estudo da NYU não. E ambas as pesquisas são baseadas em amostras pequenas de voluntários, então nenhuma deve ser considerada como certeira por si só. Mas, até agora, os dados mostram que é prematuro dizer que a dose da J&J é ineficaz contra a Delta. De acordo com Tim Lahey, médico de doenças infecciosas, provavelmente não é válido convocar uma ampla campanha de revacinação para os primeiros vacinados.

“As descobertas de laboratório, como o nível de anticorpos produzidos por uma determinada vacina contra uma determinada variante viral, são interessantes e valem a pena, mas não chegam ao nível de evidência de que precisamos para fazer recomendações clínicas confiáveis. Elas estão gerando hipóteses, não mudando a prática”, disse ele ao Gizmodo.

“Para fazer uma recomendação clínica, precisamos de evidências de que essa mudança vai melhorar os resultados com os quais nos preocupamos na vida das pessoas”, acrescentou. “Usar uma vacina em vez de outra, ou adicionar uma dose de reforço a uma série de vacinas existentes, previne a hospitalização e/ou salva vidas ou não? Essa é a verdadeira questão e, sem ela, acho que todas as hipóteses confiantes do mundo não devem ser consideradas conclusivas”.

Alguns desses dados do mundo real estarão disponíveis em breve. Na África do Sul, onde a vacina da J&J também é amplamente usada e a Delta se espalhou rapidamente, os pesquisadores agora estão estudando profissionais de saúde vacinados para ver com que frequência eles ainda ficam doentes com coronavírus. Os resultados desta pesquisa, chamada de ensaio Sisonke, devem sair no próximo mês.

No início de julho de 2021, os pesquisadores divulgaram uma declaração em resposta aos casos crescentes da variante Delta no país. Eles observaram que, embora as infecções emergentes estivessem acontecendo entre os vacinados com a vacina da Janssen, até agora seus dados mostraram que 94% destes casos foram leves, enquanto 2% foram considerados graves. 

Obviamente, as pessoas devem se sentir livres para fazer o que acharem melhor para si mesmas ou para suas famílias. Algumas pessoas, incluindo cientistas e médicos, se sentiram cautelosos o suficiente para recomendar uma dose de reforço após a vacina da J&J. E há evidências de que misturar e combinar diferentes tipos de imunizantes pode amplificar a resposta imunológica das pessoas ao coronavírus. No momento, porém, devemos ser um pouco mais cuidadosos ao reverter nossos antecedentes sobre o que sabemos sobre a pandemia e as vacinas usadas para nos proteger dela.

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“Estamos todos muito exaustos com a pandemia e ansiosos para ter algum senso de certeza. Também há muitas pessoas confiantes e bem informadas apresentando uma série de teorias bem-intencionadas. Este é apenas mais um momento em que faz sentido fazer uma pausa, respirar fundo e insistir que nosso atendimento ao paciente seja fundamentado no mesmo tipo de evidência científica complexa que levou ao uso de vacinas eficazes contra a Covid-19″, conclui Lahey.