Não vou começar pelo “Star Wars 7”, o primeiro da era Disney, porque eu já escrevi sobre ele quando saiu — basicamente, o filme é idêntico ao Star Wars original, só que pior. Nem vou passar pelo resto da franquia. Se você está lendo este texto é porque se interessa pela saga — franquia é o cacete — e deve ter visto todos. E já sabe que, tirando Rogue 1, é tudo um monte gigantesco de bosta num nível em que a segunda (primeira) trilogia passou a parecer não tão ruim assim.

Vou falar mesmo é de “Boba Fett”. Boba Fett, como nós sabemos, é o cara que entregou Han Solo a Jabba the Hutt. E depois morreu. Parece que há um culto a Boba Fett no “universo Star Wars,”, seja lá o que isto signifique. Se você é uma pessoa normal, tem uma vida, você não sabe o que isto significa e, portanto, não sabe mais nada sobre Boba Fett — porque não há mais nada pra saber.

Se você, como eu, cometeu a tolice de começar a ver Mandalorian, quando viu a armadura dos sujeitos certamente lembrou de Boba Fett, e deduziu que o sujeito era um deles. Se era ou não, não deu pra entender pelo primeiro capítulo da série — eu não vou ver o segundo.

O primeiro capítulo de “O Livro de Boba Fett”, título com claras associações religiosas, começa com uma cena que já deveria fazer qualquer pessoa com mais de 20 anos desligar a TV — ou o telefone, não sei onde você assiste suas coisas. Porque Boba Fett morre em “O Império Contra Ataca”. Sim, morre. Ele cai dentro da boca de um monstro “definitivo”, ali ele seria digerido pelo monstro por 1000 ou 10000 anos, com sofrimentos indescritíveis. Não tinha um “mais ou menos”, um “pode ser que”, era isso e era isso. O cara morreu, devagarinho, 200.000 anos sofrendo. 

De modo que se você quer usar o cara porque pagou caro por ele e esse nome é mais conhecido do que, sei lá, Jar Jar Binks, você precisa ressuscitá-lo. Obviamente, não há maneira boa de ressuscitar um cara que caiu dentro de um monstro que, etc., etc., ele é irressuscitável por qualquer um que tenha um mínimo de respeito pela trilogia original. A Disney, está mais do que demonstrado, não tem nenhum. Espera-se, porém, que tenha algum respeito pelos seus espectadores, pelo menos. Também não tem.

É spoiler, mas é algo como a primeira cena da série: Boba Fett simplesmente “acorda” dentro do bicho dentro do qual todos morrem uma morte horrível e… vaza. Isso, acorda e vaza. Mas porra, Disney… Precisa reviver o sujeito? Revive e já era, não explica. Tem coisa que não tem como explicar. Não é exatamente um documentário, só revive o cara e vambora. Agora, vai explicar? Como que um cara que de jeito nenhum poderia reviver está lá, vivão? Óbvio que não tem como não ficar uma bosta. Fica uma bosta.

Segundo momento do primeiro capítulo é uma briga. O cara agora é o fodão de um império mas ele sai na rua só ele e a “Assassina Chefe”, e sem os capacetes. Beleza, de novo, não é um documentário. O que é ruim não é que eles acabam se livrando de seis caras fortemente armados. É que não há nem a preocupação de justificar isso. Eles estão apanhando, de repente os caras que estavam batendo começam a cair no chão e morrer. Fique pensando a que isto remetia, algo muito ruim dos recônditos do meu cérebro. 

A gota d’água, porém, é a luta seguinte. Não pela luta, que é igualmente horrível, mas pela absoluta falta de cuidado com a história. O cara está amarrado, de repente não está mais amarrado. Mesmo assim ele não tenta fugir. Mas o problema, o problema mesmo, é quando surge “o monstro”, o bichão com quem ele tem que lutar. Na saga inteira, aparece bicho e monstro em todas as formas. O que tornou a saga algo único? O cuidado nas formas, nos detalhes. Nos “povos” diferentes, nos animais, na roupas. Cada um tem o próprio idioma, cada um tem um comportamento que você vai entendendo no decorrer da história. O monstro do primeiro capítulo de “Boba Fett”? É um monstro de seriado japonês dos anos 60. Juro, sem sacanagem, monstro do Ultra Seven, Spectreman, enfim, se você não conhece é porque não é velho, mas está aqui. Se você acha que eu estou de sacanagem, basta dizer que minha filha de 16 anos, a quem eu submeti a essa tentativa bizarra de entretenimento, exclamou na hora que viu o bicho: “Pai, parece aqueles monstros daquelas séries japonesas que você obrigava a gente a assistir!” E parece pra cacete, e é exatamente a mesma coisa que eu pensei! Uma porra dum lagarto que fica em pé, gigante, e que o cara mata como se fosse um cachorro. Quer saber o pior? Mata EXATAMENTE DO MESMO JEITO que o Luke mata o bichão em O Império Contra Ataca.

Não é ruim, é horroroso. Mal feito, preguiçoso. Como tudo o que a Disney fez desde que assumiu a saga (menos Rogue 1). Não perca o seu tempo, e avise amigas e amigos.

 

* Caio Maia é Diretor de Redação da F451, que  publica o Gizmodo Brasil, e escreve sobre mídia.