Desculpe a sinceridade, mas depois de nos vermos livres do túmulo da existência, nossos corpos não são nada além de sacos de bactérias vivas e células mortas. Podemos tentar retardar nossa decomposição (embalsamamento), ou nos antecipar a isso com um fogo destrutivo (cremação). Nós também podemos dissolver nossos corpos com soda cáustica, utilizando um procedimento cada vez mais popular, chamado hidrólise alcalina.

Quer dizer, alguns de nós podemos. A hidrólise alcalina — também conhecida como cremação líquida ou cremação aquática ou bio-cremação — atualmente é legalizada em apenas oito estados norte-americanos. Apesar de ser uma das formas mais baratas e amigáveis ao meio ambiente para se lidar com um cadáver, ela não é uma opção para a maioria de nós.

Por quê? A questão da morte é delicada, e mudanças (legais) são incrivelmente lentas. Além disso, muita gente ainda não sabe direito como a hidrólise alcalina funciona. Isso não significa transformar sua avó em líquido e despejá-la no ralo.

Como funciona a hidrólise alcalina?

Como na cremação comum, tudo o que resta após a hidrólise alcalina são restos de ossos, que são reduzidos às cinzas que colocamos em urnas. O processo para chegar até aí, no entanto, é muito diferente.

Uma maneira de entendê-lo é pensar que a hidrólise alcalina acelera rapidamente o processo comum de decomposição usando calor, pressão e uma substância alcalina, como o hidróxido de potássio ou hidróxido de sódio. O corpo é colocado dentro de um recipiente de aço com 300 litros ou mais de água, que é aquecida até 300 graus, o que mata micróbios e até mesmo destrói os príons responsáveis ​​pela versão humana da doença da vaca louca. Depois de uma ou duas horas, a maior parte do corpo foi dissolvida em líquido. Os ossos remanescentes são moídos em cinzas.

Depois de deixar um corpo se decompor naturalmente, a hidrólise alcalina é a opção mais ecologicamente correta disponível. Mesmo usando muita água, ele cria apenas um quarto das emissões de carbono de cremação e usa apenas um oitavo da energia. E nem vamos começar a listar todos os produtos químicos tóxicos no embalsamamento. Portanto, é um processo simples e muito limpo, e deixa basicamente os mesmos “restos mortais” da cremação tradicional.

As novas tendências na tecnologia funerária

“Acho que há muita gente que simplesmente não entende o processo,” diz Terry Regnier, diretor de serviços anatômicos na clínica Mayo, que contribuiu para o estado de Minnesota se tornar o primeiro a legalizar o processo, em 2003. A clínica agora usa o processo em todos os corpos doados para pesquisa e ensino. O processo é atualmente legal nos estados de Colorado, Flórida, Illinois, Kansas, Maine, Maryland, Minnesota e Oregon.

Há alguns anos, quando o serviço funerário de Edwards, Ohiom comprou uma máquina de hidrólise alcalina, eles foram obrigados a parar devido a polêmicas. O clero católico, por exemplo, disse que não estava sendo “mostrado respeito por esse corpo”. O fato de o processo ter sido originalmente desenvolvido para o descarte de animais mortos não ajuda a dar uma boa impressão.

“O maior equívoco é que muitas pessoas acham que o corpo inteiro vai pelo ralo”, diz Regnier. Mesmo com essa incompreensão do método, no entanto, não é difícil entender por que as pessoas ficam assustadas com esse lance de ser “despejado no encanamento”. Mas isso só mostra nossa ignorância sobre como cadáveres geralmente são tratados. Líquidos corporais e sangue são descartados quando os médicos-legistas fazem embalsamamento — e as partículas queimadas, de maneira semelhante, saem através de chaminés na cremação.

Uma campanha de marketing ou algo do tipo poderia dar uma forcinha para a hidrólise alcalina — é tudo apenas uma questão de escolher as palavras certas. “Queimar a vovó parece muito violento,” diz o filósofo da ciência Phil Olson a The Atlantic. “Em contraste, cremação verde soa como ‘colocar a vovó em uma banheira quente’.”

Regnier diz que o interesse é cada vez maior — várias pessoas já foram conhecer as instalações da Mayo. E em seu programa de doadores, nenhuma família entre centenas se recusou a usar a hidrólise alcalina como o fim de seus entes queridos. Ok, pessoas que doam seus corpos à ciência provavelmente não são as mais sensíveis sobre o que acontece no final. “Eu não hesitaria em fazer isso em mim mesmo ou em outro membro da família”, diz Regnier.

Como poluição do ar, falta de espaço e emissões de carbono tornam os métodos tradicionais de sepultamento ainda mais problemáticos, a hidrólise alcalina está prestes a tornar-se uma alternativa viável. Claro, as tradições em torno da morte também precisam mudar — e as pessoas precisam deixar de ser tão sensíveis. Mas veja bem: nós vivemos em uma cultura que acha ok usar linhas para fechar as mandíbulas dos cadáveres e enchê-los de algodão. Não é uma mudança impossível.