Este ano finalmente conseguimos bancar a nossa vinda para a CES em Las Vegas. A CES é, como vocês devem saber, o maior evento de tecnologia do mundo e é tão divertida quanto trabalhosa. Ontem fui dormir bem tarde e acordei 5h30 daqui para ver como estava a pauta do dia no Brasil. A minha ideia era não traduzir tudo do Giz americano sobre a feira (que tem uma equipe de 10 pessoas aqui) de cara: podíamos esperar para que eu e o Henrique déssemos a impressão sobre as coisas que estão sendo lançadas. E estamos nos esforçando para isso. Ontem andei mais de 10km filmando coisas, conversando com engenheiros, testando o que vocês leram em todo lugar nos últimos dias, das “TVs de 8k” ao “novo Android XYZ que via mudar tudo”. A ideia do Giz não é ser uma agência de notícias. É pegar o mar de informações e dar alguma impressão, alguma análise, ver algo de diferente e bem legal, sempre que possível. Essa é a nossa ideia ao vir para cá – afinal, nada será lançado amanhã no Brasil, e perspectiva, a impressão de alguém confiável é mais importante, na minha humilde opinião. Então estamos, digamos, atrasados. Eu sei.

Pois bem, hoje encostei minha mochila com seus 8kg de equipamento e releases na sala de imprensa para escrever algumas coisas. Editei e subi um vídeo de um sistema de áudio novo da Samsung que eu acho bem sensacional e não vi sendo noticiado em muitos lugares. Estava escrevendo outras coisas, preparando a agenda para a tarde. Testar os novos PCs da Origin e o tablet com Windows 8 lá na nVidia, o mouse da Mad Catz, o roteador da Netgear, tentar testar a câmera 4K da JVC, ver uma luta de boxe em 3D no estande da ESPN, usar as lentes para iPhone da Olloclip. Não dá para pautar, escrever, filmar, tirar foto e editar ao mesmo tempo, então priorizamos coisas. No caso, testar, colocar mãos nos produtos. O “escrever sobre eles” sofreu um pouco. E a tarefa “ler todos os comentários” ficou bem relegada.



Mas eu tive que lê-los. Porque, no meio desse tumulto todo da feira, me chamam no Twitter para reclamar da “censura” nos comentários do Giz. Alguns leitores estavam enfurecidos porque não estávamos dando “todas as notícias relevantes”, ou que “traduzíamos demais”, como se alguém fosse morrer se não lesse em algum lugar que o protótipo de uma empresa X que nunca vai chegar ao mercado foi mostrado pela terceira vez. Também havia uma boa quantidade de matérias que “NÃO DEVERIAM ESTAR EM UM SITE DE TECNOLOGIA” (trolls gostam de caps). Então eu tirei um tempo e respondi alguns comentaristas. É bem simples, acho: se você se irrita com o que aparece no Giz, pule, ou não leia o site se isso está acontecendo demais. Nós aqui estamos bem felizes com o que fazemos, podemos melhorar, e estamos sempre tentando. Traduzimos coisas – e sim, sempre podemos melhorar a tradução – que nos chamam atenção no Gizmodo americano, não há qualquer imposição sobre isso deles lá e fazemos porque e quando gostamos do conteúdo. Fazemos o blog que gostamos de ler nós mesmos. Vocês acompanharem é uma boa consequência. A nossa relação – editores e amiguinhos – é muito boa na maior parte do tempo. Mas chegou um pessoal que quer impor uma visão do que deveria ser o Gizmodo Brasil.

E achei que valeria gastar uns minutos explicando o que é o Gizmodo Brasil.

 

O Gizmodo é, em sua essência, um blog. Há uma polêmica sobre a nomenclatura, mas por blog entenda que, essencialmente, não queremos falar de tudo, não temos um público-alvo definido e fazemos o que gostamos pra gente mesmo e nossos amigos lerem. Não temos obrigação com ninguém para ter uma meta de 50 posts diários (como alguns tem) e enchemos de abobrinha para tal. Nosso slogan não é “toda a informação”. E tampouco damos as notícias de maneira “imparcial”, sem dar nem que seja uma linha de análise, impressões ou comentários engraçados. Não somos, nunca seremos, nem queremos ser, um “portal de notícias de tecnologia”. A ideia é muito mais “o seu blog-amigo para se localizar, se divertir e tirar o melhor proveito do mundo da tecnologia”. Nunca pensamos em um slogan, mas a missão é mais ou menos essa.

Então, nós deliberadamente não damos todas as notícias que alguns consideram fundamentais porque, na minha visão editorial (que é a mesma do meu chapa Joe Brown, do Giz americano), já há notícia de tecnologia demais por aí. E a maioria delas não vai mudar a sua vida. Estatísticas aleatórias, estudos sem muita base e rumores rendem grandes manchetes e parecem coisas importantes, mas não são o que fazem o meu dia. Uma das notícias mais lidas em tecnologia no Brasil essa semana foi essa inacreditável “Fonte diz que PS4 é muito mais poderoso que o Xbox 720”. Você nunca lerá algo assim aqui, a não ser para tirar sarro completo de um rumor absurdo. Às vezes nos agarramos a assuntos que dão menos ibope – como caixas de som animais ou câmeras caras mas excepcionalmente boas – porque achamos que são coisas importantes. Não estamos aqui para ganhar cliques a qualquer custo.

O que você vai ler aqui um bocado é a opinião pessoal. Isso está no DNA do Gizmodo. Sim, somos mais ou menos exagerados, porque somos empolgados. Gostamos do que a tecnologia pode fazer pela gente. Eu sou o cara que quando empresto meu fone de ouvido para outra pessoa falo que isso “pode mudar a vida” dela. Digo que a nova TV de OLED da Samsung parece bruxaria e fico deveras preocupado com o impacto das redes sociais na nossa vida. Queremos enfatizar o quanto algo é bom ou ruim, e recorremos a artifícios literários ou pura empolgação juvenil. Um gadget brilhante e genial novo nos cativa, e achamos essa coisa de “apenas informe as especificações e deixe o público julgar” algo ultrapassado. Não é o modelo de jornalismo que persigo.

Porque o modelo atual, que muitos estão acostumados no Brasil, eu não acredito mais. Vocês deveriam ver os bastidores de coletivas e salas de imprensa. Jornalistas importantes de portais e publicações respeitadas pegam um smartphone novo e falam “é um lixo. Difícil competir com tal.” Mas na hora de escrever um texto, saem com uma quase cópia do release, vomitando especificações e dizendo que a “empresa X mira no público Y”. A opinião de um cara que conhece a indústria e testa aparelhos é escondida por essa “missão” da imparcialidade, e é um mundo que eu não tenho muita paciência. Na verdade, ser imparcial (= não dar opinião) é mil vezes mais fácil. Não estamos interessados nisso. Há espaço para jornalismo o mais imparcial possível em várias áreas, mas acho que não na tecnologia de consumo ou, sei lá, no jornalismo de games. Queremos ajudar você a comprar o melhor produto, a usar melhor o que você já tem e a saber do que é relevante para o que te interessa. Queremos surpreender, que você conheça coisas novas, entenda os nossos motivos (e não necessariamente concorde) quando dizemos que A é melhor que B.

Porque realmente acreditamos que devemos escrever como se estivéssemos contando algo para um amigo. E, quando você fala com um amigo, acima de tudo você tem de ser honesto. E genuíno. E como este é um blog de amigos escrevendo para amigos, acontece um bocado de “ei, eu vi isso na internet e é fera”. Alguns reclamam que isso “não tem nada a ver com tecnologia”, que os vídeos em Timelapse que o Jesus Diaz curte são absurdos, que falar de um assunto que envolva Michel Teló é “virar o EGO”, e por aí vai. São pessoas que acham que são guardiãs de uma cartilha de o que deve ser o Gizmodo que só existe na cabeça delas. E, além disso, são meio mal humoradas.

Veja o caso da “mulher de laranja”. Compare o post mais sério, com “informações” e a manchete “Google Street View flagra tombo de mulher em BH” com o genial post do Leo sobre o mesmo assunto. Eu mostrei o post do Giz para várias pessoas. Quando o Leo mostrou no chat a coisa e disse a ideia dele para o post, eu ri horrores. E rir, ficar orgulhoso do blog para o qual trabalha é uma sensação muito sensacional. De novo, o que vocês têm que ter em mente, é que o Gizmodo é um post feito da maneira com que achamos melhor, para nós mesmos ficarmos satisfeitos. E algumas pessoas confundem isso, de achar que não estamos escrevendo para “os nossos clientes” como arrogância, quando na verdade não é nada disso. Achamos que se fizermos o melhor que pudermos de maneira honesta vamos ser cada vez mais relevantes, lidos e comentados. Porque eu acredito bastante na capacidade das pessoas que escrevem aqui e nas que traduzimos de lá.

Apesar dos comentários catastrofistas, essa receita tem dado certo. Eu sigo a audiência e os comentários do Giz todo dia há mais de 3 anos. O Giz cresceu mais de 100% de 2009 para 2010 e praticamente repetiu o crescimento no ano passado. Somos provavelmente o maior blog independente do Brasil e recebemos bem mais elogios do que críticas. Somos chamados para grandes eventos e viagens, testamos produtos antes, presidentes de empresas nos chamam em um canto da coletiva para saber a nossa opinião. Porque não a escondemos. E acho que estamos indo bem. E, o que é melhor, nos divertindo (e, espero, divertindo vocês) no processo.

Isso não quer dizer que o Giz é perfeito ou melhor que todos os outros, longe, muito longe, disso. Acho que o Gizmodo Brasil tem uma visão diferente e de fato muitas pessoas não estão acostumadas e exigem algo justamente porque o que fazemos aqui é meio bizarro para os padrões do noticiário internético. Então, a crítica que nos incomoda é a dos que tentam apontar o que deve ser feito no Gizmodo. Talvez este post fosse necessário há mais tempo. Não quero que as críticas sumam, e elas são naturais. Temos dias melhores que outros, às vezes mandamos mal em uma tradução ou na escolha da pauta, e há várias maneiras de chamar a atenção para isso. Mas muitas pessoas escolhem uma maneira desnecessariamente agressiva.

Acho as críticas fundamentais e sei que às vezes quando a coisa do nosso lado é muito errada é difícil ser legal nos comentários. Veja o caso de um post que escrevi ontem sobre fones de ouvido da Sony. Exagerei numa opinião e ignorei (por pura falta de conhecimento) uma informação relevante, corrigida logo no primeiro comentário. O puxão de orelha foi ótimo, porque não só enriqueceu a discussão (saudável) nos comentários, como melhorou o próprio post. Isso é sensacional. Não temos a ilusão de acharmos que entendemos mais que todo mundo sobre tudo. E é bom quando vocês ajudam a fazer a coisa melhor, ganham todos.

Mas estou me alongando demais. Não quero que isso pareça uma bronca generalizada. Eu só queria esclarecer melhor o que é o Gizmodo Brasil para que vocês, quando criticarem, saberem o que estão falando também. Quero melhorar um bocado para que cada vez mais pessoas se encontrem aí nos comentários. Fazemos um blog pensando em como seria lido pelos amigos, e em última instância é o que muitos de vocês aí acabam se tornando: amigos mesmo. O Gizmodo não é nada sem vocês, e eu quero do fundo do coração que vocês me ajudem a tornar essa casa melhor e mais divertida. Limando as ofensas e flamewars puros dos comentários, mantendo-se no tópico, criticando quando tem que criticar e, por que não, elogiando de quando em vez, para sabermos quando estamos acertando. Agora vocês me dão licença que tenho de contar algo sensacional que vi na CES hoje, e já está bem tarde. =)