O que começou como papo limitado a internet, logo tomou proporções maiores. É só pegar um metrô ou ouvir uma conversa num café para uma hora ou outra assistir alguém convertendo os amigos. Não, não tem nada a ver com religião ou política. Ele normalmente está falando de algo “revolucionário”, uns sites “onde as coisas são muito baratas”. A maioria desconfia, não entende, mas quando chega em casa joga no Google. E dá de cara com dezenas de opções. Com certo atraso, os sites de compra coletivas explodiram no Brasil, não param de surgir e têm explicitado algumas tendências de mercado. Acompanhe o raciocínio.

O crescimento dos sites de compras coletivas no Brasil é assustador. Recentemente o Ibope Nielsen registrou 5,6 milhões de visitantes únicos em sites desse tipo no mês de setembro. O valor corresponde a nada menos do que 14% dos usuários brasileiros no mês. Em junho, o número era de 1,7 milhões – 231% de aumento em três meses. E não há muito mistério para explicar o sucesso: quanto maiores os sites ficam, maiores as ofertas e o número de compradores. Logo, praticamente todas as ofertas são ativadas, mais e mais empresas querem colocar seu nome na brincadeira para atrair clientes, que não reclamam nem um pouco de pagar até 90% menos em todos os tipos de serviço.

Só o site ClickOn já tem 2 milhões de usuários. Um dos pioneiros no Brasil, o PeixeUrbano ultrapassou em setembro a marca de 1 milhão de cadastrados. A primeira vez que constatei que o crescimento desses sites era absurdo foi quando um rodízio japonês aqui em São Paulo cancelou uma oferta do ClubeUrbano, que oferecia de 50% de desconto no rodízio, após cinco dias do encerramento. Fui ao local e ouvi que “de noite só tinha gente com esses cuponzinhos”. Eles só queriam um pouco de atenção e não imaginaram que existia um grupo tão grande de paulistanos que gostavam de sushis e ofertas virtuais. Por isso, não é difícil achar reclamações dos sites no Reclame Aqui (aqui, aqui e aqui). É o preço pago pelo crescimento. 

E o que as locadoras têm a ver com isso?

Bem, na verdade, tudo. Hoje, uma oferta do PeixeUrbano em Santos chamou nossa atenção. Não é de hoje que promoções que envolvem locadoras aparecem nos sites coletivos, mas a oferta de aluguel de 30 DVDs por míseros 6 reais, com 95% de desconto, só corrobora a teoria de que, sim, as locadoras estão fadadas aos museus. São 3 meses alugando filmes que sairiam por 120 reais. Se isso não é desespero, eu não sei o que é. E o problema é que as locadoras físicas não tem muito para onde correr.

Lembro que meu tio tinha uma locadora muito divertida no fim dos anos 90 – minhas tardes se resumiam a jogar SNES e Mega Drive nos videogames que ficavam lá. Com o tombo do VHS e o surgimento do DVD, não demorou muito para ele vender tudo e enterrar o negócio. Era caro atualizar toda a locadora à época, e gigantes como a Blockbuster ainda tinham muito dinheiro para gastar. Hoje em dia, a situação é parecida, mas com alguns ingredientes novos: o substituto do DVD, o Blu-ray, não se popularizou tão rapidamente quanto o DVD – basicamente por conta de seu preço. E dessa vez não há Blockbuster para segurar o tranco: a empresa entrou com pedido de falência nos EUA, e aqui no Brasil foi reduzida a algumas prateleiras em algumas lojas da Americanas, que controla a locadora no país.

O ingrediente que derrubou a Blockbuster e deve acabar de vez com as locadoras, pelo menos nos EUA, é o Netflix e as outras locadoras virtuais. Com milhares de títulos, a loja envia por correio os filmes num envelope, não cobra multa por atraso e é muito mais barata – manter um site e um esquema de logística inteligente é mais barato do que lojas idiotamente gigantes e seus custos enormes. Para completar, cada vez mais usuários do Netflix estão usando apenas o serviço de streaming da empresa, que funciona direitinho com a internet americana, e ainda roda em videogames, iPads e iPhones. Todo esse streaming equivale a 20% do tráfego de dados nos EUA nos horários de pico. Sim, 20%. Muita gente já está aposentando a mídia física e já acha mais interessante esse papo de consumo de conteúdo na nuvem.

No Brasil, há soluções como o Netmovies, que segue a cartilha do Netflix e entrega filmes em casa por um preço mais bacana (curiosamente, aluguei um mês de filmes por lá pagando 3 reais num site de compras coletivas – viu como tudo está conectado?). Na parte de streaming, sites como o AssistaJá e o próprio Netmovies já têm suas versões, mas com a velocidade da internet daqui e pela baixa quantidade de filmes, ainda é difícil imaginar o sistema emplacando. E, claro, não é preciso dizer que tanto as lojas virtuais quanto as físicas enfrentam aquele vilão com bandeira de caveira e tapa-olho: a pirataria e os mares de torrents cada vez mais profissionais.

A questão é: você, caro leitor do Gizmodo, antenado nos sites de torrents, em seriados e downloads, ainda visita de vez em quando a locadora do seu bairro com aquele atendente que sempre está com cara de sono? Ou melhor, você ainda se dispõe a pagar por algum tipo de conteúdo de entretenimento por aqui, mesmo com o Isohunt te convidando para um passeio todo dia? E, caso sua internet seja bacana, você pagaria por um serviço de streaming com milhares de títulos como o da Netflix? Não se acanhe, abra o coração. Estamos entre amigos.