Se você ficou decepcionado por não poder observar o eclipse solar total no dia 14 de dezembro, não se preocupe. Apenas uma semana depois, no dia 21 de dezembro, teremos um evento ainda mais raro: Saturno e Júpiter estarão alinhados, fazendo com que eles pareçam uma única estrela brilhante no céu.

Em razão do dia em que o fenômeno vai acontecer, ele está sendo chamado de “Estrela de Natal”, mas isso não passa de uma coincidência. Felipe Braga Ribas, professor da Universidade Tecnológica Federal do Paraná (UTFPR) e doutor em Astronomia e Astrofísica pelo Observatório Nacional (Brasil) e pelo Observatoire de Paris (França), explica que essa conjunção planetária do dia 21 de dezembro trata-se de uma aproximação aparente entre os dois maiores planetas do Sistema Solar.

“Estas conjunções são extraordinárias por sua raridade e beleza. Como os dois planetas podem ser facilmente vistos a olho nu, na data da maior aproximação, veremos dois astros brilhantes muito próximos, ao ponto de termos de olhar com cuidado para notarmos que são dois objetos”, disse Ribas em entrevista ao Gizmodo Brasil.

Um ponto interessante é que o fato de o evento ser chamado de “Estrela de Natal” fala muito sobre nossas heranças culturais. Rodolfo Langhi, professor assistente doutor do Departamento de Física da Faculdade de Ciências da Universidade Estadual Paulista Júlio de Mesquita Filho (UNESP/Bauru), aponta que muitas tradições religiosas atuais se originaram de culturas antigas que relacionavam fenômenos astronômicos a divindades ou elementos sobrenaturais. Alguns pesquisadores que estudam a  bíblica “Estrela de Belém”, por exemplo, acreditam que ela pode ter sido uma conjunção planetária, um cometa, ou até uma Supernova.

Mas, se no passado, as festividades dedicadas ao Sol eram comuns devido à falta de conhecimento astronômico, o mesmo não se aplica aos dias atuais. Os séculos de observações e estudos do universo permitiram que hoje pudéssemos saber, sem grande surpresa, que a conjunção entre dois planetas é apenas uma aproximação aparente. Conforme explica Ribas, “eles estão próximos apenas do ponto de vista da Terra. Não se trata de uma interação física entre os dois planetas”.

Júpiter leva quase 12 anos terrestres para dar uma volta ao redor do Sol, enquanto que para Saturno esse intervalo sobe para 29 anos terrestres. A conjunção corresponde ao momento em que esses diferentes períodos encontram um fator comum e a posição dos planetas ficam alinhadas, conforme mostra a figura abaixo.

Crédito: Celestia/NASA

Como aproveitar o fenômeno da “Estrela de Natal”

A conjunção de Júpiter e Saturno está marcada para acontecer no dia 21 de dezembro de 2020, logo após o pôr do sol. Para localizar os planetas, basta lembrar que eles estarão a 20 graus de altura no horizonte Oeste, conforme explica o professor Ribas, da UTFPR.

Apesar de os planetas se alinharem em 21 de dezembro, o professor Langhi, da UNESP, afirma que o mais legal mesmo é acompanhar noite a noite os dois planetas se aproximando. Para quem quiser acompanhar já desde hoje, ele recomenda encontrar um lugar livre de prédios e árvores, sendo que o ideal é que o céu também esteja livre de nuvens. “São os dois pontos mais brilhantes do céu após o pôr do sol no lado oeste. Júpiter tem um brilho branco, mais forte, enquanto Saturno é mais alaranjado e menos brilhante”, explica.

O professor Ribas também tem uma dica bem didática:

Para encontrá-los, o observador deve esticar o seu braço na direção oeste (pôr do Sol), fazendo um sinal de “hang loose” (dedo mindinho e dedão esticados, com os outros dedos fechados). Colocando o mindinho no horizonte e o dedão para cima, verá ao menos um astro brilhante próximo ao dedão. Pronto, encontrou Júpiter e Saturno.

Para quem tiver acesso a um telescópio, a visão será ainda mais espetacular. “Será possível ver os anéis de Saturno, as nuvens em bandas de Júpiter e os principais satélites dos dois planetas numa mesma imagem!”, diz Ribas. Mas, mesmo a olho nu ou com um binóculo, já poderemos aproveitar esse evento raríssimo, garantem os astrônomos.

Imagem tirada em novembro na Sicília, Itália, mostrando a Lua crescente (à esquerda), Saturno (centro) e Júpiter (à direita). Crédito: Kevin Saragozza/NASA

Além do show visual, as conjunções também têm um papel importante em pesquisas, conforme explica o professor da UTFPR:

Quando os objetos ficam, de maneira aparente, tão próximos que um passa na frente do outro, temos eventos que chamamos de ocultações ou trânsitos. Na minha pesquisa usamos ocultações de estrelas por pequenos corpos do sistema solar, para determinar suas propriedades físicas com precisão e assim entender melhor sua origem. Foi usando este fenômeno que em 2013 descobrimos o primeiro sistema de anéis ao redor de um “asteroide”, o objeto Centauro (10199) Chariklo. Estrelas binárias eclipsantes ou exoplanetas também podem ser descobertos e estudados usando estas conjunções.

Ribas foi quem liderou a equipe que descobriu o primeiro sistema de anéis ao redor de um pequeno corpo do sistema solar.

Quando poderemos observar esse fenômeno da “Estrela de Natal” novamente?

Conforme explicam Ribas e Langhi, o fenômeno se repete, em média, a cada 20 anos. Porém, não é sempre que os planetas se aproximam tanto quanto deve acontecer no próximo dia 21. Só poderemos ver Júpiter e Saturno assim tão perto um do outro (de novo: apenas visualmente; a distância entre eles ainda é gigantesca) em 15 de março de 2080.

Segundo Langhi, eventos astronômicos como esse tinham grande importância no passado para que os pesquisadores pudessem entender os movimentos e posições dos astros. Hoje, no entanto, o conhecimento humano chegou ao ponto de podermos prever com precisão a data exata de alguns eventos que devem ocorrer a muitos anos de distância.

Para calcular estas datas, Ribas explica que os astrônomos comparam as efemérides dos planetas – ou seja, a posição de um objeto ao longo do tempo para um dado observador. Assim, é possível verificar quando eles estarão com as menores distâncias aparentes. “No caso de conjunções entre objetos conhecidos há muito tempo, como os planetas, isto é fácil, já que suas órbitas são bem conhecidas. Já para calcularmos as ocultações estelares, precisamos continuamente observar estes pequenos objetos, para melhorar suas efemérides”.

Júpiter (à esquerda) e Saturno (à direita). Crédito: Jean-Luc Dauvergne/NASA

Apesar de esses fenômenos não terem mais um caráter revolucionário nos dias atuais, os dois astrônomos entrevistados pelo Gizmodo Brasil ressaltam que a importância de tais eventos é a divulgação. Para Langhi, é um momento importante para despertar a curiosidade nas pessoas e uma forma de incentivar os jovens a se interessarem por essa área científica. Ainda segundo ele, a astronomia ainda é um tema pouco estudado nas escolas e existe uma falta de preparo do próprio corpo docente para tratar do tema.

Já Ribas afirma que este é “um momento oportuno para voltarmos os olhos das pessoas para o céu, mostrarmos a belezas do universo e ressaltarmos a importância da ciência, ao mesmo tempo que levamos conhecimento ao público geral”.

Ainda faltam alguns dias até o dia 21 de dezembro, mas lembre-se que você já pode começar o seu ritual de observar o horizonte, no lado oeste, após o pôr do sol a partir de hoje mesmo para acompanhar esse fenômeno raríssimo da conjunção dos maiores planetas do nosso sistema solar. “Valerá a pena acompanhar o movimento relativo dos planetas desde alguns dias antes e depois do dia 21; é uma oportunidade de notar facilmente o movimento destes corpos e dizer ‘Eppour si mouve’, como Galileu”, diz Ribas.

A famosa (e controversa) frase, que em tradução literal significa algo como “no entanto, ela se move”, teria sido dita por Galileu Galilei ao insistir que a Terra é que se move ao redor do Sol – negando, assim, o heliocentrismo – durante seu julgamento em um tribunal da Inquisição. Seja verdade ou não o fato de Galileu ter proferido essas palavras, você poderá olhar para o céu tal como ele fez — e se inspirar com o alinhamento dos planetas.