À medida que a vacinação se torna mais comum, o movimento antivacina está usando seus velhos truques. A última tendência desse jogo sujo é culpar os imunizantes por mortes, doenças ou ferimentos sem nenhuma evidência concreta.

As organizações antivacina já estão tentando deturpar relatos de pessoas que morreram ou ficaram doentes após receber a vacina como prova de que não são seguras. Na semana passada, a Children’s Health Defense — fundada pelo conhecido excêntrico Robert Kennedy Jr. — postou um artigo sugerindo que a morte da lenda do beisebol Hank Aaron, em 22 de janeiro, foi causada pela vacina Moderna que ele recebeu em 5 de janeiro. Esta semana, o instituto de medicina legal de Fulton County informou que Aaron morreu de causas naturais aos 86 anos. Autoridades em saúde também tiveram que perder tempo desmascarando “denúncias”.

As vacinas, como qualquer medicamento, têm efeitos colaterais. Normalmente, embora nem sempre, esses efeitos colaterais são notados durante os ensaios clínicos, antes de chegarem ao público em geral. Logo depois que vacinas da Moderna e da Pfizer/BioNTech receberam a autorização de emergência, por exemplo, houve relatos isolados de reações alérgicas. Elas não haviam sido documentadas em ensaios clínicos.

No entanto, nem tudo de ruim que acontece depois que você toma um medicamento ou vacina — o que os cientistas chamam de “evento adverso” — é um efeito colateral. As pessoas adoecem por diversos motivos e, frequentemente, o aparecimento de uma forte dor de cabeça ou outros sintomas pós-tratamento não são nada mais do que coincidência. É por isso que é tão importante comparar grupos de pessoas que recebem a droga real com aqueles que recebem um placebo. Se alguns eventos adversos são muito mais comuns no grupo de tratamento do que no grupo de placebo, então podemos ter certeza de que são um efeito colateral real.

As mortes também são uma parte infeliz da realidade, especialmente para grupos de alto risco, como os idosos, que atualmente estão sendo priorizados para vacinas contra COVID-19. Pessoas morreram e continuarão morrendo logo após receberem a vacina, mas isso por si só não é evidência de que a vacina causou sua morte.

Nos maiores ensaios clínicos até hoje, envolvendo dezenas de milhares de pessoas, os sintomas comuns relacionados às vacinas Pfizer/BioNTech e Moderna incluíram dor no local da injeção, dor de cabeça, fadiga e dores musculares. Os efeitos colaterais mais raros incluíram um risco aumentado de paralisia de Bell, uma paralisia temporária do rosto. Mas não houve evidência de aumento do risco de morte após a vacinação. E ambas as vacinas foram consideradas altamente eficazes na prevenção da COVID-19, que matou mais de 2 milhões de pessoas no período de um ano.

Isso não significa que relatos de morte ou ferimentos após a vacinação não devam ser investigados por agências de saúde e cientistas relevantes (e, de fato, eles são). Uma parte fundamental da pesquisa científica envolve o acompanhamento dos problemas de saúde da população que estão potencialmente associados a um novo medicamento ou vacina e, às vezes, novos problemas são encontrados. Mas devemos ser cautelosos para não culpar imediatamente as vacinas por sintomas que parecem assustadores ou por mortes trágicas, pelo menos não sem uma boa quantidade de evidências para basear essas alegações. Da mesma forma, os meios de comunicação não devem usar manchetes sensacionalistas ao relatar esses casos.

Deixando de lado os relatos escolhidos a dedo e anedóticos, as evidências do mundo real para a segurança e eficácia dessas vacinas parecem ser encorajadoras. Na segunda-feira, Israel — indiscutivelmente o país com melhor desempenho no mundo em número de pessoas vacinadas — divulgou alguns de seus primeiros dados. Eles descobriram que era extremamente improvável que os residentes fossem diagnosticados com COVID-19 após sua segunda dose da vacina Pfizer/BioNTech. Outros dados continuam a mostrar um risco muito baixo de efeitos colaterais graves como anafilaxia — com dez casos encontrados em 4 milhões de pessoas que receberam a vacina Moderna — e nenhuma morte relatada relacionada a essas reações alérgicas.