As operadoras britânicas não estão levando a sério os alertas emitidos pelas agências de inteligência norte-americanas — os EUA alegam que os equipamentos de telecomunicações produzidos pela Huawei podem representar um risco de segurança incrivelmente sério. De acordo com uma matéria do Observer, quatro principais operadoras do país estão atualmente planejando usar equipamentos de rede da Huawei para o lançamento da tecnologia 5G de próxima geração.

Segundo o texto, acredita-se que a Huawei só tenha contratos para partes “não essenciais” de redes. Isso corresponde mais ou menos à política divulgada pelo governo do Reino Unido, permitindo o uso da tecnologia da empresa em determinadas situações, embora ainda não exista uma determinação final de quais equipamentos da Huawei serão ou não permitidos.

O jornal diz que a Huawei já está trabalhando em partes das redes 5G da Vodafone e ajudando em “centenas de locais 5G da EE”. Além disso, a empresa chinesa tem contratos para trabalhar com a Three e com a O2. Há preocupações de que uma proibição total da tecnologia da Huawei atrapalhe a implantação do 5G:

O Observer descobriu que a Huawei já está envolvida na construção de redes 5G em seis das sete cidades do Reino Unido onde a Vodafone entrou em operação. Também está ajudando a construir centenas de locais 5G para EE, e ganhou contratos de 5G para construir redes para a Three e a O2 quando elas forem ativadas.

A decisão de usar Huawei nas partes “não essenciais” de suas redes — principalmente sistemas de rádio que permitem a comunicação sem fio — é uma aposta das operadoras de telecomunicações do Reino Unido. Elas podem acabar no prejuízo se o governo proibir a empresa chinesa de qualquer envolvimento com a 5G.

A consultoria Assembly sugere que uma restrição parcial à plena da Huawei poderia resultar em um atraso de 18 a 24 meses na ampla disponibilidade de 5G no Reino Unido. O Reino Unido, então, não conseguiria se tornar um líder mundial em 5G — uma meta-chave do governo — custando à economia entre 4,5 bilhões e 6,8 bilhões de libras.

Nos últimos meses, as agências de inteligência dos Estados Unidos — embora sem mostrar qualquer evidência concreta e em meio a uma guerra comercial entre EUA e China — acusaram a Huawei de ser um braço em potencial das agências de segurança estaduais e militares chinesas para realizar espionagem estrangeira. A empresa, maior fabricante de equipamentos de telecomunicações do mundo, foi expulsa dos EUA como resultado.

Seus problemas adicionais incluem acusações de roubo comercial e fraude. Além disso, há um esforço separado para extraditar sua diretora financeira, Meng Wanzhou do Canadá para os EUA sob alegações de fraude bancária e violações de sanções ao Irã.

As agências de inteligência também aumentaram a pressão sobre aliados, com a CIA supostamente dizendo a outros membros da aliança de inteligência “Five Eyes” (um acordo de compartilhamento de inteligência, militar e humana entre Austrália, Canadá, Nova Zelândia, EUA e o Reino Unido) que a Huawei é financiada em parte pelos militares chineses.

Há algum tempo, o embaixador dos EUA na Alemanha, Richard A. Grenell, chegou a escrever uma carta ao ministro da economia alemão ameaçando diminuir a cooperação de segurança se a Alemanha não restringisse o equipamento da Huawei.

O Departamento de Comércio acrescentou a Huawei à chamada “lista de entidades”, restringindo seu acesso sem permissão do governo à tecnologia dos EUA. Apesar disso, Trump recentemente deu uma declaração vaga sugerindo que essa decisão pode ser revertida como parte das negociações comerciais.

Alguns altos funcionários do Reino Unido compartilham as preocupações de segurança, segundo o Observer, incluindo um secretário de defesa que foi demitido sob suspeita de vazamento de documentos relacionados. Mas nem todos os aliados dos EUA compraram a ideia. Alguns integrantes do governo do Reino Unido estão relutantes em barrar a empresa porque isso poderia atrasar o 5G:

As autoridades de Whitehall [sede do governo britânico] estão preocupadas que a exclusão da Huawei, uma das poucas empresas que podem fornecer tecnologia sem fio de última geração, teria implicações prejudiciais para o futuro da infraestrutura do Reino Unido. Eles tomaram nota do que aconteceu em dezembro passado, quando a rede 4G da O2 caiu por 24 horas devido a problemas com a tecnologia fornecida pela empresa sueca de telecomunicações Ericsson.

“Se tivéssemos banido a Huawei e todos estivessem usando a Ericsson, teríamos um dia sem cobertura móvel em qualquer rede — não é uma boa situação para se estar”, disse Matthew Howett, da Assembly.

Segundo o Observer, uma revisão do governo sobre o uso da tecnologia Huawei em redes 5G deve ser divulgada no segundo semestre de 2020, mas “ainda não se materializou, já que autoridades e ministros ainda não chegaram a um consenso sobre a extensão da restrição à companhia chinesa”. O que exatamente conta como aplicações essenciais e o que conta como não essenciais ainda precisa ser claramente delineado. Mesmo assim, as operadoras do Reino Unido aparentemente apostam em uma decisão favorável a elas.

[Observer]