Há cerca de duas semanas um grande estudo observacional sobre o uso da hidroxicloroquina para o tratamento de COVID-19 foi publicado em uma das mais respeitadas revistas científicas do mundo, Lancet. A Organização Mundial da Saúde (OMS) e diversos cientistas ao redor do mundo decidiram interromper seus testes clínicos com a droga, depois de o estudo mostrar que seu uso estava ligado a maiores chances de morte e desenvolvimento de arritmias cardíacas graves. Agora, os resultados são postos em xeque e a OMS retornou seus testes clínicos com o medicamento.

Já naquela época, cientistas observaram que o estudo não era controlado com grupos randomizados, considerado o padrão mais alto na ciência, mas que como tinha uma base ampla com pacientes dos seis continentes e corroborava outros estudos que vinham indicando os riscos da cloroquina, parecia trazer informações importantes sobre o uso do medicamento.

Os problemas do estudo

Nesta terça-feira (2) duas revistas científicas respeitadas, a própria Lancet e a New England Journal of Medicine (que publicou um outro estudo que dizia que medicamentos para pressão alta não estavam associados com pioras no quadro de COVID-19), expressaram algumas preocupações a respeito das pesquisas e disseram que pediram evidências aos autores de que os dados são confiáveis.

Essas preocupações dizem respeito ao método utilizado dos estudos. A pesquisa que envolvia a hidroxicloroquina reuniu dados de 96.000 pacientes de 671 hospitais dos seis continentes e analisou a diferença daqueles que receberam algum tratamento com a cloroquina e aqueles que não tomaram o medicamento.

Os dois estudos, tanto o publicado na Lancet quanto no New England Journal of Medicine, utilizaram dados obtidos a partir da Surgisphere, uma pequena empresa baseada em Chicago, nos EUA. As pesquisas também compartilham alguns dos mesmos autores, incluindo Sapan Desai, que é fundador e CEO da Surgisphere.

O jornal britânico Guardian relatou discrepâncias nos dados que teriam vindo da Austrália, por exemplo. O artigo científico relava 73 mortes por COVID-19 no país da Oceania até 21 de abril, mas dados do mapa da Universidade Johns Hopkins mostravam que tinham acontecido 67 mortes até essa data. Os autores corrigiram as informações e mantiveram suas conclusões.

Outros especialistas levantaram preocupação em relação às análises estatísticas e a falta de transparência das informações utilizadas – uma carta enviada ao editor da Lancet em 28 de maio assinada por mais de 180 cientistas apontaram esses problemas e disseram que os autores não esclareceram quais países e hospitais contribuíram com informações.

A empresa que ofereceu os dados

O Guardian também levantou que a Surgisphere, empresa que coletou e ofereceu os dados para o estudo, não tem um histórico consolidado e os dados públicos disponíveis na internet de seus funcionários sugeriam que eles tinham pouca ou nenhuma experiência científica. Além disso, até segunda-feira, o link para entrar em contato com a Surgisphere em seu site oficial levava o usuário para um site de criptomoedas, levantando questões sobre “como hospitais poderiam entrar em contato facilmente com a companhia para compartilhar sua base de dados”, conforme a reportagem.

Sapan Desai, fundador e CEO da Surgisphere, disse que “há mal entendido sobre o que é o seu sistema e como ele funciona” após o Guardian apontar as preocupações sobre a base de dados. “Há também uma série de imprecisões e conexões não relacionadas que você está tentando fazer com um claro tendenciosismo para tentar desacreditar quem nós somos e o que fazemos”, disse ele.

Em um comunicado, o principal autor dos dois estudos, o cardiologista Mandeep Mehra, do Brigham and Women’s Hospital Heart and Vascular Center e Harvard Medical School, nos EUA, disse que o time de pesquisa “iniciou uma análise independente dos dados utilizados nos dois artigos depois de saber sobre as preocupações que foram levantadas sobre a confiança da base de dados”. Mehra disse que a decisão para as revisões externas veio dos demais co-autores dos trabalhos, “independente da Surgisphere”.

Atualização dia 4 de junho, às 16h26: Na quinta-feira (4), três co-autores da pesquisa sobre os impactos do uso da hidroxicloroquina no tratamento de COVID-19 se retrataram pelo estudo depois de não conseguirem formalizar uma auditoria independente dos dados usados utilizados. Em um comunicado na Lancet, os cientistas concluíram que “não podem mais atestar a veracidade das fontes de dados primários”.

Droga politizada

Os resultados do estudo que envolvia a hidroxicloroquina e cloroquina foram os que mais chamaram a atenção, principalmente pelo fato de o medicamente ter sido “politizado”.

O tratamento com hidroxicloroquina e azitromicina ficou em evidência depois de o presidente dos Estados Unidos, Donald Trump, afirmar que o país começaria a testar a droga para tratar pacientes com o novo coronavírus. As afirmações de Trump vieram na esteira da divulgação de um estudo francês que mostravam resultados promissores no uso desse coquetel, que posteriormente foi duramente criticado pela comunidade científica. O autor do estudo já havia se envolvido em diversas polêmicas no passado.

Em abril, os Centros de Controle e Prevenção de Doenças dos EUA (CDC) alteraram o texto em seu website removendo a orientações para o possível uso de hidroxicloroquina e cloroquina pelos médicos.

No Brasil, o presidente Jair Bolsonaro também apostou alto na cloroquina – e continua fazendo menções frequentes ao medicamento, que ainda não possui evidências o suficiente para sustentar seu uso amplo. Os dois ex-ministros da saúde do País alertavam sobre os riscos do uso da cloroquina.

No mês passado, o Ministério da Saúde divulgou um documento que orienta o uso da hidroxicloroquina em pacientes com COVID-19. O texto do ministério mantém a necessidade de o paciente autorizar o uso da medicação e de o médico decidir sobre a aplicar ou não o remédio.

OMS retorna testes clínicos com cloroquina

A Organização Mundial da Saúde (OMS) suspendeu os testes clínicos com a hidroxicloroquina depois da divulgação desse estudo, afirmando que iriam revisar os dados gerados até aquele momento. Nesta quarta-feira (3), a OMS anunciou que não havia razões para descontinuar os testes clínicos globais e que a pesquisa iria retornar.

“O grupo executivo recebeu essa recomendação e endossou a continuidade de todos os barcos dos testes clínicos de solidariedade, incluindo o da hidroxicloroquina”, disse Tedros Adhanom, diretor geral da OMS, em uma coletiva de imprensa.

Ainda não há evidência de qualquer droga consiga reduzir a mortalidade de pacientes com COVID-19, ressaltaram as autoridades da OMS.