Em uma margem de rio no extremo norte do Alasca, uma equipe de paleontólogos está limpando a lama. Foi lá que eles descobriram evidências da reprodução de dinossauros no lugar que hoje é a América do Norte, um sinal de que no final do período Cretáceo, os dinossauros viviam em tempo integral em climas frios.

A descoberta tem implicações para a compreensão do sangue, morfologia e comportamento dos dinossauros. As explorações foram feitas na formação Prince Creek, em uma parte do Alasca tão ao norte que fica a uma jornada de quatro dias de Fairbanks e requer um carro, um avião e vários barcos. Por 70 anos, pesquisadores têm viajado para regiões distantes para entender como os dinossauros perseveraram.

As coisas estavam mais quentes 70 milhões de anos atrás, mas os dinossauros do norte ainda tinham que lidar com temperaturas um pouco acima de zero nos meses mais frios, que eram escuros e sombrios. Se os animais não houvessem migrando para o sul, haveria evidências de sua presença permanente durante os invernos árticos do Cretáceo.

“Os dinossauros se aninhavam no Ártico – não apenas no Ártico, praticamente no Polo Norte”, disse Patrick Druckenmiller, paleontólogo do Museu da Universidade do Alasca e principal autor do artigo, em entrevista por vídeo. “Isso sugere fortemente que eles não eram migratórios, mas estavam hibernando. E se eles hibernaram, isso abre uma série de questões sobre como eles faziam isso”, pontua.

Os répteis são de sangue frio, ou ectotérmicos, o que significa que a temperatura externa determina a temperatura interna do animal. É por isso que os lagartos vivem em trechos ensolarados do planeta, sejam secos ou úmidos, mas não se instalam em lugares que congelam. Mas os endotérmicos – animais que têm calor corporal e regulam sua própria temperatura – podem suportar esses ambientes frígidos, contanto que tenham uma fonte estável de alimento, água e abrigo contra as condições adversas.

A migração é muito mais fácil se for um grande dinossauro sem filhos. Apesar disso, a equipe de pesquisa encontrou dinossauros de todas as idades e tamanhos, de hadrossauros com bico de pato a tiranossauros carnívoros; eles encontraram até pequenos mamíferos e outros vertebrados. Tom Rich, um paleontólogo do Museums Victoria, na Austrália, que não fez parte dessa descoberta, havia relatado anteriormente a primeira evidência de um dinossauro não aviário em um ambiente polar. Rich disse que a migração para o sul durante o inverno não parecia possível para os animais que não podiam voar, devido à energia necessária.

Para as análises, o grupo de Druckenmiller pegou camadas de sujeira das margens do rio Colville e as levou para o laboratório, onde foi depositado em telas de dentes finos para peneirar os microfósseis. A equipe filtrou a sujeira em busca de grãos de material com mais de meio centímetro de diâmetro. “Agora temos sujeira limpa”, disse Druckenmiller. “Então pegamos uma pequena colher de chá dessa areia seca e colocamos em uma bandeja, e olhamos cada grão no microscópio.”

Eles estavam procurando por coisas muito pequenas e, no final das contas, elas encontraram, na forma de muitos ossos e dentes de dinossauros perinatais, evidências dos animais bebês no norte. Com a mesma cor fossil manchada e fragmentados, os ossos não ajudaram na identificação de nenhuma espécie em particular. Mas os pesquisadores podem atribuir os dentes a seus proprietários ancestrais com base em sua forma. Eles ainda não encontraram ovos de dinossauro, mas certamente bebês dinossauros são uma prova ainda melhor de dinossauros se estabelecendo naquele extremo norte.

Curiosamente, além dos dinossauros, os únicos animais até agora encontrados nas escavações em Prince Creek incluem pássaros e mamíferos de sangue quente do Cretáceo. Em outras palavras, criaturas que sabemos ter sangue quente. Animais de sangue frio como anfíbios e crocodilianos ainda não foram encontrados nessas latitudes. “Eu acho que esta é uma das evidências mais convincentes de que os dinossauros tinham, de fato, o sangue quente”, disse o coautor Gregory Erickson, paleontólogo da Florida State University, em um comunicado.

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Agora vem a dúvida: como os dinossauros sobreviveram ao inverno? Eles podiam ter penas, o que os cobriam do frio – imagine um tiranossauro na neve. “Ectotérmicos não têm coberturas externas como essa, mas faz muito sentido que um animal que vive no Ártico queira ter uma parka de penas”, disse Druckenmiller. Além disso, ele acredita que os dinossauros possam ter hibernado durante os meses frios de inverno, embora a equipe ainda não tenha encontrado nenhuma evidência de tocas de dinossauros. Mas talvez isso aconteça, à medida que os pesquisadores continuam a raspar camadas do leito do riacho de 70 milhões de anos, em busca de respostas.