Apesar do grande número de fósseis de dinossauros encontrados, de ossos a penas, existe pouco material no registro fóssil para explicar a defecação, micção ou acasalamento dessas criaturas. Felizmente, todas essas três coisas acontecem em um mesmo lugar, e os pesquisadores agora conseguiram obter a primeira visão abrangente do exterior preservado de uma cloaca de dinossauro.

Esta cloaca em particular foi encontrada em um espécime de Psittacosaurus, um dinossauro do Cretáceo que parecia um cruzamento entre um papagaio e um lagarto (não por coincidência, é também o que “Psittacosaurus” significa). Encontrado em Liaoning, no nordeste da China, grande parte da pele e características externas do dinossauro foram preservadas, desde alguns pelos brotando de sua cauda à pigmentação ao redor de sua cloaca enigmática, dando aos pesquisadores uma noção vívida de como pode ter sido a aparência dos dinossauro em vida. A análise do orifício traseiro foi publicada na terça-feira (19) na revista Current Biology.

“Toda a magia de uma cloaca acontece por dentro”, disse Jakob Vinther, paleontólogo da Universidade de Bristol e principal autor do recente artigo, em uma vídeo chamada. “O lado de fora é bastante indefinido, e há todos os tipos de coisas incríveis acontecendo lá dentro porque é uma abertura multiuso”.

O fóssil do dinossauro é da China, mas atualmente está mantido em um museu de Frankfurt. Imagem: Jakob Vinther

De forma curiosa, apenas o exterior da cloaca foi preservado. O interior – pelo menos nas criaturas modernas – é onde as mudanças evolutivas mais exclusivas tomam forma, onde os pênis e clitóris dos dinossauros, caso existissem, seriam encontrados. Os restos mortais são uma combinação pontilhada de preto e vinho, não muito diferente de uma pintura rupestre de Lascaux. Há também uma mancha castanha clara que os pesquisadores identificaram como um coprólito: um cocô de dinossauro que nunca viu a luz do dia.

Além de servir de material para muitas piadas, ver o interior de uma cloaca de dinossauro daria uma nova compreensão do acasalamento deles. Sem essa visão do interior, é impossível saber se os dinossauros acasalavam com órgãos intromitentes, como fazem os humanos, ou se participavam de beijos cloacais, como fazem muitos pássaros modernos, em que o macho encosta sua cloaca ao lado da cloaca da fêmea e ejacula diretamente sobre ela.

O beijo cloacal é basicamente os pássaros “presos a todo o sistema de introdução de espermatozoides na fêmea para fertilizar os óvulos” em vez de encontrar outra maneira de acasalamento, de acordo com a coautora do estudo Diane Kelly, bióloga especializada em mecanismos de reprodução sexual na UMass Amherst. (Kelly escreveu anteriormente uma coluna para o Gizmodo chamada Throb, que era exclusivamente sobre sexo). Alguns pássaros, como avestruzes e patos, fazem sexo com pênis, então sabemos que ambas as técnicas evolutivas vieram de algum lugar. Mas como evoluímos das cloacas pré-históricas dos dinossauros à moderna cloaca de pássaros? O espécime Psittacosaurus de Liaoning é a nossa melhor pista até agora.

Um close-up da cloaca, dentro de um coprólito esbranquiçado no centro. Imagem: Jakob Vinther

Se a cloaca é o elemento mais interessante do fóssil, a região ao redor dela levanta ainda mais questões. Por um lado, o Psittacosaurus tem padrões de pigmentação em torno da cloaca – pense no traseiro brilhante de um babuíno, embora o do dinossauro fosse preto ou cor de ferrugem. Além disso, os lóbulos de cada lado da abertura são inchados, sugerindo glândulas que podem ter sido usadas para sinalização olfatória.

“Podemos fazer algumas inferências sobre duas maneiras possíveis de eles se comunicarem entre si, que refletem os métodos que vemos em animais atuais”, disse Kelly em um telefonema. “Não estamos inventando isso do nada. Essas são as duas modalidades de sinalização que vemos em animais vivos, usando a mesma região do corpo também.”

É impossível saber as funções exatas dessas características cloacais, mas Vinther disse que os sinais apontam para usos sexuais. Os crocodilianos têm cloacas com estrutura semelhante externamente, de acordo com Kelly, mas não têm cloacas pigmentadas. A possibilidade de mecanismos olfativos sugere que alguns dinossauros podem ter cheirado as partes traseiras uns dos outros, mas não há muitas evidências no momento. Será necessário encontrar mais fósseis no futuro para descobrir a estrutura interna do sistema, e é aí que as coisas ficarão realmente interessantes.

Por enquanto, vamos nos contentar com essa imagem da cloaca de dinossauros, uma amostra única de engenharia evolucionária que faz nossa própria anatomia parecer desnecessariamente complicada.

“Os mamíferos são os únicos que separaram essas coisas”, disse Vinther. “Na verdade, nós é que somos estranhos.”