Desde o ano passado até agora, os esforços de saúde têm se concentrado na pandemia de Covid-19. Mas o que aconteceu com as outras doenças que já enfrentávamos anualmente, como a gripe comum? Nos Estados Unidos, os Centros de Controle e Prevenção de Doenças (CDC) descobriram que poucas pessoas foram afetadas pela gripe sazonal nesta temporada. E isso não é necessariamente um bom sinal, conforme aponta uma reportagem da Wired.

Durante os meses de dezembro, janeiro e fevereiro de 2019-2020, cerca de 18 milhões de pessoas buscaram assistência médica nos EUA devido a sintomas da gripe sazonal, sendo que 400 mil foram hospitalizadas e 32 mil morreram. Já na temporada atual, os números se limitam a algumas centenas. Outras doenças causadas por vírus como o Vírus Sincicial Respiratório (VSR) e o enterovírus D68 (EV-D68) também apresentaram uma queda no número de casos.

Por um lado, isso é algo positivo, visto que um maior número de doentes sobrecarregaria ainda mais os sistemas de saúde já saturados pela Covid-19. Mas o que exatamente explica essas alterações? Por enquanto, os cientistas ainda não têm nenhuma certeza, mas já discutem algumas teorias plausíveis.

A primeira delas é que as medidas de distanciamento social, como o nome já diz, fez com que as pessoas permanecessem distantes umas das outras, evitando o contato entres elas e também com superfícies. O simples fato de utilizar máscaras em locais públicos, evitar o contato físico e higienizar as mãos constantemente resultou em uma prevenção maior contra outras doenças também.

Outra hipótese, apesar de menos provável, é a chamada “interferência viral”. Ou seja, um patógeno — no caso, o SARS-CoV-2 — seria tão poderoso a ponto de dominar toda uma população de forma a suplantar outros vírus mais fracos. Talvez o sistema imunológico das pessoas esteja reagindo de forma tão intensa para combater a Covid-19 que acabe eliminando outras doenças nesse processo.

Seja qual for a explicação, essas mudanças preocupam os cientistas em relação ao que esperar das próximas temporadas dessas doenças. O que os modelos epidemiológicos indicam é que quando, em uma temporada, as pessoas suscetíveis não são infectadas, a temporada seguinte será muito pior. Afinal, se a maioria da população não foi exposta ao vírus e, portanto, não teve a chance de aprimorar seu sistema imunológico, o número de indivíduos vulneráveis será ainda maior no próximo ano.

Por outro lado, se menos pessoas foram infectadas este ano, isso também significa que os vírus tiveram menos oportunidades de sofrer mutações. Ou seja, a boa notícia é que a vacina do ano passado pode ainda ser eficaz na próxima temporada. Mas isso não é uma certeza, pelo menos por enquanto.

Caso a próxima cepa da influenza seja muito diferente a ponto de tornar as vacinas inúteis, no entanto, a má notícia é que a comunidade científica provavelmente não estará pronta para lidar com isso na velocidade necessária. Afinal, os pesquisadores costumam estudar como a doença afeta uma região para prever o que está por vir e preparar outros países para a chegada da doença. Se quase ninguém foi infectado, como é o caso atualmente, há poucos dados para auxiliar a comunidade médica a se preparar.

Isso tudo também levanta uma questão interessante. Mesmo que não tenhamos vacinas disponíveis ou que esses vírus nos atinjam com mais força, a queda nos números mostra que existem maneiras de evitá-las por meio da mudança de comportamento das pessoas. Diante disso, será que vamos continuar encarando doenças como a gripe sazonal da mesma forma que antes da pandemia de Covid-19?

Somente a influenza é responsável por algo entre 12 mil e 60 mil mortes anualmente, custando cerca de US$ 11 bilhões à economia dos EUA todos os anos. Ainda assim, apenas 48,4% dos jovens se vacinaram contra a gripe na temporada 2019-2020 nos EUA. A doença se tornou algo tão comum que a maioria das pessoas não enxerga como um verdadeiro problema de saúde.

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Se você é jovem e saudável sabe que é muito improvável morrer por causa de uma gripe e, portanto, imagina que não precisa se vacinar. Ninguém deixa de abrir seu comércio, ir à escola ou ao escritório por causa de um resfriado. Os custos e mortes são encarados como algo normal e quase inevitável. Porém, todos os cuidados que tomamos devido à Covid-19 mostraram que isso poderia ser evitado, sim.

Se as próximas temporadas de gripe e outras doenças respiratórias vierem com mais força, a melhor forma de combatê-las será mantendo os cuidados que passamos a valorizar com a pandemia de Covid-19. De acordo com os pesquisadores ouvidos pela Wired, as pessoas se tornaram “insensíveis” à gripe. O que eles esperam é que sejamos mais conscientes e possamos reconhecer que tais doenças podem ser evitadas.

[Wired]