Cientistas que estudam o kea, o papagaio alpino da Nova Zelândia, revelaram que esses pássaros travessos podem entender probabilidades, uma habilidade mental impressionante.

O par de pesquisadores submeteu seis pássaros a uma série de ensaios para ver como eles tomavam decisões diante de incertezas. Quando solicitados a escolher, os kea geralmente optavam por cenários em que eram mais propensos a ganhar uma recompensa. Este trabalho é mais uma evidência da inteligência geral de algumas aves, de acordo com o artigo publicado na Nature Communications.

“Kea é uma espécie de papagaio que existe apenas na ilha sul da Nova Zelândia. Eles também são o único papagaio do mundo a viver nas montanhas alpinas, um ambiente frio e com condições severas onde os recursos alimentares podem ser escassos”, disse ao Gizmodo a pesquisadora brasileira Amalia Bastos, primeira autora do estudo da Universidade de Auckland. “Essa escassez de alimentos é provavelmente a razão pela qual eles são altamente curiosos – é essencial para a sobrevivência deles que eles possam avaliar prontamente novas fontes potenciais de alimentos”.

O primeiro experimento apresentou aos pássaros potes contendo diversos tokens pretos e laranja (uma ficha preta lhes daria uma recompensa; a laranja não lhes daria nada). Primeiro, o experimentador colocava uma mão em uma jarra com 100 fichas pretas e 20 fichas laranja e a outra mão em uma jarra com as quantidades reversas. Em 20 tentativas, três dos seis kea imediatamente mostraram uma preferência pela mão que entrou no pote com mais fichas pretas.

Em seguida, para testar se os animais estavam apenas pensando em quantidades ou se estavam considerando probabilidades reais, foi apresentado aos pássaros um frasco contendo 20 fichas pretas e 100 fichas laranja e outro com 20 fichas pretas e quatro fichas laranjas. Quatro kea imediatamente preferiram a mão que havia ido ao pote com melhores chances nas primeiras 20 tentativas.

Finalmente, os pássaros foram testados com um pote contendo 63 fichas laranjas e 57 fichas pretas contra outra com 63 fichas laranjas e três fichas pretas – todos os kea preferiram o pote com as melhores chances nas 20 primeiras tentativas.

Vou levar meu prêmio agora, obrigado. Foto: Amalia Bastos

Então, os pesquisadores tornaram as coisas um pouco mais difíceis. Eles mostraram aos kea dois frascos onde uma barreira havia sido colocada no meio deles. Cada jarra continha um número igual de fichas laranjas e pretas, mas em um pote, a região acima da barreira possuía muito mais fichas pretas que a outra. Cinco dos seis kea preferiram o frasco que lhes daria melhores chances de prêmio nos primeiros 20 testes, mostrando que eles poderiam integrar o conhecimento da barreira na compreensão da probabilidade.

Finalmente, os pesquisadores realizaram um terceiro experimento no qual dois amostradores humanos diferentes foram retratados como “tendenciosos” ou “imparciais”; os amostradores sempre davam tokens pretos aos pássaros, mas o amostrador tendencioso ia ao pote com mais tokens laranjas, enquanto o amostrador imparcial ia ao pote com mais símbolos pretos. Três dos seis kea escolheram o amostrador tendencioso com mais frequência. Como explicam os pesquisadores: “Se os kea entenderam que o amostrador tendencioso era de fato tendencioso para escolher um token de recompensa, enquanto o amostrador imparcial estava escolhendo apenas tokens de recompensa na mesma frequência que o amostrador tendencioso devido às populações das quais eles estavam amostrando, os kea deveriam escolher o amostrador tendencioso em teste. Isso porque, embora o amostrador imparcial agora provavelmente escolha um token de recompensa metade do tempo, o amostrador tendencioso deve continuar a escolher o token de recompensa em todas as tentativas”.

Um ponto importante é que você deve saber que os pássaros foram nomeados Blofeld, Bruce, Loki, Neo, Plâncton e Taz. Taz passou em todos os testes. Boa, Taz!

Agora, isso não significa que os papagaios possam fazer cálculos complexos. Em vez disso, a equipe sentiu que os resultados experimentais demonstraram que os kea estavam fazendo escolhas com base em seus entendimentos de probabilidade, em vez de apenas com base em quantidades (como escolher o pote com os mais tokens pretos, independentemente do número de tokens laranja). Eles também demonstraram a capacidade dos kea de integrar uma barreira física em sua compreensão da probabilidade e de levar em conta os indícios sociais, como se um pesquisador era enviesado na recompensa ou não.

É empolgante o fato de os kea terem um desempenho tão bom quanto as tarefas estatísticas intuitivas, disse ao Gizmodo Irene Pepperberg, pesquisadora associada em psicologia da Universidade de Harvard, que estudou raciocínio probabilístico em papagaios. Mas ela argumentou que talvez algumas das alegações do artigo sobre as habilidades dos kea fossem fortes demais. Ela acha que os estudos não mostraram suficientemente que os pássaros entendiam como diferentes probabilidades poderiam afetar suas recompensas.

Mesmo assim, experimentos com papagaios continuam demonstrando que há mais coisas acontecendo no cérebro dos animais do que você imagina – e isso inclui pelo menos uma compreensão básica de probabilidades.