Louis CK é provavelmente o meu comediante favorito hoje em dia. Já falamos dele aqui no famoso vídeo Tudo é maravilhoso mas ninguém está feliz, que ele repete (e aumenta) em seu hilário show Hilarious. O problema de apreciar os especiais anuais do Louis é que, bem, nem todo mundo mora nos EUA e assina HBO ou quer pagar 20 dólares no iTunes US. Mas este ano ele resolveu isso: produziu, editou e distribuiu ele próprio uma de suas apresentações e resolveu vender em seu site o vídeo em HD de uma hora sem DRM ou restrições regionais por 5 dólares. E em 12 dias, a despeito da ampla distribuição em torrents, ele tem mais 1 milhão de dólares na conta do PayPal. Isso é sensacional.

Ok, pra começar, o show é sensacional. De observações sobre como as mulheres vêem o sexo à defesa da necrofilia, Louis alopra, fala coisas que possivelmente fariam Rafinha Bastos ir pra cadeia se ele dissesse coisas do tipo na TV brasileira. Até na parte que fala de suas filhas de 6 e 9 anos há coisas, digamos, questionáveis. E hilárias. Só não recomendo absolutamente para todo mundo acima de 18 porque o vídeo é em inglês sem legendas. E por ora nenhuma alma caridosa se deu ao trabalho lá no Legendas.tv. Mas, de todo modo, para quem entende mais ou menos, o inglês dele é bem compreensível.

Mas o ponto aqui não é a qualidade do trabalho do Louis em si, mas a maneira ousada de distribuição. Quando atingiu uma boa vendagem, 4 dias depois, ele escreveu um post em seu blog explicando como a distribuição direta, sem intermediários, pode ser o futuro.

O show começou a ser vendido ao meio-dia de sábado, 10 de dezembro. 12 horas depois nós já tínhamos 50 mil compras e faturamos 250 mil dólares, pagando o custo de produção e do site. Até hoje nós vendemos mais de 100 mil cópias para faturar um total de US$ 500 mil. Descontando as taxas do Paypal e etc, eu tenho um lucro de cerca de US$ 200.000 (o que dá US$ 75,58 descontando o imposto). Isso é menos do que eu teria sido pago por uma grande companhia simplesmente para fazer o show e deixá-la vender para você, mas aí eles iriam cobrar cerca de US$ 20 pelo vídeo. Eles dariam a você um vídeo com proteção de cópia e com distribuição restrita a uma região, de um valor limitado, e ainda teria sua informação privada para fazer o que quiser. Eles iriam segurar a disponibilidade internacional indefinidamente. Da maneira que fiz, você só paga US$ 5, pode usar o vídeo onde quiser, pode assistir em Dublin, qualquer cidade, estando na Bélgica ou em Dubai. Eu ganho bem, e ainda possuo o vídeo (como você). Você nunca vai precisar se cadastrar em nada, e nunca mais ouvir da gente de novo.

Eu realmente desejo que as pessoas continuem comprando, para eu ter um caralhal de dinheiro, mas a esse ponto é seguro dizer que o experimento realmente funcionou. Se alguém roubou, não foram muitos de vocês. Basicamente todo mundo comprou. E agora a gente pode saber isso sobre as pessoas e tal. Eu estou realmente feliz de ter colocado isso aqui e certamente farei de novo. Se a tendência das vendas deste vídeo se mantiver, meu objetivo é chegar ao ponto que quando vender qualquer coisa, sejam vídeos, CDs ou ingressos para as minhas turnês, farei aqui e continuarei seguindo o modelo de manter o preço o menor possível, não jogando um excesso de publicidade em você e mantendo o menor número de pessoas entre eu e você na transação.

(É claro que eu me reservo o direito de voltar atrás e assinar um contrato incrível com uma empresa que me pague uma dinheirama e arrombe seus bolsos com um preço abusivo). (No que você fala: sim, Louie. E nós vamos todos nos divertir colocando o conteúdo em torrent. Seu gordo suado.)

O modelo de venda direta é facilmente aplicável a todo mundo? Certamente não. Nem à maioria. Em vídeo é complicado, já que o custo é alto para algo de qualidade (só o aluguel do espaço mais as 6 câmeras custaram 170 mil dólares ao Louie). E acho que especialmente artistas iniciantes ainda dependem (ou vêem positivamente) o braço de gravadoras ajudando na divulgação, pagando clipes ou produção, e enquanto eBooks e redes sociais não são absolutamente onipresentes, autores ainda precisam de editoras para distribuir e propagandear o trabalho.

Mas a coisa está mudando, rapidamente. Artistas veteranos podem se dar ao luxo de fazer isso e eles deveriam se encorajar no exemplo porque todo mundo ganha no fim das contas. No caso do Louis, eu realmente tenho fé que mais gente pagou do que pirateou. Certamente nos EUA, onde o povo está acostumado a pagar por algo assim. Além de mais dinheiro, lá já há a mentalidade mais enraizada que não se compra o conteúdo (um caixa com um disco ou um arquivo de mais de 1 GB), mas a experiência de ver um cara genial e dar risadas ou achar a trilha sonora da sua vida. Quando todo mundo entender esse valor, quando os preços estiverem mais acessíveis a mais gente e principalmente a distribuição for descomplicada, tenho certeza de que a pirataria vai deixar de ser um problema sério.

Mas divago. Eu gastei os meus 5 dólares feliz, logo nas primeiras horas. Porque além do Louie tudo agrada: a resolução, o formato mp4 que não necessita de conversões chatas para tocar em qualquer lugar e, além de tudo, eu posso baixar de novo quando eu quiser, só colocando minha senha no site do cara. Baixe lá você, coloque o arquivo num pen-drive (ou grave um DVD, há até a arte da capa para baixar) e você tem um presente incrível e barato para o fim de ano. Tirando as crianças da sala, é claro. [Compre aqui]