O Google costuma dizer que seus carros autônomos têm a capacidade de salvar vidas, pois são inteligentes o bastante para evitarem colisões. No entanto, elas acontecem mesmo assim. Por isso, a empresa parece parece ter uma carta na manga: um adesivo para humanos. Conversamos com alguns especialistas para saber se esta ideia pode realmente funcionar.

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A companhia recebeu uma patente que propõe colocar um adesivo superforte no capô de seu carro autônomo. Desta forma, pedestres ou ciclistas que forem atingidos estariam protegidos do chamado “segundo impacto”. Isto é a parte do acidente quando uma pessoa é jogada para trás do veículo, geralmente atingindo o teto do carro, a rua ou outro carro. Nesta hora é que são registradas as lesões mais sérias.

A patente foi registrada em 2014 e parece que foi feita como uma solução temporária para manter a segurança de pessoas que “conviverão” com os carros autônomos, enquanto a tecnologia evolui:

Como esses sistemas ainda estão sendo desenvolvidos, devemos reconhecer que colisões entre veículos e pedestres ainda ocorrem. Tais mecanismos de segurança podem se tornar desnecessários com a tecnologia para evitar acidentes evoluindo cada vez mais. No entanto, atualmente é desejável ter veículos que tenham mecanismos de segurança para os pedestres.

Sobre o tipo de cola que o Google planeja colocar nos veículos, a patente descreve uma espécie de cobertura de casca de ovo sobre a principal camada adesiva, dessa forma o carro não sairá por aí capturando insetos ou outros animais que se aproximarem.

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Onde o adesivo deverá ser aplicado, segundo a patente do Google de número 9340178

Funciona?

Rebecca Thompson, chefe de conscientização pública da American Physical Society, explica que, de fato, é bem melhor – do ponto de vista da física – uma só colisão com um capô pegajoso.

“Ser atingido por um carro apenas uma vez é muito melhor do que ser atropelado e ser jogado no chão ou ser impactado por outro veículo”, diz Rebecca. “Os ciclistas usam capacete não para se prevenirem da pancada com o carro, e sim para lidar com a possibilidade de bater a cabeça no chão, caso caiam.”

Transformar carros em grandes “armadilhas grudentas” é certamente um recurso que poderia ter aplicações urbanas além dos carros autônomos. Se for provado que é uma boa ideia, o recurso poderia ser usado em objetos perigosos em movimento.

“Isso é basicamente uma variação de um airbag externo, que de cara parece ser uma boa ideia para veículos em baixa velocidade, como uma medida de segurança auxiliar”, diz Gabe Klein, que trabalhava como chefe do departamento de transporte de Chicago, e agora aconselha startups e fundos de investimentos relacionados à mobilidade. “Por que não considerar esse recurso para veículos que não sejam autônomos?”.

E Rebecca ressalta um outro benefício do recurso: ter uma pessoa grudada no capô pode prevenir que o motorista fuja do local sem prestar assistência. Isso com certeza diminuiria a ocorrência de atropelamentos seguidos de fuga.

Mas, segundo ela, essa não é uma ideia perfeita. Com um pedestre ou ciclista grudado na frente do veículo, o carro pode ter problemas para continuar a circular com segurança — ou mesmo puxar os braços ou pernas da pessoa para baixo do carro, causando danos ainda mais graves.

Várias montadoras estão pensando em formas de reduzir danos aos pedestres em acidentes. A Nissan, por exemplo, tem um mecanismo que levanta um pouco o capô para impedir que os pedestres batam com a cabeça.

A patente do Google para pedestres é especialmente criativa. No entanto, seria possível ter um mesmo nível de segurança usando uma tecnologia V2P (Veículo para pessoa), segundo Dan Surges, designer da área automotiva e professor no College for Creative Studies de Detroit. “Considerando a popularidade da plataforma Android, eles poderiam ter smartphones dizendo aos pedestres onde há maior risco de batidas e atropelamentos. Eles poderiam usar a tecnologia do Google para evitar acidentes envolvendo carros e pedestres ao usar tecnologia pervasiva.”

Claro, como disse um representante do Google ao Mercury News, a patente não significa que nós veremos essa ideia se tornar realidade logo. É só outra forma de a empresa mostrar como considera ajudar seus robôs a manterem mais humanos vivos em nossas ruas.

[US Patent Office via Mercury News]