Enquanto a Apple tenta desvencilhar o iCloud do vazamento de fotos íntimas de famosas, advogados ameaçam processar todo mundo, e as atrizes procuram encontrar a melhor maneira de lidar com o caso, é provável que em algum momento a empatia tenha aflorado e feito você se perguntar: “E se fosse comigo?”

Quando é alguém famoso que tem a intimidade exposta a repercussão é maior, porém isso não significa que eu ou você estejamos menos suscetíveis a situações do tipo – nem só de estrelas vive o vazamento de dados, fotos inclusas. No submundo da Internet, como nos mostrou o Valleywag, a luta pela privacidade (e contra ela) é protagonizada por gente comum de ambos os lados – quem a viola e quem é violado.

Sendo assim, e sem cair no discurso fajuto e absurdamente cruel de culpar a vítima (acredite, tem muita gente que faz isso!), elaboramos o guia abaixo. São pequenas dicas, num sistema de perguntas e respostas, para diminuir as chances de ter seus arquivos na nuvem e smartphone acessados indevidamente. E não, parar de enviá-las para lá não é uma opção – os efeitos colaterais não compensam.

Então, vamos lá.

1. A Culpa é da Apple?

Talvez. Apesar da brecha que permitia o ataque por força bruta no iCloud via Buscar Meu iPhone ter existido (já foi corrigida), ninguém provou que esse foi o vetor dos ataques em massa. O criador da ferramenta iBrute, que explorava a brecha, declarou que não acredita que ela tenha sido usada para tal finalidade. E tem mais: aparentemente algumas celebridades envolvidas usam Android e, entre o material vazado, há vídeos, formato que não entra no backup do iCloud.

Quer dizer que estamos sendo injustos com a Apple? Novamente… talvez. Há motivos para criticar a segurança do iCloud, que é bem precária. Mesmo quando parecia que a Apple tinha acertado, com a verificação em dois passos, descobriu-se que ela não contempla backups do iCloud, uma falha que pode ter custado algumas dessas fotos que hoje circulam por aí.

Não é de hoje que há algo de errado no iCloud. Há dois anos, Mat Honan teve sua vida digital arruinada por um hacker que se apropriou das suas identidades digitais simplesmente manipulando os serviços de atendimento ao consumidor da Amazon e da Apple. Desde então, nada muito concreto foi feito para fechar essas lacunas.

2. Posso processar a Apple caso minhas fotos vazem do iCloud?

A justiça é um direito de todos e se algo assim ocorrer e você se sentir prejudicado, bem… nada impede uma ação do tipo. A dificuldade seria provar que o iCloud foi o culpado pelo vazamento das informações. A Apple, claro, negará até a morte, então é complicado imaginar como produzir uma prova que seja contundente em juízo, principalmente aqui no Brasil, onde a tecnologia ainda está se acertando com o judiciário.

Tem outra: os termos de uso do iCloud tiram a responsabilidade da Apple em casos assim e, também, quando o usuário dá bobeira e facilita o acesso por um terceiro – pense na quantidade de gente que publica seus dados pessoais por ai, nas redes sociais. Esses dados estão acessíveis pelo mundo com um pouco de pesquisa e podem servir de passaporte para locais teoricamente protegidos. Ok, essa cláusula do iCloud é fácil de derrubar com a ajuda do Código de Defesa do Consumidor, mas, ultrapassado esse obstáculo, ainda sobra o outro, descrito acima. Você não pode processar a você mesmo.

Por isso, vale relembrar: o verdadeiro culpado não é a Apple ou qualquer outra empresa que oferece serviços do tipo, mas a pessoa que se aproveita deles para invadir a intimidade. Pense, antes de tudo, em identificar e processar quem violou a sua privacidade.

3. Como é feita essa invasão?

De várias formas. Algumas são mais simples do que se imagina e, ao contrário do que parece, boa parte dos casos independe de falhas de segurança nos sistemas. Estamos falando de engenharia social e muita pesquisa na Internet. Com as redes sociais, passamos a nos expor mais e deixar por aí dados que, em outros cenários, também servem para autenticação em sistemas seguros. Se até RG as pessoas publicam espontaneamente para participar de um “desafio” no Facebook, não dá para esperar comedimento na veiculação de informações na rede, certo?

Sabe o cara que usa a data de nascimento como senha do banco? É mais ou menos isso, só que num nível avançado. Nunca foi tão fácil descobrir detalhes da vida pessoal de alguém e nunca produzimos tanta munição para ser usada contra nós mesmos.

4. Como impedir invasões?

Valem dicas óbvias, que provavelmente você, leitor do Gizmodo, já manja, mas que seus parentes e amigos menos aficionados ainda insistem em não seguir. Quais?

  • Evite divulgar informações sensíveis na Internet. Nas redes sociais, restrinja o acesso ao que for possível somente a amigos/contatos.
  • Use uma senha forte. Ela precisa ser grande, misturar letras, números e símbolos,  não constar no dicionário, nem fazer referência a qualquer informação sua, como telefone, data de nascimento e outros dados do tipo.
  • Na pergunta secreta, que muitos serviços usam para o resgate da senha, crie uma resposta nonsense. Se a pergunta for, por exemplo, “Onde sua mãe nasceu?”, coloque algo como “geladeira” ou “gizmodo”. Não facilite.
  • Existe a opção de verificação em dois passos? Ative-a. É uma barreira extra para acessar sua conta e que depende de algo físico (seu celular) para ser transposta.

Não existe sistema 100% seguro. O que podemos fazer, na nossa ponta, é contribuir para que a porcentagem de segurança se aproxime mais do máximo. Essas medidas já são um adianto e se você ainda não faz uso  delas, o momento é propício para tomar uma atitude.

5. E tirar minhas fotos da nuvem, é uma boa?

É uma medida drástica que neutraliza, mas não impede em absoluto que suas fotos caiam em mãos erradas. Afinal, existem outros meios, como os físicos, para ter acesso a dados sensíveis – roubo e furto, por exemplo.

Além disso, não acho que os benefícios de desistir de serviços na nuvem superem as perdas de mantê-los a seu dispor. Para cada pessoa que tem a intimidade exposta, deve existir um punhado de outras que, graças ao backup automático do iCloud (e do Dropbox, OneDrive e Google Drive), conseguiram resgatar fotos que, de outra forma, estariam perdidas para sempre. Uma dica de segurança básica é ter sempre um backup atualizado dos seus arquivos. O armazenamento na nuvem é isso. E um dos melhores, com engenheiros, programadores e infraestrutura de alto nível cuidando do seu backup remotamente.

6. E se eu parasse de tirar fotos íntimas?

Esse argumento é tão pífio que nem deveria ser cogitado. E se parássemos de sair às ruas e de comprar as coisas legais que tenho vontade? Assaltos, nunca mais! Não vou mais viajar de carro ou avião também, afinal nunca se sabe quando um acidente acontecerá… Enfim, você entendeu.

Culpar a vítima, não é esse o caminho.

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A segurança digital é uma balança ingrata: comodidade e eficiência ficam disputando a atenção de quem desenvolve sistemas. Daria para criar soluções muito mais seguras, com criptografia pesadíssima, processos rigorosos e autenticação em múltiplos níveis? Sim, mas esse cenário desestimularia muita gente a se dedicar à configuração de algo tão complexo. Pense no PGP.

O desafio está em equilibrar essas duas forças opostas. O Santo Graal da segurança digital é um sistema que seja absurdamente seguro e, na mesma medida, fácil de configurar e manter. Não chegamos lá ainda. Hoje, não estamos tão mal. Ainda é preciso alguma atenção e um pouco de esforço, mas com práticas relativamente simples qualquer um consegue blindar melhor seus arquivos e dados pessoais.

Mais do que tecnologia, o vazamento de fotos íntimas é um problema psicológico, um desrespeito com o semelhante e, claro, um crime – art. 154-A do Código Penal. [Foto: Mingle MediaTV/Flickr]