Uma equipe de pesquisadores, incluindo da Universidade de Stanford, diz que deu um passo importante para potencialmente ajudar pessoas com uma doença mal compreendida que há muito tempo é vista com ceticismo pelo público e até mesmo por alguns médicos. Eles afirmam ter criado um exame de sangue que pode ser capaz de identificar prontamente as pessoas que têm encefalomielite mialgica, também conhecida como síndrome da fadiga crônica (doença que causa extremo cansaço nas pessoas).

O teste de diagnóstico não só valida uma base biológica para os sintomas dos doentes, dizem os autores, como também pode apontar novos caminhos de tratamento para a doença, muitas vezes incontrolável.

Atualmente, a ME/CFS (sigla da doença em inglês) é um rótulo de diagnóstico que damos às pessoas que sofrem de fadiga prolongada e debilitante — especialmente após o exercício — e de outros sintomas como dor crônica, que não podem ser explicados por nenhuma outra doença conhecida. A indefinição da ME/CFS uma vez levou diversos médicos a considerá-la uma doença psicológica, com os sintomas das pessoas sendo atribuídos a uma manifestação psicossomática de seu estresse ou ansiedade. Porém, nos últimos anos, a comunidade médica tem aceitado que os sintomas de síndrome da fadiga crônica têm uma raiz física, mesmo que ainda não saibamos como isso acontece.

Um grande obstáculo na compreensão da doença é a falta de biomarcadores que os médicos possam usar para identificá-la em pacientes — pessoas com ME/CFS tendem a ter níveis de células imunes ou outros marcadores de saúde indistinguíveis daqueles da média das pessoas. Estima-se que até dois milhões de pessoas nos EUA podem ter síndrome da fadiga crônica, de acordo com os Centros de Controle e Prevenção de Doenças, mas mais de 90% não são diagnosticadas. Aqueles que são diagnosticados têm que passar por uma bateria exaustiva e frustrante de testes que descartam outras doenças e muitas vezes têm poucas ou nenhumas maneiras de sequer lidar com seus sintomas.

Mas os pesquisadores por trás desse estudo atual, publicado nesta semana na Proceedings of the National Academy of Sciences, dizem ter criado um exame que, pelo menos em uma pequena amostra de pessoas, consegue distinguir as pessoas com síndrome da fadiga crônica da população em geral.

O teste, um “ensaio nanoeletrônico à base de sangue”, mede como as células imunes e o plasma sanguíneo de uma pessoa interferem em uma corrente elétrica e, em seguida, usa esses resultados como um indicador da saúde geral das células (basicamente, quanto maior a mudança na corrente, menos saudáveis são as células). Neste caso, eles estavam esperando para ver como essas células respondem ao estresse, então eles as expuseram ao sal, uma vez que isso os obriga a compensar a osmose, ou a movimentação de água de dentro da célula. Depois, eles fizeram com que as células passassem pela corrente.

No estudo piloto, os pesquisadores testaram amostras de sangue de 40 pessoas. Metade tinha sido diagnosticada com síndrome da fadiga crônica, enquanto a outra metade era de voluntários saudáveis. E, em todas as amostras de pacientes com ME/CFS, eles conseguiram detectar mudanças relativamente grandes na corrente atual em comparação com aquelas de pessoas saudáveis.

“Não sabemos exatamente por que as células e o plasma estão agindo dessa forma, ou mesmo o que estão fazendo”, disse o autor sênior Ron Davis, bioquímico e geneticista da Universidade de Stanford, em um comunicado. “Mas há provas científicas de que essa doença não é uma invenção da mente do paciente. Nós vemos claramente uma diferença na maneira como as células imunes da síndrome da fadiga crônica e as saudáveis processam o estresse.”

O exame da equipe poderia teoricamente ser usado não só para diagnosticar ME/CFS em pessoas, mas também para monitorar a eficácia de potenciais tratamentos futuros e determinar se é possível restaurar a resposta de estresse das células de volta ao normal. Muitos desses tratamentos já estão sendo explorados para a síndrome da fadiga crônica, mas a equipe também foi capaz de encontrar uma droga que parece ajudar as células afetadas por ME/CFS a responder melhor ao estresse, embora ela não esteja sendo testada atualmente. Os componentes minúsculos usados para criar os testes também são relativamente baratos, tornando muito mais fácil um dia produzi-los em massa e torná-los acessíveis a médicos e pacientes.

Entretanto, ainda há um longo caminho a ser percorrido antes que o exame seja considerado um sucesso, já que restam muitas perguntas sem resposta. Pesquisadores de outros lugares têm feito esforços iniciais para encontrar biomarcadores potenciais para a ME/CFS, por exemplo, mas esses biomarcadores são improváveis de ajudar os médicos a diagnosticar todos os casos.

Isso não é totalmente surpreendente, uma vez que não há uma causa única ou um mecanismo subjacente que explique os sintomas de cada indivíduo (entre os possíveis fatores estão infecções virais, genética e problemas de tireoide). Portanto, embora o teste da equipe possa ter identificado todos aqueles com síndrome da fadiga crônica em sua amostra, isso não significa que o mesmo será verdade quando eles começarem a estudar grupos maiores de pessoas.

Ainda assim, para pessoas com ME/CFS (incluindo o próprio filho de Davis, cujo diagnóstico o inspirou a começar a estudar a doença), esses avanços incrementais têm muito valor.