Há uma consciência crescente de que os plásticos são um desastre ambiental para os ecossistemas marinhos e terrestres. Um novo relatório das Nações Unidas publicado nesta terça-feira (30) mostra que eles também são um grande problema para os seres humanos, que não afeta todos igualmente.

O mundo está produzindo mais plástico do que nunca, uma vez que as empresas de petróleo e gás se concentram na expansão da produção de plástico na tentativa de permanecer no mercado. Se a tendência se mantiver em alta, o plástico representará 20% do consumo mundial de petróleo até 2050.

De acordo com a nova análise, o mundo produziu mais de 9 bilhões de toneladas de plástico novo de 1950 a 2015. Ainda mais chocante é que mais de 50% de todo o plástico da história foi criado nos últimos 18 anos. Nesse ritmo de crescimento, o mundo deve produzir 38 toneladas de plástico até 2025, o que é suficiente para cobrir cada centímetro de litoral da Terra com uma camada de 100 sacos plásticos. Ainda assim, a produção de plástico e a poluição permanecem longe das vistas e da mente daqueles com maior poder aquisitivo, já que os piores impactos atingem populações vulneráveis.

O estudo, divulgado pelo Programa das Nações Unidas para o Meio Ambiente (PNUMA) e pela organização sem fins lucrativos de justiça ambiental Azul, mostra que os problemas com o plástico começam muito antes de ele ser jogado fora. Todos os aspectos do ciclo de vida dos plásticos — desde a extração de matérias-primas e produção até a distribuição e descarte — estão ameaçando a saúde humana. Em todas as fases, o relatório também explica que os grupos economicamente e socialmente desfavorecidos, “incluindo mulheres, crianças, migrantes e pessoas deslocadas internamente, povos indígenas e pessoas com deficiência”, são os mais afetados.

“A poluição por plástico é uma questão de justiça social”, disse Marce Gutiérrez-Graudiņš, diretora executiva da Azul e coautora do estudo, em um comunicado. “Os esforços atuais, limitados a gerenciar e diminuir a poluição do plástico, são inadequados para abordar todo o escopo dos problemas que este material cria, especialmente os impactos díspares nas comunidades afetadas pelos efeitos nocivos em todos os pontos, desde a produção até o lixo.”

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Petróleo e gás são as matérias-primas de 99% do plástico produzido. Mesmo antes do início da perfuração, isso costuma ser um problema de justiça ambiental, observa o relatório. Muitos projetos de petróleo e gás foram aprovados para operação em terras indígenas da América do Norte, Equador e Sudão, apesar da falta de consentimento. E quando a extração começa, montanhas de pesquisas mostram que as comunidades pobres, geralmente de grupos étnicos minorizados, são mais propensas a ser afetadas pela poluição do ar local, bem como pela crise climática que ela perpetua.

A mesma história continua com as fábricas de produção de plástico, que mais uma vez estão localizadas em comunidades pobres e de grupos étnicos minorizados. Em uma coletiva de imprensa, Gutiérrez-Graudiņš explicou que ela sabe disso por experiência própria, por morar perto de uma refinaria altamente poluente em Richmond, Califórnia. De todas as pessoas que moram perto das instalações, 85% são negras. Histórias semelhantes acontecem em outros lugares, incluindo a “Cancer Alley,” um trecho de comunidades ao longo do rio Mississippi entre Baton Rouge e Nova Orleans, que tem taxas desproporcionalmente altas de câncer devido (em grande parte) às fábricas de plástico localizadas lá.

Uma vez que os produtos plásticos estão em uso, há outro problema: os microplásticos. A exposição a pequenas partículas de poluição que o plástico emite pode ameaçar a saúde humana, principalmente por interferir em nossos hormônios. O relatório observa que isso afeta de maneira mais desproporcional as mulheres, devido a uma “maior exposição agregada a plásticos em casa e até mesmo em produtos de higiene feminina”.

As questões de gênero e justiça racial também não param quando o plástico é descartado. Os autores observam que os países ricos muitas vezes exportam plástico descartado para os mais pobres, como Índia, Filipinas e Tailândia. Quando chega ao exterior, muitas vezes é separado por catadores de baixa renda, que em muitos países costumam ser mulheres. Os autores explicam que esses separadores enfrentam inúmeras ameaças, incluindo exposição a toxinas dos próprios plásticos, condições insalubres e acidentes de trabalho.

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Os problemas do plástico continuam até o final de seu ciclo de vida, quando a maior parte dele é depositado em aterros ou incinerados, processos que liberam emissões tóxicas. No entanto, alguns plásticos nunca chegam a esse fim, então acabam como lixo na terra e nos oceanos. Mesmo assim, eles continuam a ameaçar comunidades, como aquelas que dependem da pesca como meio de subsistência ou do turismo. Esses impactos econômicos tendem a atingir com mais força aqueles com menos recursos.

Os problemas com o plástico são profundos, mas isso não significa que eles sejam intransponíveis. O relatório sugere estratégias para lidar com isso, incluindo a proibição de materiais plásticos de uso único, melhorando o monitoramento ambiental, regulamentando o lixo plástico e seus impactos na saúde e educando as pessoas.

Na semana passada, os legisladores dos EUA reintroduziram uma política para tratá-la conhecida como Lei de Liberação do Plástico , que poderia impulsionar esses esforços em âmbito federal. O texto exige uma pausa na permissão de novas instalações de produção de plástico e exigiria que as empresas pagassem por programas de reciclagem. Também inclui medidas de justiça ambiental, incluindo a realização de audiências públicas nos idiomas preferidos pelas comunidades envolvidas.

Uma vez que a questão do plástico é um problema global, também precisamos de uma ação globalmente coordenada para combatê-la. Na coletiva de imprensa sobre o relatório, os autores disseram que um caminho importante seria a criação de um tratado internacional com o objetivo de eliminar a poluição e a produção de plástico. Nesta quarta-feira (31), ministros do meio ambiente do Equador, Gana, Alemanha e Vietnã fizeram uma convocação ao PNUMA para divulgar a ideia. À medida que esse tipo de política internacional é elaborada, o relatório observa que as comunidades mais vulneráveis ​​aos muitos problemas do plástico devem ter espaço para participar das discussões.

Em uma coletiva de imprensa, David Azoulay, que dirige o programa de saúde do Centro de Direito Ambiental Internacional e não trabalhou no relatório, disse esperar que o novo estudo dê informações para ajudar na criação do novo tratado. Ele disse que o relatório tem uma “abordagem de direitos humanos que acredito que poderia ser útil na negociação e preparação do tratado, além de fornecer orientações muito importantes sobre a substância e o conteúdo do mesmo. Por isso, deve-se considerar as abordagens baseadas em direitos”. Azoulay também diz que esse é “um passo muito importante para o desenvolvimento de um tratado que realmente desenvolva soluções”.