Investigadores na Califórnia revelaram, na quinta-feira (26), que conseguiram encontrar e prender Joseph James DeAngelo, suspeito de ser o assassino de Golden State, procurado há 40 anos. Eles fizeram isso usando informações genéticas fornecidas a sites genealógicos, criando preocupações novas e perturbadoras sobre como os dados pessoais são tratados pelos serviços.

Steve Grippi, vice-promotor da Procuradoria Distrital do Condado de Sacramento, disse que a polícia usou amostras de DNA coletadas de cenas de crime para criar um perfil genético do suspeito. Em seguida, vasculhou as árvores genealógicas online, procurando por parentes do assassino de Golden State, segundo o jornal Sacramento Bee.

“Encontramos uma pessoa que tinha a idade certa e morava nessa área, e esse era o Sr. DeAngelo”, disse Grippi, de acordo com o New York Times.

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A promotora do condado de Sacramento Anne Marie Schubert descreveu as amostras de DNA de DeAngelo como “abandonadas”, declarando que, quando uma pessoa deixa seu DNA em um lugar, ele se torna “de domínio público” e está livre para ser usado pela lei.

“Ele estava completamente fora do radar até apenas uma semana atrás, e era uma pista que eles (investigadores) tinham, de alguma forma eles conseguiram informações e, através da checagem da família ou dos descendentes — era bem complicado o jeito como eles faziam —, conseguiram colocá-lo no radar”, disse Ray Biondi, ex-tenente do Departamento de Homicídios do Condado de Sacramento, em entrevista ao New York Times.

O novo método para encontrar o assassino se mostrou bem-sucedido e parece ter resultado na prisão de um homem que seria responsável por pelo menos 12 assassinatos e 50 estupros entre 1976 e 1986. Entretanto, o caso apresenta algumas preocupações com a privacidade em relação à informação genealógica coletada por serviços de testes genéticos.

Exames de DNA se tornaram cada vez mais populares nos últimos anos, levando a um número significativo de dados genealógicos nas mãos das empresas que operam esses serviços. O 23andMe relata processar o DNA de mais de cinco milhões de consumidores, enquanto o Ancestry.com afirma que já recebeu testes de DNA de mais de dez milhões de pessoas.

Essa informação é de interesse para as autoridades, uma vez que muitas das bases de dados privadas de dados genealógicos podem se revelar bastante abrangentes. De acordo com a Electronic Frontier Foundation, os serviços criam perfis de DNA que incluem STR do cromossomo Y e DNA mitocondrial, os marcadores genéticos que determinam as relações patrilineares e matrilineares. A maioria dos bancos de dados estaduais e federais de DNA nos EUA não armazena essas informações.

Tanto a Ancestry.com quanto a 23andMe podem e irão fornecer informações para as autoridades e ambas as empresas disponibilizam guias para as agências que desejam acessar os dados. Os usuários concordam com a possibilidade de que suas informações sejam entregues às autoridades quando eles usam os serviços — embora alguns possam se opor a isso se forem mais conscientes da possibilidade.

“Lembrete: quando você dá seus dados de DNA para empresas como Ancestry.com ou 23andMe, você abre mão não apenas da sua própria privacidade genética, mas de toda a sua família,” tweetou Tiffany Li, advogada técnica e residente do Yale Information Society Project.

O mais preocupante neste caso, em particular, é a aparente capacidade das autoridades de criar um perfil genético para alguém usando o DNA que eles coletaram de espaços públicos. Tais métodos parecem ignorar o requisito padrão de emitir uma intimação ou conseguir um mandado de busca para acessar dados dos serviços online, e isso poderia resultar no acesso da polícia a informações de alguém sem seu consentimento explícito.

Até agora, as principais companhias de testes de DNA para consumidores negaram qualquer envolvimento de colaboração com a polícia para encontrar o serial killer de Golden State. O New York Times noticiou que representantes da 23andMe negaram trabalhar com as autoridades no caso. Sarah Emerson, do Motherboard, tweetou que o Ancestry.com emitiu uma negação semelhante, assim como o MyHeritage.

A maioria desses serviços extrai perfis genéticos dos clientes coletando amostras de saliva. Parece improvável que a polícia seja capaz de apresentar uma amostra adequada o suficiente para criar um perfil para esses serviços, mas eles foram claramente capazes de criar um perfil semelhante por algum meio. A Procuradoria Distrital do Condado de Sacramento se recusou a divulgar que serviços usou para rastrear a genealogia do assassino de Golden State.

Provavelmente não faz mal algum saber que um criminoso famoso está atrás das grades, mas o caso é um bom lembrete de que é preciso ter cuidado com as informações que você compartilha e com quem você compartilha. Os sites de genealogia são, em sua maioria, autorregulados, muitas vezes imprecisos e podem compartilhar suas informações genéticas com qualquer pessoa, desde as autoridades até os anunciantes. Tenha isso em mente antes de enviar sua amostra de saliva.

[Sacramento Bee, New York Times]