O New York Times de sábado trouxe uma reportagem longa e cheia de detalhes sobre o que rola nos bastidores do conflito cada vez mais quente entre Google e Apple. Qual é a causa da animosidade, segundo quem está dentro? Ego.

Quando a Apple entrou com um processo contra a HTC este mês, estava claro que o romance entre Google e Apple tinha azedado. Mas o artigo do NY Times, que usa "entrevistas com duas dezenas de analistas da indústria, investidores do Vale do Silício e funcionários atuais e antigos das duas empresas", mostra quão pessoal essa batalha está e sempre foi. Os autores começam resumindo:

No coração da disputa está o sentimento de traição: Jobs acredita que o Google violou a aliança entre as empresas ao produzir celulares que fisicamente, tecnologicamente e espiritualmente lembram o iPhone. Em resumo, ele sente que os seus antigos amigos no Google bateram sua carteira.

O artigo começa falando de como era os bons e velhos tempos de relação entre Apple e Google, quando os dois cooperavam e os indivíduos que comandavam as companhias eram próximos. O que os aproximou inicialmente, aliás, era um adversário comum:

Apesar de Jobs e Schmidt (CEO do Google) começarem a trabalhar no Vale do Silício no fim dos anos 70, os seus caminhos raramente se cruzaram. Mas, em 2001, tanto Jobs na Apple quanto Schmidt no Google compartilhavam de uma mesma missão em particular: limitar a hegemonia da Microsoft em computação pessoal e garantir que Bill Gates não dominasse os serviços online e dispositivos móveis, a nova fronteira. Ninguém diria que Jobs e Schmidt eram exatamente amigos íntimos. Mas eles jantaram juntos em diversas ocasiões, de acordo com pessoas próximas a Schmidt, e Jobs nunca hesitou em ligar para Schmidt diretamente para falar de suas opiniões.

Mas mesmo antes da intimidade mutuamente benéfica entre Steve Jobs e Eric Schmidt, Jobs teve uma relação pessoal com os fundadores do Google. Nos primeiros dias da companhia, o artigo explica, Larry Page e Sergey Brin "consideravam Jobs como um mentor," e eles faziam coisas que mentores e pupilos fazem:

[Sergey] Brin era conhecido por fazer longas caminhadas com Jobs perto de sua casa em Palo Alto, e nas encostas das montanha de Santa Cruz. De acordo com colegas, eles discutiam o futuro da tecnologia e planejavam algumas joint ventures que nunca viraram realidade – como um esforço colaborativo para desenvolvr uma versão do Safari, da Apple, para o Windows.

O desenvolvimento do Android por parte do Google, entretanto, era, desde o início, uma fonte de tensão. A reportagem fala de uma reunião entre Jobs e o Google sobre o Android que pareceu totalmente desconfortável:

Em um encontro em 2008 no Google campus, Jobs disse raivosamente aos executivos que se eles lançassem uma versão do multitouch – a popular funcionalidade do iPhone que permite aos usuários controlarem seus aparelhos com pinçadas – ele iria entrar com um processo. Duas pessoas presentes na reunião descreveram-na como "acalorada" e "feroz."

Uma hora ou outra nós aqui de fora iríamos sentir o calor do conflito. Lá atrás, em janeiro de 2008, Jobs já cutucava o Android (dizendo que a iniciativa do Google poderia ferir os seus parceiros), e um ano depois ouvimos que a Apple forçou a barra para que o celular com Android não saísse com multitouch. Vimos as coisas ficarem publicamente desconfortáveis quando a Apple rejeitou o Google Voice na App store. E logo vimos as aquisições dos dois lados virarem inegavelmente uma competição. A Apple aparentemente disse que o Google roubou o AdMob deles e, por precaução, faturou o Lala. Em relação à aquisição da AdMob, o artigo revela que a Apple tinha uma janela de 45 dias em que poderia ter comprado a empresa por US$ 600 milhões, mas eles hesitaram e o google entrou no leilão e deu um lance mais alto. Jobs ficou definitivamente puto, dizendo que a AdMob agiu de maneira ilegal, com a ajuda do Google.

Na hora, a saga da AdMob sugeria que havia cada vez mais em jogo na disputa, e o recente processo por violação de patentes que a Apple impôs à HTC era uma confirmação adicional que o sangue fervendo poderia virar um banho de sangue.

Em janeiro ouvimos de algumas fontes que a Apple estaria em conversas com a Microsoft para colocar o Bing no lugar do Google como a ferramenta de buscas padrão nos iPhones e iPads, e o artigo do NYT termina mencionando que "um funcionário da Apple diz que Qi Lu, presidente da divisão de serviços online da Microsoft, foi visto recentemente visitando o campus da Apple em Cupertino para discutir um acordo desses."

É claro que as empresas não virão a público admitir o que todos nós já sabemos ser verdade. A Apple não quis comentar as alegações do artigo do Times, e o Google se fingiu de bobo: um porta-voz disse que "a Apple é um parceiro valioso, e nós temos um grande respeito por tudo que eles fizeram pela tecnologia em mais de 30 anos." O próprio Eric Schmidt disse "Eu continuo a crer, como muitos, que Steve Jobs é o melhor diretor executivo no mundo hoje, e admiro Steve e a Apple enormemente." Mas, como dizem, ações falam mais alto que palavras.

A guerra Apple-Google é financiada por corporações gigantes, incansáveis, mas é movida por egos machucados de alguns poucos homens. Tendo uma noção de quão pessoal o conflito sempre foi, é difícil imaginar os gigantes tentando a reconciliação em um futuro próximo. [NY Times]