O governo chinês encerrou o período de nove meses sem novas aprovações de licenças de videogame, conforme reportou o SCMP (South China Morning Post), na última sexta-feira, após estabelecer “um novo corpo para revisar problemas éticos envolvendo jogos” e o fim de uma reorganização entre agências de mídia do governo.

Todos os videogames lançados na China devem ser aprovados por censores, além de uma outra responsável pela comercialização. O fim do período representa um grande alívio para a gigante chinesa Tencent, a maior empresa de games do mundo, cujas ações caíram à medida que a situação se arrastava sem resolução — sem contar outros competidores. Mas o fim do período ocorreu em detrimento de uma reorganização do governo chinês que colocou agências de mídia sob o controle do ministério de propaganda.

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Diz o South China Morning Post:

“A primeira leva de games já foi revisada. Nós vamos agora nos apressar para emitir as licenças”, diz Feng, vice-chefe da Administração Estatal da Imprensa e Publicações (SAPP, em inglês), segundo múltiplas matérias publicadas na China. “Há um grande número de jogos para serem revisados, então vai levar um tempo. Vamos continuar a trabalhar duro. Esperamos que as pessoas tenham paciência”, disse em um vídeo, sem dar maiores detalhes.

As observações de Feng, feitas durante um fórum anual de jogos, realizado na província sulista de Hainan, remove um grande problema regulatório que colocou produtores chineses no topo e depois tirou bilhões dessas companhias de valor de mercado. As ações de empresas de jogos na China tiveram alta na última sexta-feira.

O governo autoritário chinês está muito preocupado com sua definição de estabilidade social, e jogos são uma parte da economia que tem enfrentado repressões à medida que autoridades se preocupam com a quantidade de horas que alguns cidadãos gastam jogando games (sobretudo os mais jovens). Durante o período sem novas aprovações, no entanto, as autoridades deixaram um canal aberto para aprovações de jogos, criando uma espécie de mercado informal de licenças.

Lisa Hanson, gerente da empresa de análise Nikos Partners, disse ao jornal SCMP que não houve queda de demanda.

“Ouvimos que os primeiros anúncios serão para games domésticos, com games estrangeiros na sequência”, disse Hanson ao jornal. “Alguns dias ou semanas não farão muita diferença para os jogadores, mas as desenvolvedoras terão muito trabalho a fazer.”

De acordo com o TechCrunch, os reguladores planejam derrubar jogos com pornografia, aposta, violência , ou que “reescrevem a história” da China, como foi o caso do Honor of Kings, da Tencent, que as autoridades estatais acusavam de corromper o registro histórico de vários fatos sobre o país. Eles também pediram aos desenvolvedores que mantenham “um forte senso de responsabilidade social”, informa o site, apesar de Feng também ter dito que eles planejam encorajar empresas de jogos a melhorar a qualidade de seus produtos e expandir para outros países de modo que ajudem a “promover a cultura chinesa, propagam valores chineses e mostre as preferências chinesas.”

A China é o maior mercado de videogames do mundo com receita anual de US$ 330 bilhões, segundo o SCMP, e sofreu seu crescimento mais baixo em 2018, na ordem de 5%, por causa da interrupção de aprovação de novos títulos. Por algum motivo, a Steam, plataforma norte-americana de distribuição de games, conseguiu ficar intacta ao firewall chinês. A Steam ficou tão popular na China (com cerca de 30 milhões de usuários) que recentemente anunciou esforços de lançar versões oficialmente aprovadas pelo governo, o que deve causar certa indignação, pois deve reduzir o número de opções.

Em uma outra reportagem, o SCMP escreveu que o hiato de nove meses não foi uma tentativa proposital de ferrar a indústria de games, mas o resultado da falta de uma liderança na Administração Estatal da Imprensa e Publicações após Zhuang Rongwen ter sido promovido para a Administração CIberespacial da China, que é a agência do país responsável por censurar a internet.

[South China Morning Post]