Um dos mistérios que ainda cercam a Covid-19 é por quanto tempo e qual a força da imunidade que os infectados irão adquirir ao longo do tempo. Em novas análises, pesquisadores descobriram que pessoas que já tiveram coronavírus e se vacinaram com imunizantes de RNA mensageiro (mRNA) desenvolveram uma ‘imunidade híbrida’ e possivelmente mais resistentes às variantes do SARS-CoV-2.

Em um artigo publicado em junho na revista científica Science, Shane Crotty, imunologista norte-americano do Instituto La Jolla, na Califórnia, analisou a resposta imunológica em pessoas que já contraíram a doença. Os resultados mostram que as pessoas que tiveram Covid-19 e foram vacinadas posteriormente podem apresentar respostas de anticorpos de 25 a 100 vezes maiores.

Outro estudo, que também respalda esse resultado, aponta que as células neutralizantes permanecem relativamente inalteradas entre seis e 12 meses após a infecção e que a vacinação aumenta ainda mais a imunidade.

Esse conjunto de estudos que reúnem dados sobre a resposta imunológica dos pacientes infectados anima Paul Bieniasz, virologista da Universidade Rockefeller que ajudou a conduzir vários dos estudos sobre a Covid-19. Segundo ele, com os resultados pode-se esperar que num futuro próximo, as pessoas estarão bem protegidas contra a maioria e quase todas variantes do SARS-CoV-2.

Uma outra pesquisa (ainda não revisada por pares), realizada com 14 pacientes que se infectaram com o vírus em 2020 e se vacinaram com imunizante de mRNA, os resultados apresentaram resistência a seis cepas diferentes do vírus, incluindo a variante Delta e Beta.

O que é a vacina de mRNA

O corpo naturalmente usa RNA, um tipo de ácido nucleico bem parecido com DNA, para produzir proteínas. Ele funciona como um intermediador capaz de expor as informações presentes no nosso código genético. Ou seja, o RNA ajuda no processo de transcrição das características genéticas dos indivíduos que estão sempre contidas no DNA.

No caso da Covid-19, as vacinas da Pfizer e Moderna usam o mRNA para imitar a proteína spike que está presente no coronavírus e que ajuda o vírus a invadir as células humanas. Apesar disso, essa cópia introduzida no nosso braço não é fatal como o vírus original, mas é suficiente para criar reações em nosso organismo e ativar as células de defesa do corpo.

Após a injeção com o mensageiro da proteína spike, o organismo rapidamente destrói esse mRNA da vacina, mas cria absorve o código que ele carrega. As células imunológicas responsáveis por esse processo são chamadas de antígenos. Elas espalham a informação da célula infectada pela cópia da proteína spike para outras células chamadas células T.

As células T têm funções imunológicas de respostas antivirais, ou ela produz citocinas ou elimina a célula infectada. No momento em que ela detecta parte da proteína spike, elas emitem um ‘alarme’ para outras células de defesa do corpo para que possam combater a infecção.

Memória imunológica

Após o primeiro encontro com esses agentes virais, nosso corpo cria uma ‘memória’ do RNA deles. Nesse momento, começam a ser geradas células de memória, que têm vida longa e que armazenam a informação de como destruir o antígeno. Se um dia, voltarmos a cruzar o caminho do vírus (como fazemos com a gripe quase sempre), a resposta de defesa será muito mais rápida e eficaz por conta da ativação das células.

Essas células de memória podem ser mais fracas ou mais fortes, dependendo de cada caso. Por isso, o corpo utiliza o chamado linfócito B, que ativado após reconhecer o antígeno e se converte em uma célula chamada plasmática, que é quem realmente produz os anticorpos.

Na maioria das vezes, essas células morrem assim que combatem a infecção no nosso corpo, e são chamadas de células plasmáticas de vida curta. Contudo, em alguns casos, elas podem durar para a vida toda.

Nessas ocasiões, elas ficam armazenadas na medula óssea, chamadas de células plasmáticas de vida longa. Por isso temos imunidade contra alguns tipos de vírus que tivemos contato na infância como sarampo, caxumba e outros.

Combinação que faz bem

A combinação entre a imunidade natural e a imunidade induzida pela vacina anima os cientistas, uma vez que após o contato com o vírus, o corpo produz células de defesa e células de memória, que podem ajudar a inibir o contágio por coronavírus antes mesmo do agente chegar ao organismo.

Apesar da notícia animadora, Hatziioannou disse à NPR não saber se todas as pessoas que tiveram Covid-19 e tomaram a vacina logo depois terão a mesma ‘superimunidade’. Segundo a especialista, essa análise é extremamente difícil de fazer e, por esse motivo, eles avaliaram poucos pacientes.

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E quem pegar Covid-19 somente depois da vacinação?

Para essa e outras questões, os pesquisadores ainda não têm respostas, já que o tempo de avaliação é muito curto.

O que se sabe até agora é que as vacinas têm um papel fundamental em diminuir o risco de casos graves do coronavírus, e que elas ajudam a produzir anticorpos muito mais flexíveis capazes de reconhecer as variantes do vírus.

Algo que segundo Bieniasz, poderia tornar o coronavírus parte de uma categoria de vírus que nos trará apenas uma gripe comum ou mesmo um resfriado.