“O Céu da Meia-Noite”, filme estrelado e dirigido por George Clooney, que estreou na Netflix no final de dezembro, é uma ficção científica com muita atenção à parte de “ficção” e pouca à “científica”. Há tantos erros científicos no filme, que resolvemos conversar com Gustavo Rojas, astrofísico, professor na Universidade Federal de São Carlos (UFSCar) e pesquisador visitante na Universidade de Lisboa, que escreveu uma thread apontando as falhas científicas do longa.

Como filme, “O Céu da Meia-Noite” está longe de ser uma unanimidade: foi aprovado apenas por 52% dos críticos no Rotten Tomatoes e amarga um 5,6 no IMDB. Mas, a ideia aqui não é discutir os méritos artísticos do longa, mas sim observar os erros (e eventuais acertos) das propostas científicas do filme.

Discutir a ciência por trás de uma ficção científica não é necessariamente uma forma de criticar a obra, mas sim de aproveitá-la para levar informações científicas para as pessoas. Por isso, indicamos a leitura mesmo para quem não está interessado no filme. Antes, um aviso: há spoilers no texto abaixo.

Errou: O lado escuro de uma lua que não existe (e nem poderia existir)

O principal problema do filme, explica Rojas, está na sua proposta principal. Uma lua habitável, batizada de K-23, na órbita de Júpíter, é descoberta e um grupo de astronautas vai até lá para estudá-la. No entanto, é impossível que uma lua com tais dimensões no nosso Sistema Solar fosse descoberta apenas no século 21.

“Em 1609, Galileu Galilei observou as luas de Júpiter com sua simples luneta. Essas luas, inclusive, ficaram conhecidas como luas galileanas”, conta Rojas. “Para que tenha atmosfera, a lua K-23, do filme, precisaria ser tão grande ou maior do que essas luas observadas há 400 anos com tecnologia rudimentar. Não é possível que a Nasa, em 2020, não conhecesse uma lua com tais dimensões”, explica.

“O Céu da Meia-Noite”, vale dizer, é inspirado em um livro chamado “Bom dia, Meia-Noite. Na obra textual, no entanto, não há este furo científico. Lá os astronautas vão apenas para estudar as luas galileanas já conhecidas — e não há nenhuma invenção de satélite obscuro. “Isso é algo que o roteirista quis inventar e não precisava. Se é para romper com a realidade, é melhor colocar algo no limiar do desconhecido, mas não algo tão conhecido como nosso Sistema Solar”, opina Rojas.

Nem tudo, no entanto, é inverossímil no caso de K-23. No filme, os cientistas dizem rapidamente que a lua tem fontes de energia interna e externa. Segundo Rojas, isso é possível. “É o caso da lua IO, também de Júpiter, que tem vulcões. Ela é o objeto com maior atividade geológica do nosso Sistema Solar. Isso acontece justamente por ela estar muito próxima ao planeta e a gravidade dele ficar movendo seu material interno e, consequentemente, aquecendo-a”, conta.

O céu da meia-noite

A comunicação não poderia ser tão rápida (mas a gente perdoa)

Outro furo científico é a velocidade de comunicação instantânea entre quem está na Terra e quem está na nave. Como ondas de rádio viajam a uma velocidade de 300 mil km/s, elas demorariam alguns minutos para chegar. Mas isso ficaria bem entediante em um filme de duas horas — então é perdoável.

“Tudo o que a gente conhece no universo é baseado em quatro interações fundamentais, sendo as principais a força eletromagnética e a da gravidade. Não tem como transmitir informação mais rápido do que isso, a menos que você evoque algum princípio esotérico de transmissão acima da velocidade da luz. Mas aí você vai incorrer em problemas de causalidade e isso não cabe no cenário do filme”, diz Rojas.

Cinturão de “meteoros” não é daquele jeito

Primeira coisa: embora no filme eles chamem determinada região de “cinturão de meteoros”, o certo seria chamar de “cinturão de asteroides”, visto que um meteoro só pode ser chamado assim quando ele está na atmosfera de um planeta.

Mas o principal problema não é esse. É propor, como no filme, que o cinturão não teria sido mapeado. Assim como é inverossímil imaginar que não conhecemos uma lua com atmosfera próxima a Júpiter, também é ilógico supor que exista um cinturão com asteroides grandes que não tenha sido contemplado pela Nasa até hoje.

Ainda há mais um problema: os asteroides não ficam tão próximos um do outro. “Se você calcular a densidade média do cinturão de asteroides vai ver que ela é muito baixa, porque eles estão muito afastados um do outro. São milhões de quilômetros entre um e outro. Eles são pequenos, escuros, não estão em chamas como no filme”, explica Rojas.

Mas nem tudo está perdido. O filme comete alguns pequenos acertos científicos:

A engenharia da nave é bem pensada

A nave apresentada no filme tem um estrutura giratória, que cria aceleração centrípeta para contrabalancear a microgravidade do espaço. É o mesmo sistema, em uma escala muito maior, dos chapéus mexicanos de parques de diversões. A ideia de implementar tal tecnologia em uma nave é evitar que os astronautas sofram por conta da microgravidade.

“O ambiente de microgravidade tem efeitos diversos sobre o corpo humano no longo prazo”, explica Rojas. Tais efeitos, inclusive, foram muito bem estudados no caso dos astronautas gêmeos — quando um foi para Estação Espacial Internacional e outro ficou na Terra. “Quando você pensa em uma viagem mais longa, como uma viagem a Júpiter que duraria pelo menos dois ou três anos, você poderia mitigar esses efeitos criando uma gravidade artificial”, diz.

O céu da meia-noite

Os observatórios e o céu estão bem representados

Rojas, que já foi representante brasileiro do Observatório Europeu do Sul (ESO, na siga em inglês), e trabalhou com observatórios no deserto do Atacama, diz que a parte de infraestrutura dos observatórios é bem representada no filme. Mas não há muito além disso a se dizer, uma vez que ele nunca esteve no Ártico.

Falando em Ártico, a representação celeste está correta. A presença constante da constelação de Ursa Menor e da sua principal estrela, a Polaris, está fidedigna.