As doenças zoonóticas, ou zoonoses, parecem estar se tornando cada vez mais comuns e causando estragos cada vez maiores, como estamos vendo com a Covid-19 atualmente. Felizmente, já conseguimos combater algumas delas, mas isso não significa que elas nunca mais retornarão. Uma reportagem recente da BBC explica por que um novo surto de doenças causadas por porcos pode estar prestes a explodir.

O vírus H1N1, causador da gripe suína, foi responsável pela última pandemia antes da Covid-19 que o mundo enfrentou. Com início em janeiro de 2009, na região central do México, a doença atingiu 74 países, resultando em algo em torno de 151.700 e 575.400 mortes. A pandemia chegou ao fim relativamente rápido, com a Organização Mundial de Saúde (OMS) declarando o seu fim logo um ano depois do surgimento.

Isso ocorreu graças aos esforços de vacinação, que transformou a doença em mais uma gripe sazonal, mas que ainda hoje causa mortes e hospitalizações. Cientistas do mundo todo continuam a monitorar influenzas do tipo para evitar novos surtos. Esse é o caso de uma iniciativa que vem estudando 18 mil porcos em 2.500 fazendas da Europa.

Os resultados mais recentes soam um alerta preocupante: os vírus influenza A, que são aqueles transmitidos para humanos, foram encontrados em 50% das fazendas analisadas, principalmente em áreas com uma atividade pecuária mais forte, como Dinamarca, noroeste da Alemanha e Países Baixos.

O Instituto Friedrich Loeffler, localizado na Alemanha, é o centro de pesquisa de vírus mais antigo do mundo — ele foi fundado em 1910. Os cientistas que trabalham no local identificaram quatro tipos de vírus influenza que estão circulando e que podem infectar humanos, ser transmitidos entre as pessoas, e para os quais ainda não há nenhuma vacina disponível ou imunidade inata.

Ainda assim, a equipe afirma que nenhum deles têm todos os ingredientes necessários para iniciar uma pandemia. No entanto, caso algum consiga se adaptar, existe uma chance considerável de enfrentarmos um novo surto a nível global.

Um ponto que torna a situação ainda mais preocupante é que o vírus parece estar presente em um número cada vez maior de porcos — cerca de 30% dos animais estudados testaram positivo para influenza A. E o motivo disso é simples: pecuária.

Assim como acontece com os humanos, os porcos mais jovens não conseguem combater alguns vírus porque ainda não desenvolverem os anticorpos necessários para isso. No sistema pecuário europeu, os animais costumam ser abatidos com apenas seis meses de vida. O resultado disso são mais de 257 milhões de porcos por ano que são jovens demais para se proteger contra o vírus.

Apesar de muitos países da Europa contarem com sistemas de saúde de qualidade e forte desenvolvimento em pesquisa que ajudariam a combater uma nova crise sanitária, há uma preocupação em relação ao rápido crescimento na demanda por fontes de proteína animal. Essa produção mais intensa e acelerada pode criar cada vez mais oportunidades para o surgimento de doenças. Afinal, o maior número de porcos em fazendas aumenta também a oferta de hospedeiros para o vírus.

Novamente, a gripe suína se tornou mais uma gripe sazonal e que, no caso de pessoas saudáveis, causa alguns sintomas leves que desaparecem depois de algumas semanas. O principal problema é que os vírus influenza podem pular entre as espécies, se misturando e se transformando em novas variações — algo parecido com o que estamos vendo com o SARS-CoV-2. Um fator agravante é que os porcos oferecem o ambiente ideal para que essas novas cepas surjam.

Os porcos não são os únicos responsáveis pela transmissão do H1N1, no entanto. Segundo os pesquisadores, um dos principais motivos para vermos tantas variações entre os animais estudados na Europa é que nós, humanos, infectamos eles com nossas próprias gripes sazonais todos os anos. E é exatamente por isso que os fazendeiros devem tomar a vacina anualmente.

Isso significa que, juntando humanos e porcos, os vírus encontram um cardápio com milhares de hospedeiros à sua disposição, podendo pular de um para o outro e se adaptando constantemente durante esse processo. É por isso que o desenvolvimento de vacinas se torna algo tão complexo — estamos tentando combater um inimigo que está sempre se transformando e se tornando mais resistente.

Essa mistura entre os vírus que ocorre nos porcos não se limita apenas àqueles provenientes de outras espécies, como humanos e pássaros; ela ocorre entre eles mesmos. Ou seja, o influenza encontrado em porcos da Europa não é necessariamente o mesmo que as cepas identificadas na Ásia. Para piorar, quando essas duas variações de encontram, elas podem criar uma terceira que causaria novas doenças.

A maior população de porcos não é a única explicação para a emergência de pandemias e endemias. A globalização exerce um papel fundamental na disseminação das doenças em escala mundial. Pensando no primeiro surto de H1N1 em 2009, por exemplo, acredita-se que uma nova variação do vírus foi criada em decorrência do comércio de longa distância entre México, Estados Unidos e Europa, que acabou infectando pessoas em diferentes cantos do mundo que não tinham anticorpos para combater a doença.

No caso de países com áreas extensas, como é o caso dos EUA e do Brasil, isso pode ser agravado pela constante circulação desses animais, que são criados em determinadas regiões, processados em outras e depois distribuídos por todo o país. Um exemplo claro disso também é a China, que importa porcos de diferentes partes do mundo para que eles sejam criados em território nacional.

Se você ainda acha que não ouviu más notícias o suficiente, aqui vai mais uma: o H1N1 não é o único vírus com o qual devíamos nos preocupar — o que mais tem causado a morte de porcos atualmente é uma doença chamada “peste suína africana” (PSA).

As notícias sobre esse novo vírus surgiram no ano passado, enquanto o mundo ainda tentava lidar com a pandemia de Covid-19. A PSA é altamente contagiosa e pode sobreviver por vários meses no hospedeiro infectado. A boa notícia é que ela ainda não infecta humanos. Porém, os impactos observados nas populações suínas são preocupantes. Em 2019, a doença causou a morte de um quarto da quantidade total de porcos do mundo.

Nesse mesmo ano, a China aumentou exponencialmente o número de porcos importados do Brasil e da Europa para suprir os impactos da PSA. Isso ilustra muito bem o ciclo sem fim das atividades humanas, impulsionadas por novas demandas e doenças, que nos aproximam cada vez mais da próxima pandemia.

Embora a PSA tenha reaparecido com força no ano passado, ela já existe há muito tempo. Originalmente, ela foi identificada no leste africano, sendo trazida à Europa por meio dos navios colonizadores que viajavam entre Angola e Portugal em 1957. Em 2007, ela foi transportada novamente à Georgia por meio de carne contaminada, atingindo a Rússia e, posteriormente, quase todo o leste europeu.

Promover a morte em massa de animais, no entanto, não é uma solução. Além da crueldade e do risco de desequilibrar todo um ecossistema, isso não elimina necessariamente os casos de transmissão. Em vez disso, a abordagem mais adequada é detectar a doença com antecedência e distribuir vacinas, defendem os pesquisadores.

Detectar com antecedência nem sempre é uma tarefa fácil, no entanto. Os 18 mil porcos estudados pelo Instituto Friedrich Loeffler foram apresentados de maneira voluntária pelos fazendeiros. Afinal, os criadores não são obrigados a realizar testes em seus animais, como ocorre no caso da gripe aviária, em que cada caso suspeito deve ser notificado ao governo.

Outro desafio é o fato de que o consumo de carne suína ainda tem grande força e essas doenças podem ser extremamente prejudiciais para o comércio. Diante disso, muitos fazendeiros optam por simplesmente ignorar a existência dessas ameaças e continuar com seus negócios como de costume.

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Por isso, os pesquisadores alertam para uma necessidade urgente de mais medidas de vigilância. A ideia é que os cientistas possam estudar os vírus o máximo possível para desenvolver protótipos de vacinas com antecedência. Assim, caso as doenças passem a ser transmitidas de porcos para humanos, já haveria imunizantes disponíveis para serem produzidos em larga escala.

É claro que não há nenhuma garantia de que isso seria suficiente para evitar uma nova pandemia. Porém, os pesquisadores defendem que isso poderia agilizar as respostas a surtos futuros. Distribuir vacinas a uma velocidade muito maior reduziria o número de mortes e os impactos gerais causados por uma crise sanitária como a que estamos enfrentando atualmente.

Outra solução seria mudar os sistemas pecuários. Isso é algo que ativistas do meio-ambiente já vêm reivindicando há tempos. Felizmente, algumas empresas já começaram a promover atividades mais sustentáveis e financiar organizações que lutam por essas causas. Essa mudança vem ocorrendo de forma lenta e gradual, e os resultados ainda podem demorar muitos anos para aparecer. O problema é que as pandemias não esperam por nada nem ninguém.

[BBC]