O aplicativo Parler, que ganhou destaque como o “Twitter conservador” por não ter moderação de conteúdo, está passando por uma das piores semanas de sua existência — na verdade, depois de tudo o que aconteceu, a rede pode ser extinta de vez.

O aplicativo foi literalmente expulso da internet no fim de semana, após Google, Amazon e Apple banirem a ferramenta de suas plataformas. Isso foi uma reviravolta para um dos aplicativos que, até este fim de semana, mais cresciam na internet.

Então, do que o Parler foi acusado, exatamente?

De acordo com diversos críticos, a plataforma serviu para articular a violenta confusão pró-Trump que ocorreu no Capitólio dos EUA na última quarta-feira, que terminou com cinco mortos e danos incalculáveis ​​a propriedades federais.

As capturas de tela de contas de usuários do Parler parecem mostrar ideias agressivas em preparação para o cerco ao Capitólio: usuários mencionaram levar cordas para amarrar “esquerdistas”, equipar-se com armas de fogo e atacar pessoas com picadores de gelo, entre outras ações assustadoras.

Google, Amazon e Apple usaram justificativas semelhantes para banir o Parler: uma política de moderação não foi implementada para conter a onda de conteúdo violento na plataforma.

O primeiro cancelamento veio na sexta-feira, dias após o caos do Capitólio, quando o Google anunciou que suspenderia o Parler da Google Play Store até que a empresa “se comprometesse com uma política de moderação e fiscalização” que pudesse reduzir as postagens de incitação à violência hospedadas em sua plataforma.

Quase ao mesmo tempo, o Parler viu um grande aumento no tráfego vindo de outras plataformas de distribuição digital, tornando-se temporariamente o aplicativo número um na loja da Apple, à medida que usuários conservadores migraram para o serviço. (Sua taxa de instalação global supostamente aumentou cerca de 281% na sexta-feira.)

No entanto, o momento de glória do Parler durou pouco. No sábado à noite, a Apple removeu o aplicativo da App Store. E às 23:59 PST de domingo (4:59 de segunda-feira, no horário de Brasília), a Amazon eliminou a rede social de seu serviço de hospedagem, efetivamente expulsando-a da internet com o fundamento de que ela representava “um risco muito real para a segurança pública”.

O resultado final dessa série de exclusões foi o exílio total da empresa da internet. O Parler se revoltou na segunda-feira (11), anunciando um processo contra a Amazon por supostas infrações antitruste e acusando a gigante da tecnologia de usar sua influência para “matar” seu negócio no “exato momento em que estava prestes a decolar”.

Se o Parler realmente desempenhou um papel importante no ataque ao Capitólio ou não, é algo que poderá ficar mais claro nas próximas semanas. Embora o aplicativo esteja fora do ar, um hacker afirma ter baixado quase todo o conteúdo da plataforma antes de ele ficar offline na noite de domingo. Os milhões de fotos, vídeos e postagens podem ser de interesse para as agências de aplicação da lei que estão investigando os responsáveis ​​pelo violento ataque ao Capitólio.

Os executivos do Parler estão naturalmente refutando a visão de que a empresa foi a única instigadora por trás da violência na semana passada. A chefe de políticas da empresa, Amy Peikoff, disse à Fox and Friends Weekend que ela sentiu que o Parler tinha sido “escolhido”, e que tinham sido potencialmente “sabotados”.

“Não estamos necessariamente sendo escolhidos por essas empresas de tecnologia, mas certamente pelas pessoas que as têm pressionado e, na verdade, achamos que estamos sendo sabotados de várias maneiras porque, ao olhar para alguns dos conteúdos, são contas que foram criadas há dois dias e têm poucas publicações e algumas delas são paródias de como você imaginaria uma pessoa de direita agressiva”, acrescentou Peikoff.

Esse argumento não está totalmente errado, considerando que o Twitter e o Facebook não são exatamente referências no combate a discursos de ódio e ambos certamente serviram como plataformas de coordenação antes do ataque de quarta-feira.

O (questionável) processo do Parler também aponta isso. Um dos argumentos apresentados é que um dos tuítes mais populares no Twitter na noite de sexta-feira foi “Hang Mike Pence” (“Enforque Mike Pence”, em tradução livre) — a rede interveio depois e bloqueou essa hashtag.

Por outro lado, tanto o Facebook quanto o Twitter estabeleceram políticas de moderação de conteúdo que as empresas aparentemente tentam defender.

O Parler foi lançado no final de 2018 e ficou conhecido como um “antídoto” de direita para as redes sociais supostamente dominadas por liberais, como Twitter e Facebook.

Ele sempre teve fundações conservadoras: foi cofundado e recebeu boas doses de financiamento de Rebekah Mercer. Seu pai, o gerente de fundos de investimento Bob Mercer, bancou a Cambridge-Analytica, a empresa de consultoria política que ajudou Donald Trump a ganhar as eleições com práticas obscuras de publicidade direcionada que causaram um pesadelo para o Facebook.

Quando o aplicativo foi lançado, Rebekah Mercer esperava que o Parler fosse “um farol para todos os que valorizam sua liberdade de expressão e privacidade pessoal” contra a “ tirania e arrogância cada vez maiores de nossos senhores da tecnologia”. Parece que não deu muito certo.