Em 2006, um instituto de urbanismo e um escritório de arquitetura se uniram para repensar o centro velho de São Paulo. O instituto é presidido pelo ex-prefeito de Bogotá, na Colômbia, que transformou a cidade e a fez renascer. O escritório de arquitetura tem casos de sucesso em Londres, Melbourne (Austrália) e Nova York. Uma equipe genial se formou, analisou o Vale do Anhangabaú, na capital paulista, e fez um belo projeto de revitalização. São Paulo não quis. Por quê?

O Instituto para Políticas de Transporte e Desenvolvimento (ITDP) e o escritório Jan Gehl Architects se uniram para estudar, analisar e propor soluções para o centro velho de São Paulo. Eles passaram semanas no Anhangabaú analisando quantas pessoas passam pela região, quantas permanecem lá (sentadas, brincando, fazendo atividade física etc.), vias de acesso para pedestre e carro, além dos elementos urbanos, iluminação e fachadas do lugar. A análise é longa mas bastante intuitiva, e pode ser encontrada aqui em PDF.

O que eles descobriram? Que o lugar não sabe o que quer ser. O Vale do Anhangabaú não é parque nem praça. Não pode ser um destino cultural constante porque ele é pequeno demais pra grandes eventos. Não é um lugar convidativo, com seus bancos quebrados e mau estado de conservação. E, de noite, o lugar é feio e inseguro, com as fachadas inativas e a iluminação pouco interessante. Só que o lugar é simbólico e estrategicamente localizado, e com certeza há demanda para novos espaços em São Paulo.

Então veio a proposta para o centro: criar uma Quadra das Artes na área que hoje liga o Centro Velho ao Centro Novo de São Paulo. A área ao redor seria um ponto cultural da cidade, onde várias empresas e arquitetos diferentes dariam uma cara multifacetada à Quadra, e onde o acesso a pé seria incentivado, para criar um ambiente atrativo; a área interna teria um espaço verde e tranquilo, longe da agitação. O Café das Artes, acima, é uma ideia de um dos muitos edifícios que poderiam surgir na nova área.

Mas, segundo o jornalista Denis Russo Burgierman, São Paulo não quis o projeto do ITDP e do escritório Jan Gehl. É decepcionante ver um projeto tão bom, criado por uma equipe que já demonstrou seu sucesso em cidades globais, ser engavetado sem uma explicação clara. Como o projeto foi engavetado sem mais nem menos, só resta especular: para Burgierman, isso é resultado da influência sobre os políticos das imobiliárias e construtoras, que em vez de revitalizar espaços já existentes, preferem "novas avenidas, túneis, pontes ou projetos de ‘revitalização’ que envolvem demolir um bairro todo e construir outro no lugar".

Outro problema poderia ser de orçamento – não sabemos quanto custaria esta renovação do centro – ou mesmo de interesse real e coordenado em devolver a vida ao centro velho. Qualquer que seja o problema, sem essa revitalização, muitos só terão motivo para ir ao Anhangabaú só na Virada Cultural – ou seja, uma vez por ano. Pena. [ITDP via Veja]