“Hoje, nosso mundo parece dividido”. Isso foi o que disse Rony Abovitz, CEO da infame startup de realidade mista Magic Leap, em pé meio sem jeito em cima de um palco circular, cercado por centenas de participantes da primeira conferência de desenvolvedores da empresa e seu primeiro grande evento voltado para o público, de olho em um teleprompter e com os braços atrás das costas. “Parece quebrado”, ele disse. “Nossa nova mídia de computação espacial parece fresca. Não carrega a bagagem e as manchetes negativas que estão dominando as notícias hoje em dia.”

Isso, é claro, é discutível. Poucas empresas podem atrair imensos níveis de investimento, gerar anos de coberturas épicas da imprensa, lentamente frustrar sua própria base de fãs, ser atingida por processos judiciais relacionados ao local de trabalho e praticamente se tornar um termo derrogatório sem sequer lançar um único produto — tudo enquanto mantém uma avaliação de US$ 6 bilhões. E a Magic Leap de alguma forma conseguiu tudo isso.

A empresa sediada na Flórida já foi a mais descolada e enigmática entidade da tecnologia — em meados de 2010, lembro de ouvir histórias de amigos de amigos que alguém que eles conheciam estava investindo nesse negócio de realidade aumentada, e como era incrível —, surfando a onda de meio bilhão de dinheiro do Google, reações maravilhadas a vídeos conceituais e uma impressionada matéria de capa da Wired. No centro disso tudo estava Abovitz, que criava a expectativa sobre o Leap, digamos, comparando a empresa à NASA durante a missão à Lua. “O programa espacial teve as missões Mercury, Gemini e Apollo, e estamos em nossa fase da Apollo”, ele disse à Fast Company em 2014. Abovitz descreveu o Magic Leap como produtor de “realidade cinematográfica”, que iria causar “uma mudança completa na computação visual”.

Depois de anos de intenso sigilo e relativo silêncio, em agosto, a Magic Leap finalmente lançou para desenvolvedores seu produto principal, um conjunto de realidade mista equipado com óculos, uma varinha de controle e um computador portátil, que poderia ser comprado por US$ 2.295. Recentemente, a empresa realizou sua conferência inaugural de desenvolvedores, para tentar atrair criadores de conteúdo de terceiros e apresentar o equipamento a um público mais amplo. De muitas maneiras, esse é o estágio final da estreia pública do produto. Em 2015, Abovitz disse à Wired: “Quando lançarmos, será enorme”. Depois de passar dois dias na LEAPcon, sinto que é meu dever — em nome de instaurar um pouquinho de sanidade em uma época em que uma empresa que nunca vendeu um produto a um consumidor pode valer um bilhão de dólares a mais do que o PIB de Fiji — informar que não é.

O Magic Leap claramente quer que seu lançamento público pareça enorme — quem não gostaria? Decididamente ao estilo da Magic Leap, a companhia ocupou um lado inteiro do LA Mart, o prédio de 12 andares no centro de Los Angeles onde a conferência seria realizada, com uma imagem psicodélica de um astronauta e o slogan “Free Your Mind” (Liberte Sua Mente). De forma igualmente Leapiana, as demonstrações e a conferência reais ocorreram no porão, onde virar para o lado errado no corredor o levava à área de carga e descarga e o sinal de celular era inexistente.

No início da manhã do primeiro dia da conferência, fui escoltado através de lojas de decoração e tapetes nas entranhas do prédio, onde uma série de demonstrações me esperava em uma grande sala industrial-chique modernista. Passei por um grande mapa da Nova Zelândia à esquerda, parte de uma experiência de realidade aumentada patrocinada pela Air New Zealand, uma espécie de simulador de CAD imersivo à minha direita, e, na estação de ajuste, onde a equipe da Magic Leap determinou os parâmetros do headset (ele vem em dois tamanhos diferentes e tem algumas partes ajustáveis) e foram marcados os resultados no cartão que carregaria para mostrar nas diferentes estações de demonstração. Eu era um 1-2-2-X. Em uma estação de demonstração, um funcionário brincou que, um dia, isso seria como a nossa carteira de motorista, uma identificação que teríamos de levar para todos os lugares. Eu ri.

Demonstrações

A primeira foi uma demonstração para o aplicativo de decoração e comércio espacial da Wayfair, onde era possível arrastar um pôster ou uma mesa do menu para a sala real em que você estava, ou teoricamente poderia, pois parecia funcionar apenas metade das vezes. Também era o mesmo tipo de demonstração de realidade aumentada que já foi feita muitas vezes no passado, com o Google Tango e o HoloLens. Em seguida, veio uma caminhada até uma enorme sala que abrigava uma estátua de robô construída pela empresa de “experiências imersivas” Meow Wolf. Subi em sua cabine para encontrar uma espécie de simulador de navegação, que envolvia basicamente arrastar pequenas bolas planetárias em círculos concêntricos em seu painel.

Mais sofisticado foi o aplicativo Create, da própria empresa Leap, que permite que você solte pequenas figuras de baixa resolução e blocos de construção em torno de uma sala, onde eles respondem a objetos do mundo real. Recifes de desenho animado podiam brotar das paredes, você podia fazer cavaleiros lutarem em cima de uma mesa, e era possível soltar OVNIs para voarem ao redor da sala; era fofo e divertido, e as crianças talvez gostariam de passar um tempo com ele. Eu joguei uma versão de realidade aumentada do Angry Birds, da Rovio — também fofo e divertido.

Havia um simulador de cuidar de Porgs, do ILMxLab, da Lucasfilms, que não era apenas fofo e divertido, mas também um exemplo bastante sofisticado das potencialidades do Magic Leap: se você ligasse um dispositivo inteligente na sala, as pequenas criaturas interagiam com ele, com seu pelo sendo atingido por um ventilador, dançando a música tocada por um alto-falante, dormindo na frente da TV. O jogo chave da Magic Leap, lançado na conferência, Dr. Grordbort’s Invaders, era, sim, fofo e divertido e mostrava que os óculos poderiam, sim, oferecer uma experiência de jogo de maior orçamento.

Tinha um jogo de controle de pragas que envolvia bater em aranhas com um taco. Tinha um ator declamando um monólogo de Shakespeare sob uma árvore. Tinha um jogo de perguntas em cima de um grande mapa da Nova Zelândia, narrado por um porco-espinho 3D (eu acho). Havia muita fofura e diversão em realidade aumentada, e não muito mais.

Alucinação coletiva?

Você sabe aquela sensação esquisita quando parece que todos ao seu redor estão participando de alguma alucinação moderada, e você errou na dosagem? O velho fenômeno “o que estou possivelmente deixando passar aqui”? Foi assim que eu me senti na LeapCon na maior parte do tempo, em meio a multidões usando frases de efeito em alta velocidade. E, depois, mais uma vez enquanto eu lia as resenhas dos dispositivos — de alguma forma, apesar dos anos de falha em entregar qualquer coisa de substância, uma boa parte da imprensa ainda está seguindo de perto o Leap.

(Histórias de realidade aumentada e virtual são uma droga para jornalistas de tecnologia; elas criam uma cena fácil com frases prontas: estou olhando para uma enorme baleia azul, e eu juro que ela poderia me engolir inteiro — mas está tudo em meus óculos etc).

Demonstração após demonstração, eu senti que, claro, esse negócio era legal. Os jogos eram charmosos, embora muitas vezes com defeitos e simplistas demais; e, sim, pode ser útil para os arquitetos a possibilidade de expandirem seus projetos e andar dentro deles. Eu gostei dos desenvolvedores, que eram inteligentes e engraçados. Alguns dos gráficos e interações eram muito bem renderizados. Mas não havia nada além de uma única demonstração — que eu vou falar sobre daqui a pouco — que me deixou compelido a repetir a experiência. Pareceu-me genuinamente louco que as pessoas pudessem ficar tão empolgadas com isso tudo, especialmente depois de anos de realidade virtual bem razoável e do Hololens, sem ter um incentivo monetário para ficar assim tão entusiasmadas.

Magic Leap One, kit de desenvolvimento da empresa lançado em agosto.

Como muitos repararam, o hardware ainda é extremamente limitante. A tecnologia que sustenta essas experiências parece genuinamente avançada, e, se não fosse por uma campanha de marketing agressiva de vários anos insistindo em uma realidade iminente em que os pixels se misturam perfeitamente com a física no mundo real, poderia ter sido verdadeiramente impressionante (se é ou não avançado o suficiente para eventualmente dar fundamento às promessas anteriores da Leap, essa é uma questão totalmente aberta neste momento). Por enquanto, o campo de visão é relativamente pequeno e desajeitado, então as imagens constantemente desaparecem de vista. Se você chegar muito perto delas, os objetos ficarão cortados ou se moverão de maneira estranha. E, se você conseguir uma boa vista, alguns objetos têm um aspecto de baixa resolução e transparente; alguns pareciam hologramas baratos de um filme antigo de ficção científica. O texto estava embaçado e muitas vezes dobrava em camadas que dificultavam a leitura, e as telas brancas pareciam ásperas — eu carreguei o Google no navegador Helio e imediatamente tive que fechar os olhos.

Próximo iPhone

De acordo com a Magic Leap, mais de mil pessoas se inscreveram para estar aqui. Por quê? Eu queria perguntar a todos de uma só vez. Você acha que isso é o futuro? Acha mesmo? Responder a essa pergunta, pensei, poderia ajudar a esclarecer se o Magic Leap se tornará a promessa vazia mais cara da nossa época — a empresa mais célebre a ocupar a nossa imaginação tecnológica talvez desde aquele gigante de outrora, como a General Magic que se originou dentro da Apple. Vimos algumas das mentes tecnológicas mais brilhantes dos anos 1990 buscarem uma tecnologia de comunicação pessoal revolucionária sem jamais entregar muito em termos de conteúdo, muito menos lucro. Ao longo de cerca de duas dúzias de entrevistas, encontrei uma mistura de desenvolvedores curiosos e céticos, pessoas que claramente acreditavam naquilo, investidores futuristas e óbvios oportunistas.

Você sabe aquela sensação esquisita quando parece que todos ao seu redor estão participando de alguma alucinação moderada, e você errou na dosagem?

“Vamos pensar nisso como o primeiro iPhone”, Shrenik Sadalgi, diretor de Next Gen Experiences, da Wayfair, me contou. “Oito anos a partir de agora, se todo mundo tiver esse dispositivo, o quão poderoso é isso?” É uma frase que ouvi de novo e de novo dos desenvolvedores mais otimistas — a alusão, claro, é que esse é o futuro ainda se desenvolvendo, que o primeiro iPhone era relativamente tosco também e que poucos teriam previsto que ele definiria a classe de produto que dominaria não apenas toda a indústria de tecnologia, mas também o cotidiano da maioria das pessoas. Ninguém quer deixar de estar na fundação do próximo iPhone.

E, sim, havia os crentes: eu conheci um desenvolvedor que voou de Singapura para pegar seus óculos e participar do evento e outro que disse que economizou bastante antes de conseguir comprar o dispositivo, o que o deixou falido. “Eu dei o Leap [salto], eu acho”, riu Brian Wong, um homem de 30 anos que diz que está autofinanciando um projeto de interface cérebro-máquina. “Ainda estou pagando tudo. Eu tive que realmente juntar cada centavo que eu consegui para chegar a US$ 2.400, sabe. Mas, sinceramente, não me arrependo.”

O problema com a analogia do primeiro iPhone é que, embora ele fosse imperfeito, havia um paradigma de interface do usuário e vários elementos que atraíam imediatamente, que “simplesmente funcionavam”, como um certo guru de gola rolê diria. Ficou claro de imediato por que um aplicativo do Google Maps com base em toque ou um navegador móvel rico em gráficos era algo que você gostaria de ter no bolso o tempo todo, ou que percorrer um catálogo de endereços com o toque de um dedo fazia sentido — o apelo do Magic Leap, além do entretenimento, é quase inteiramente abstrato. “Fofo e divertido” só chega até certo lugar, você precisa de mais do que isso.

“Isso é mais parecido com o Apple Newton do que com o iPhone da Apple”, me disse um investidor. É algo que eu pensei muito quando andava de demonstração para demonstração, ouvia palestras e participava de reuniões de desenvolvedores. O Magic Leap gastou mais de meia década e bilhões de dólares e ainda não apresentou algo particularmente atraente para tornar seu sistema de computação supostamente revolucionário, além de atirar em robôs na cara.

“Nós ainda estamos na fase de fazer coisas malucas”, Rony Abovitz me disse no evento de temática steampunk de lançamento do jogo de tiro a robôs Dr. Grordbort. Soldados fantasiados de robôs separaram a multidão com adereços de armas de raios, se recusando a sair do personagem. Quando perguntei para Abovitz o que mais o empolgava sobre sua plataforma, essa foi sua primeira resposta: “Eu amo isso, porque eu amo ficção científica”. Quando perguntei em que casos de uso do Magic Leap ele estava mais interessado, ele respondeu rapidamente: “Você viu Andy Serkis no andar de cima? É uma coisa totalmente diferente”, afirmou, balançando a cabeça. O estúdio de captura de movimento de Serkis, Imaginarium, fez uma parceria com a Magic Leap, embora eu não tenha visto a demo na LEAPcon.

Rony Abovitz, CEO da Magic Leap. Captura de tela: Magic Leap

Essa questão da utilidade continuou a me atormentar durante a palestra no dia seguinte, quando Abovitz e companhia descreveram a cobertura de cidades em algo chamado Magicverse, que utilizaria redes 5G para cobrir a cidade com… o que exatamente? Jogos de atirar em robôs? Então, em uma entrevista com o diretor de conteúdo da Magic Leap, Rio Caraeff, perguntei para ele: se a Magic Leap pudesse projetar perfeitamente um aplicativo ou experiência para transmitir exatamente do que o dispositivo é capaz, idealmente, o que ele faria? “Eu quero o universo de Star Wars na minha vida. Eu quero, você sabe, droides rolando pelo meu escritório e virando meus assistentes pessoais e me ajudando a fazer as coisas”, explicou. “Eu quero olhar para o céu e ver Tie Fighters e X-wings (naves da franquia Star Wars) lutando. Eu quero ser capaz de ter um androide companheiro e quero inteligência por trás disso. Eu quero essa persistência na minha vida.”

Isso parece um tema unificador; talvez sem surpresa, o Magic Leap é quase inteiramente construído sobre as visões de homens adultos que querem mergulhar em mundos de fantasia. Seu foco principal é entretenimento, jogos, diversões — realidade cinematográfica, claro; ampliar as fronteiras da computação? Não tanto (é revelador que o vislumbre mais convincente de um possível futuro com o Magic Leap tenha sido transmitido a mim pela gerente de produtos não-branca e não-homem, Sakina Groth, que falou convincentemente sobre um mundo livre da tirania das abas de navegador, onde você poderia ‘deixar’ páginas da internet em espaços físicos onde você precisasse delas; receitas na cozinha, artigos de pesquisa no escritório e assim por diante). Alguém na equipe do produto deve ter percebido que as pessoas podem querer algo para fazer no Magicverse além de recriar o filme Jogador Nº 1, que pode ser o motivo de, após anos de sigilo e silêncio parecido com o da Apple, a Magic Leap estar repentinamente ansiosa em receber a comunidade de desenvolvedores.

Talvez sem surpresa, o Magic Leap é quase inteiramente construído sobre as visões de homens adultos que querem mergulhar em mundos de fantasia.

“No começo, eu estava muito trepidante, porque havia muitas promessas e havia, bem, muita intriga”, disse Alexandria Heston, designer XR de Chicago. “E, quando eles acabaram lançando o hardware, eu não vou mentir, foi uma decepção. Mas, desde então, a quantidade de suporte da empresa tem sido ótima — nunca tive uma empresa me abordando e me perguntando como me ajudar a fazer o que faço.” A Magic Leap, parece, está desesperada em colocar desenvolvedores a bordo.

Talvez eles saibam que, para ser atraente para os consumidores e valer a pena gastar mais de US$ 2 mil em basicamente um headset volumoso, vão precisar de ajuda. Na apresentação, John Donovan, CEO da AT&T Communications (outro paralelo com o iPhone é que a AT&T foi uma de suas primeiras parceiras), apontou que o iPhone realmente decolou depois que abriu a App Store para desenvolvedores, o que é verdade. Facebook, Instagram e Twitter ajudaram a alimentar a sua ascensão.

Então, a Magic Leap pode terceirizar sua busca por um caso de uso crucial para os desenvolvedores. “Perguntam-me muito: qual é o aplicativo chave do Magic Leap?”, disse Caraeff, que admite que não tem uma resposta. “E eu acho que o que eu aprendi é que realmente não há um aplicativo chave. Há diferentes aplicativos chave para diferentes pessoas em diferentes setores.”

O único candidato a melhor aplicativo que eu vi foi uma demonstração de MICA, que a Leap está colocando como assistente pessoal. Na demonstração, ela estava sentada em uma mesa, onde acenou para eu me juntar a ela. Nisso, ela começou a olhar para mim com a intensidade de Marina Abramovic (ela foi, na verdade, projetada para imitar a famosa performance “The Artist Is Present”, da artista), me desafiando a olhar de volta. Ser provocado por um avatar digital realista em um espaço humano real era uma sensação genuinamente nova, e a interação parecia emocionalmente carregada e crua, um passeio por meio do vale da estranheza. Ao longo da conferência, ouvi pessoas que haviam experimentado a demonstração lamentando que o Magic Leap planejava usar MICA como sua Alexa, quando poderia ser capaz de muito mais. Já que estamos falando sobre isso, Abovitz não mencionou ela quando estava listando as coisas com as quais ele estava animado.

O Magic Leap Creator’s Edition está disponível para compra no site da empresa há dois meses. Caraeff diz que 50 mil contas de usuários foram criadas lá. Ele não me contou o número de vezes que o kit de desenvolvedor de software foi realmente baixado, embora tenha dito que era menos que isso, ou o número de headsets de Magic Leap enviados, que era ainda menor. Ele não quis dizer se um dispositivo destinado aos consumidores seria lançado no ano que vem, embora ele não ter tocado no assunto tenha me levado a acreditar que não.

Nesse ponto, isso pode não importar. O Magic Leap foi escolhido pelos investidores, pela imprensa de tecnologia, pelo Google, por uma das maiores empresas de telecomunicações, pelos desenvolvedores de realidade aumentada procurando por uma base onde entrar, pelo grande capital que está em uma busca desesperada por um novo ecossistema tecnológico para entrar, uma nova plataforma para colonizar. Se o Magic Leap for bem-sucedido no final, vai ser porque já é grande demais para falhar.

Pense nisso: o Magic Leap arrecadou U$ 2,3 bilhões em investimentos — recentemente do fundo soberano estatal da Arábia Saudita, uma nação que apareceu nas notícias depois que seu governo supostamente ordenou que um esquadrão matasse e desmembrasse um jornalista crítico do regime dentro de uma embaixada —, tudo antes de lançar um produto beta. De acordo com a Bloomberg, eles estão atualmente em conversas para construir um sistema para os militares dos EUA que aumentaria a letalidade dos soldados (Caraeff se recusou a comentar qualquer detalhe, mas confirmou que discussões com várias agências do governo estavam acontecendo).

Se o Magic Leap for bem-sucedido no final, será porque já é grande demais para falhar.

É por isso que qualquer vontade ansiosa em apoiar os esforços fofos e divertidos dessa empresa me deixa perplexo. Eu acho que devemos, no mínimo, manter o Magic Leap de acordo com os padrões e descrições de produtos apresentados por seu próprio fundador e criadores — e, por esses padrões, neste momento, o Magic Leap é ruim. Deveríamos nos sentir confortáveis ​​dizendo isso, especialmente porque essa fofura e diversão está ocultando uma série de parcerias e investimentos eticamente duvidosos. Por que, podemos perguntar, essa empresa merece a boa vontade não-crítica de alguém? Por que parece que a intenção de todos é classificar ela da maneira mais generosa do mundo?

Não me entenda mal; em muitos outros contextos, essas demonstrações seriam experimentos legais e espirituosos em um meio emergente. Eu não quero cuspir no trabalho árduo dos desenvolvedores, programadores e mentes criativas que trabalharam para construir algumas interações e conceitos convincentes. Mas essa é uma empresa que não demonstrou para onde planeja direcionar seu futuro voltado para produtos, que rotineiramente induz ao erro jornalistas sobre esses produtos e cria promessas que não se concretizam. Então, antes que os desenvolvedores adotem essa plataforma, antes de pensarmos em considerar isso como o próximo iPhone ou qualquer outra coisa e avaliar se pode cumprir suas promessas mais básicas, parece ser uma medida decente julgar sua confiabilidade em outras áreas, caso elas se concretizem. Essa é uma empresa que quer cobrir cidades inteiras com um “Magicverse” que ditará a própria natureza da realidade percebida — por que alguém a trataria com tanta delicadeza?

“Hoje, nosso mundo se sente dividido”, disse Abovitz no discurso de abertura, antes de ressaltar novamente a falta de bagagem anterior do Magic Leap, uma plataforma imaculada. “Como um coletivo criativo, todos vocês que estão aqui hoje, podemos nos recusar a perpetuar a bagagem que pesa sobre os meios tradicionais que vieram antes.”

O Facebook nos deixou na mão, o Twitter tem nazistas demais. Hollywood tem muitos Harveys Weinsteins, o rádio tem Limbaughs demais. Nós somos uma folha em branco — suba a bordo. Está muito longe de ser o novo paradigma de computação que mudaria o mundo, no seu auge de antecipação em 2014.

Também é incrivelmente ingênuo, como se essa nova plataforma fosse de alguma forma imune às mesmas divisões e conflitos que mancharam todas as mídias que vieram antes. É ainda mais surpreendente quando você considera que esta é uma empresa sobre a qual uma nação violadora dos direitos humanos agora possui uma participação importante, uma empresa que está declaradamente aberta a construir formas de melhorar a letalidade para os militares, uma empresa que teve de lidar no ano passado um processo por discriminação sexual — coisas que podem de fato ser consideradas “bagagem”. O coletivo criativo pode de fato se recusar a perpetuar a bagagem de plataformas passadas — pode se recusar a desenvolver para uma empresa que está recebendo dinheiro e contratos militares antes mesmo de entregar um produto de consumo, por exemplo.

Dada a toxicidade daquelas mídias passadas, talvez valha a pena considerar outra abordagem: vamos examinar quem está pedindo “realidade espacial”, de verdade, além dos motores do capital e um punhado de aficionados da ficção científica e homens com sonhos de existir dentro do universo de Star Wars. Se o colapso e o caos da cultura da internet nos ensinaram alguma coisa, é que as novas plataformas são excepcionalmente propensas a abuso e uso indevido, e é muito importante entender e confiar em quem está no controle do volante.

A tecnologia, de modo geral, é maneira, mas ainda está em busca de um uso — ninguém, em última instância, poderia dizer por que o Magic Leap precisa existir fora do entretenimento. O produto é defeituoso e tem muita antecipação, embora seja ocasionalmente interessante. A bússola moral da empresa é ilegível na melhor das hipóteses e já muito comprometida na pior das hipóteses. É hora de parar de dar ao Magic Leap o benefício da dúvida, pelo menos até ele demonstrar que vale a pena compartilhar a nossa realidade com ele.