As vacinas são um dos avanços mais importantes na história da medicina. Eles ajudaram a humanidade a, mais ou menos, eliminar a varíola e expulsaram o sarampo das Américas, com exceção do pessoal que decidiu acreditar em um estudo retraído, manipulado e amplamente criticado, com 12 crianças. As vacinas são boas.

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A gonorreia, por outro lado, é ruim. Os casos de doenças sexualmente transmissíveis estão aumentando nos Estados Unidos, e especialistas em todo o mundo estão agora avisando sobre os perigos da gonorreia resistente a antibióticos.

Porém, uma equipe de pesquisadores da Nova Zelândia tem notícias esperançosas. Acontece que a vacina contra a meningite parece ter levado a uma diminuição nos casos de gonorreia. Essa seria a primeira vez que alguma vacina ofereceu proteção contra a gonorreia, de acordo com o estudo publicado na segunda-feira (10) na The Lancet.

“Depois de décadas de pesquisa, apenas quatro candidatos a vacinas gonocócicos avançaram para o estágio de ensaios clínicos, e nenhuma dessas vacinas ofereceu proteção contra a gonorreia”, escreveu Kate Seib, do Institute for Glycomics, na Universidade Griffith, na Austrália, e que não esteve envolvida no estudo, em um comentário para a The Lancet. “[…] Entretanto, descobertas recentes, incluindo novas pesquisas feitas por Helen Petousis-Harris e colegas da The Lancet, são um passo na direção certa e, esperamos, vão revigorar os interesses e o investimento no campo.”

Existem 78 milhões de novos casos de gonorreia por ano, devido à infecção bacteriana da Neisseria gonorrhoeae, transmitida sexualmente, relata o estudo. A gonorreia pode levar a efeitos terríveis, como ardência na micção, inflamação pélvica, infertilidade e dor crônica, e pode se espalhar pelo corpo. Depois de cem anos, ainda não existiu nenhuma vacina. Porém, no novo estudo, os pesquisadores descobriram alguns dados sugerindo taxas mais baixas de gonorreia em países onde muitas pessoas receberam a vacina de “vesícula da membrana externa meningocócica do grupo B”, uma vacina contra meningite. Portanto, eles pensaram, vale a pena olhar mais de perto.

Os pesquisadores coletaram dados de 11 clínicas de saúde sexual na Nova Zelândia, representando quase 15 mil pessoas e cerca de mil casos de gonorreia. As pessoas que receberam a vacina contra a meningite eram menos propensas a desenvolver um caso de gonorreia — as contas dos pesquisadores mostraram que a vacina contra a meningite poderia ter prevenido 31% dos casos de gonorreia. Isso meio que faz sentido, já que as bactérias são bastante similares geneticamente, de acordo com um comunicado enviado pelos autores do estudo para a CNN.

O estudo aumentou a esperança, mas é importante não exagerar as descobertas. Ninguém fez um teste clínico controlado — a equipe apenas analisou dados retrospectivos. Os pesquisadores apontam em seu estudo que pode não ser possível generalizar suas descobertas para todos na Nova Zelândia, já que algumas pessoas com gonorreia não vão às clínicas de saúde sexual. A amostra pode não ser representativa dos neozelandeses. E, novamente, ninguém de fato deu uma vacina contra a meningite a alguém para ver se isso funcionava contra a gonorreia em um teste clínico.

Mas o que ainda temos aqui é uma associação demonstrando que uma vacina de gonorreia pode ser possível, escreveu Seib. E esse é um bom começo.

Por algum motivo, tenho a intuição de que uma vacina contra a gonorreia é algo no qual mesmo o pessoal do movimento antivacina teria interesse. Não me pergunte o por quê.

[The Lancet]

Imagem do topo: Norman Jacobs/CDC/Public Domain