Uma reportagem do Guardian revelou nesta terça-feira (21) que uma análise forense concluiu “com alta probabilidade” que o príncipe herdeiro saudita Mohammed bin Salman pode ter infectado o celular do bilionário Jeff Bezos, CEO da Amazon e dono do jornal Washington Post, em maio de 2018.

A revelação é causa uma reviravolta no mistério de como fotos íntimas de Bezos trocadas com a sua então amante Lauren Sanchez acabaram nas mãos do tabloide National Enquirer.

De acordo com a reportagem do Guardian, fontes disseram que a análise forense digital concluíram que enquanto Bezos conversava com o príncipe saudita pelo WhatsApp, bin Salman enviou um vídeo não solicitado que continha um malware. O Financial Times deu mais detalhes em uma outra reportagem, afirmando que o especialista em cibersegurança da FTI Consulting Anthony J. Ferrante liderou a análise que concluiu que o celular de Bezos transmitiu dezenas de gigabytes de dados depois que o príncipe herdeiro enviou o arquivo.

Esta foi uma “extração massiva e não autorizada de dados do celular de Bezos, que começou, continuou e aumentou durante meses”, concluiu a análise, segundo o Financial Times. O jornal escreveu que teve acesso a análise, mas o documento não afirmava apresentar provas incontestáveis do que tinha acontecido, nem podia ser verificado independentemente.

Nem o Guardian nem o Financial Times revelaram qual é o malware em questão, mas o FT citou o relatório ao afirmar que “o comprometimento [do aparelho] foi provavelmente facilitado por ferramentas maliciosas adquiridas por [Saud] al-Qahtani”, um notório conselheiro de bin Salman.

Reportagens anteriores mostraram que o governo saudita provavelmente adquiriu malware da duvidosa empresa israelense de ciberespionagem NSO Group, desenvolvedora de um poderoso kit de sequestro de telefones chamado Pegasus, que supostamente se espalhou por meio de vulnerabilidades no WhatsApp.

Em outubro de 2019, o WhatsApp corrigiu uma vulnerabilidade de duas vias que dependia especificamente de arquivos GIF para instalar um malware. Nessa mesma época, o Facebook, dono do WhatsApp, entrou com uma ação contra a companhia israelense por criar softwares de espionagem.

A NSO Group, inclusive, é a mesma empresa que ofereceu ajuda em Brumadinho para fazer a varredura nas torres para encontrar sinal de celulares e tentar localizar vítimas.

O Guardian escreveu que fontes relataram que o relatório que implica o príncipe herdeiro era crível o suficiente para justificar uma revisão por Agnès Callamard, relatora especial da ONU que investiga mortes extrajudiciais. Callamard investigou o caso do colunista do Washington Post e dissidente que estava em exílio Jamal Khashoggi, que foi torturado e assassinado pelo governo saudita no consulado do país na Turquia no início de outubro de 2019

Uma análise independente do Laboratório Cidadão Canadense descobriu que outro dissidente em contato com Khashoggi antes da sua morte foi alvo de vigilância por meio do software Pegasus do NSO Group.

Uma outra reportagem do Washington Post afirmou que a ONU irá divulgar um relatório sobre as suas conclusões nesta quarta-feira.

Todo “trabalho com clientes é confidencial”, disse a FTI Consulting ao Financial Times. “Nós não comentamos, confirmamos ou negamos relacionamentos com clientes ou potenciais relacionamentos.”

Não está claro como os supostos dados roubados teriam ido parar nas mãos da National Enquirer e da sua empresa-mãe American Media, Inc. (AMI). O Enquirer publicou fotos íntimas entre Bezos e Lauren Sanchez em janeiro de 2019, pouco depois de ele e sua então esposa MacKenzie Bezos terem anunciado seu divórcio.

Bezos alegou que a AMI posteriormente ameaçou divulgar outro material, incluindo fotos de seu pênis, como parte de uma tentativa de chantagem exigindo que ele parasse de investigar as fontes do Enquirer.

Em vez de se curvar às exigências da AMI, Bezos foi a público com a notícia da suposta extorsão em fevereiro de 2019, implicando que o governo saudita e possivelmente até Donald Trump estariam envolvidos.

A relação entre Bezos e Salman azedou rapidamente em meio às consequências internacionais do assassinato de Khashoggi, depois do qual Bezos deixou de se comunicar com ele, de acordo com o Financial Times. Mas em pelo menos duas ocasiões posteriores, Bezos recebeu mensagens do príncipe herdeiro.

Uma mensagem bizarra enviada em fevereiro de 2019 parecia referir-se às informações então privadas, por telefone, que Bezos tinha recebido sobre a extensão dos esforços de espionagem digital sauditas contra ele, de acordo com o Financial Times: “Tudo o que você ouvir ou te contarem não é verdade e é uma questão que o tempo vai dizer para você saber a verdade, não há nada contra você ou contra a Amazon vindo de mim ou da Arábia Saudita.”

Um consultor de segurança contratado por Bezos, Gavin De Becker, já alegou, em março de 2019, que os sauditas estavam envolvidos no vazamento de dados. Mas a AMI insistiu repetidamente que os sauditas não estavam envolvidos, e a fonte do Enquirer seria, na verdade, Michael Sanchez, agente de Hollywood e o irmão da amante de Bezos. Michael Sanchez negou e disse que só se envolveu com o caso para proteger Bezos e sua irmã dos tabloides fofoqueiros.

Se esses relatórios estiverem corretos, os esforços do governo saudita e do príncipe herdeiro de colocar o país como uma referência de modernidade no Oriente Médio pode degringolar.

“[Mohammed bin Salman] povavelmente acreditava que se ele conseguisse algo sobre Bezos poderia moldar a cobertura da Arábia Saudita no Post”, disse ao Guardian o especialista em Oriente Médio e ex-funcionário do Conselho de Segurança Nacional dos EUA, Andrew Miller. “É claro que os sauditas não têm fronteiras ou limites reais em termos do que estão dispostos a fazer para proteger e fazer com que MBS prospere, seja ir atrás do chefe de uma das maiores empresas do mundo ou de um dissidente que não tem ninguém além de si mesmo.”

O governo saudita negou qualquer irregularidade em uma declaração ao Financial Times.

“A Arábia Saudita não conduz atividades ilícitas desta natureza, nem as tolera”, disse um funcionário saudita ao jornal. “Solicitamos a apresentação de qualquer suposta prova e a divulgação de qualquer empresa que examinou qualquer prova forense para que possamos mostrar que é comprovadamente falsa.”

Bezos está longe de ser o único que pode estar com dúvidas sobre conversar com bin Salman pelo WhatsApp. O conselheiro da Casa Branca, Jared Kushner, teria usado o aplicativo para discutir assuntos externos com o príncipe herdeiro e tem continuado a defendê-lo mesmo após o assassinato de Khashoggi; Kushner e o presidente dos EUA, Donald Trump, reuniram-se com o vice-ministro saudita da defesa saudita, Khalid bin Salman, na Sala Oval há apenas algumas semanas.