A ciência quer prever os locais e em quais situações pessoas e animais estarão mais suscetíveis a adquirir doenças infecciosas. Se isso for possível, pandemias globais, como a da Covid-19, poderão ser evitadas.

As interações entre humanos e animais, sejam por invasão de habitat, comércio ilegal de animais e consumo de carne de animais selvagens, causam cerca de 75% das infecções que afetam a saúde humana.

A ideia promissora consiste em desenvolver uma nova estratégia para descrever o comportamento dessas doenças. Para tanto, outros campos de estudo como medicina humana e veterinária, ecologistas, biólogos, bio técnicos, antropólogos entre outros, precisarão colaborar. A doença e a saúde são vistas predominantemente como uma construção humana e o papel que o meio ambiente desempenha nas doenças é frequentemente esquecido, disse Yvonne-Marie Linton, pesquisadora do Museu Nacional de História Natural do Smithsonian, nos EUA, à revista científica EurekAlert!.

O estudo, publicado na Nature Ecology and Evolution, na última segunda-feira (17), projetou o que eles chamam de “episistema”, reproduzia um pequeno um ecossistema, em que foram inseridos e acompanhados, diferentes microorganismos causadores de doenças, para analisar como reagem às ações naturais do planeta, incluindo mudanças climáticas, circulação oceânica e crescimento da floresta.

A saúde de outros organismos, de parasitas e insetos a pássaros e organismos aquáticos, pode alterar a estrutura dos ecossistemas. Linton explica que a nova abordagem permitiria aos cientistas simular o comportamento desses patógenos em populações de animais selvagens, como eles respondem às atividades humanas e melhor determinar o risco que representam para as pessoas.

Um dos principais autores da pesquisa compara o trabalho ao de um mecânico, que necessita entender como os componentes do carro interagem entre si, e o que pode ser feito para melhorar o desempenho, analisou James Hassell, veterinário de vida selvagem do Smithsonian.

Embora pareça simples, integrar esses microrganismos aos ecossistemas pré modelados não é uma tarefa fácil. Para esboçar a estrutura, é necessário levar em conta fatores como cadeias alimentares, fotossíntese das plantas e comportamento dos animais. Entender o funcionamento dos parasitas nessa estrutura é essencial para descobrir o comportamento de diferentes tipos de agentes patógenos presentes em qualquer ecossistema e dessa forma, de conter doenças transmitidas de animais para humanos.

Das análises dos ecossistemas à projeção dos resultados, o projeto precisará, e muito, da tecnologia. Seja na coleta, armazenamento ou análise dos dados, é indispensável que haja uma escala maior e mais aprimorada dos dados, do que ocorre hoje.

Ainda que a quantidade de dados necessários para criar esses modelos seja assustadora, estudos de longo prazo de ecossistemas intactos, onde dados de parasitas foram coletados, são locais excelentes para iniciar esses estudos. Os esforços para aperfeiçoá-los de forma mais ampla poderiam alavancar estudos ecológicos em grande escala que abrangem continentes, como os programas ForestGEO e MarineGEO do Smithsonian.

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Além disso, o custo desse projeto é alto, dizem os pesquisadores. É uma tarefa que exigirá a cooperação global e o compromisso de cientistas, comunidades, organizações não-governamentais e vários países.

Outros impactos deste novo modelo vão além da redução da transmissão de doenças para humanos, também podem ser ganhos para a economia. Você poderia usar esta nova abordagem para analisar a melhor maneira de conduzir a aquicultura ou criar gado saudável, disse Katrina M. Pagenkopp Lohan, ecologista de doenças marinhas do Smithsonian à publicação.

A natureza é, de fato, fascinante e analisar o comportamento de um ecossistema para melhorar a vida, é vital, completa Hassell.

[EurekAlert!]