A NASA trabalhou duro para evitar que os micróbios pegassem carona nas naves espaciais e se espalhassem ao redor do sistema solar, mas as táticas da agência estão desatualizadas. Um novo relatório descreve as mudanças necessárias para modernizar as políticas de proteção planetária da NASA e evitar que nossos germes contaminem alvos cientificamente importantes como Marte.

O relatório, publicado pelo Conselho de Revisão Independente de Proteção Planetária (PPIRB, na sigla em inglês) no final da semana passada, foi motivado pelas recomendações feitas em 2018 pelas Academias Nacionais de Ciências, Engenharia e Medicina dos EUA, que descobriram que as políticas de proteção planetária da NASA não estavam mais em contato com as realidades modernas da exploração espacial. O documento destaca como a NASA deve atualizar suas políticas.

E, de fato, dada a complexidade e o escopo das missões futuras, é razoável pedir à NASA que reconsidere as suas políticas de proteção planetária, algumas das quais permaneceram inalteradas desde que foram implementadas pela primeira vez nos anos 1960 e 1970.

Por que isso é relevante?

O tema está se tornando cada vez mais relevante, dadas as missões programadas para a Lua (como as próximas missões Artemis, em que os humanos voltarão a caminhar na superfície lunar), a missão de retorno de amostras pendentes do rover Mars 2020, e do drone de exploração da lua Titã, de Saturno, sem contar as possíveis missões para explorar os oceanos subterrâneos da lua Encélado, de Saturno, e da lua Europa, de Júpiter. Além dessas, há as potenciais missões comerciais no espaço, como o plano ousado da SpaceX para estabelecer bases em Marte.

A disseminação de micróbios terrestres para esses lugares poderia interferir na nossa capacidade de detectar vida nativa nesses objetos celestes, ou interferir nos ecossistemas alienígenas desconhecidos. Essa perspectiva é referida como “contaminação futura”, mas a “contaminação reversa” – em que os micróbios alienígenas retornaram à Terra deliberadamente ou acidentalmente – também apresenta riscos, como o desencadeamento de um vírus alienígena na humanidade, por mais estranho que possa parecer.

“A ciência planetária e as técnicas de proteção planetária mudaram rapidamente nos últimos anos, e ambas provavelmente continuarão a evoluir rapidamente”, disse Allen Stern, co-autor do novo relatório e cientista planetário do Southwest Research Institute, em um comunicado de imprensa da NASA. “As diretrizes e práticas de proteção planetária precisam ser atualizadas para refletir nossos novos conhecimentos e novas tecnologias, e o surgimento de novas entidades que planejam missões em todo o sistema solar. Há um interesse global neste tópico, e também precisamos abordar como novos atores, por exemplo, no setor comercial, podem ser integrados à proteção planetária”.

O relatório PPIRB, que inclui 34 novas descobertas e 43 recomendações, foi elaborado por 12 peritos com experiência em ciência, engenharia e indústria espacial. Semelhante às descobertas de 2018 das Academias Nacionais, esse relatório encontrou oportunidades para refinamentos e melhorias.

Dado que muitas políticas atuais remontam aos anos 1970 e as expedições do Programa Viking em Marte, as políticas de proteção planetária e os procedimentos de implementação da agência espacial “devem ser reavaliados”, segundo o relatório, acrescentando que as atuais diretrizes são “anacrônicas” e “por vezes irrealistas”.

Protocolos exagerados em alguns aspectos

Embora a NASA poderia fazer mais para proteger o sistema solar de contaminantes, os autores disseram que também deve haver menos preocupação com a propagação de micróbios para lugares onde eles não poderiam ter raízes ou para locais de pouco valor científico. Como os autores dizem no novo relatório, uma boa parte das “missões de exploração planetária cientificamente conduzidas” da NASA envolve “requisitos de limpeza científica” que muitas vezes excedem os requisitos de proteção planetária.

Os autores aconselharam a NASA a explorar novas tecnologias para “melhor categorizar os alvos de exploração, criar melhores protocolos de implementação de contaminação futura e reversa [de proteção planetária] e reduzir o custo e cronograma dos projetos [de proteção planetária]”.

Eles também aconselham a agência espacial a realizar reavaliações de proteção planetária duas vezes a cada década e assegurar financiamento adicional para garantir que suas políticas sejam eficazes.

O PPIRB também disse que a NASA precisa renovar a forma como classifica os objetos de destino. A NASA atualmente tem uma escala de 1 a 5 em termos de medidas necessárias para garantir a proteção planetária.

Os objetos de categoria 1, por exemplo, não requerem praticamente nenhuma medida de proteção devido a “nenhum interesse direto em compreender o processo de evolução química ou a origem da vida”, de acordo com o relatório, enquanto os objetos da categoria 4 ou 5 requerem os mais rigorosos níveis de protecção.

Não é preciso dizer que, a cada categoria, os protocolos tornam-se mais sofisticados e caros, como medidas de esterilização exaustivas para evitar que os micróbios se atrevam a dar uma volta em, digamos, um rover de seis rodas com destino a Marte.

No modelo atual, os aterrissadores lunares devem aderir aos padrões da Categoria 2, enquanto os aterrissadores de Marte são designados na Categoria 4. Mas como o relatório salienta, uma abordagem única para grandes objetos celestes como a Lua ou Marte não faz muito sentido; em vez disso, os cientistas devem categorizar áreas geográficas específicas dentro destes corpos.

Na Lua, por exemplo, as áreas em que o gelo aquático está presente, como nos pólos, devem seguir as regras da Categoria 2, enquanto que qualquer outra superfície lunar deve seguir os protocolos da Categoria 1.

Enquanto isso, objetos como cometas, asteróides ou objetos do Cinturão de Kuiper devem ter o status de Categoria 1 quase automaticamente. Para criar estas designações, dizem os autores, os cientistas devem avaliar cuidadosamente a superfície ou subsuperfície em questão, o número de vezes que missões anteriores investigaram a área, e as chances de que um organismo poderia realmente sobreviver e potencialmente se reproduzir em um determinado ambiente.

Sobre o tema da contaminação potencial de Marte, por exemplo, os autores disseram que todas as missões anteriores que pousaram no planeta “foram tratadas como se houvesse uma chance ‘significativa’ de que organismos terrestres pudessem sobreviver e ser transportados para áreas onde experiências de detecção de vida ou bioassinatura seriam realizadas”, mas novas descobertas científicas “mostraram que muitas áreas da superfície não são locais de preocupação [para a proteção planetária]”.

A NASA foi também aconselhada a estabelecer “zonas de astrobiologia de alta prioridade” – ou seja, regiões com elevada prioridade científica para encontrar vida alienígena extinta ou existente, e “zonas de exploração humana”, ou seja, regiões visitadas por exploradores humanos.

Na verdade, colocar o pé em terras alienígenas irá complicar muito a proteção planetária – especialmente uma viagem para Marte – uma vez que as missões de tripuladas introduziriam “mais microorganismos terrestres” na superfície em comparação com as missões robóticas, como explicam os autores do documento.

A atividade humana no espaço também apresenta um problema potencialmente incontornável no que diz respeito à prevenção da contaminação reversa. A NASA atualmente lista exemplos de missões de retorno naCategoria 5, mas o PPIRB disse que este padrão de proteção não será “alcançável para missões humanas que retornarem de Marte”:

Especificamente, requisitos como “Nenhum equipamento não contido que tenha entrado em contato com Marte, direta ou indiretamente, poderá ser devolvido à Terra a menos que seja esterilizado” e “A missão e o projeto da nave espacial deverão fornecer um método para ‘quebrar a cadeia de contato’ com Marte” parecem conduzir a abordagens de implementação que são difíceis, se não mesmo impossíveis, para as missões humanas e o seus equipamentos.

Em relação ao retorno de humanos e equipamentos de Marte, a NASA deve investir no desenvolvimento de critérios mais claros para a contaminação reversa, considerando a proteção da biosfera da Terra, a viabilidade da implementação da missão e o potencial para a caracterização de perigos em Marte. Especial atenção deve ser dada para avaliar como a pesquisa astrobiológicas podem ser realizada na presença de atividades humanas.

Dito isto, o PPIRB disse que a longa viagem da Terra para Marte, que poderia levar mais de seis meses, serviria como um período razoável de quarentena e avaliação para os astronautas. Claramente, a NASA não pode esterilizar os astronautas, como exige os protocolos da Categoria 5.

Atividade privada precisará de supervisão

O relatório também fez recomendações sobre futuras missões do setor privado ao espaço, seja para estabelecer bases em Marte ou buscar por minerais valiosos na Lua.

A NASA não é um órgão regulador, mas desempenha um papel ativo junto à Administração Federal da Aviação dos EUA para a emissão de licenças de lançamento. Consequentemente, a NASA poderia dificultar a vida de empresas espaciais americanas que não cumprirem as diretrizes de proteção planetária.

Ao mesmo tempo, a NASA deveria trabalhar com a Casa Branca, o Congresso e o setor privado para descobrir qual órgão governamental deveria administrar as considerações de proteção planetária para missões comerciais, de acordo com o relatório.

Para o futuro, a NASA disse que vai usar o novo relatório para iniciar um diálogo com todas as partes relevantes para “ajudar a construir um novo capítulo na realização de missões planetárias”.

Esta discussão também é oportuna, dado um artigo recente e controverso que afirma que muitos alvos celestes – especialmente Marte – serão inevitavelmente contaminados com microorganismos terrestres e, por isso, não devemos perder nosso tempo com protocolos de proteção. Essa continua a ser uma opinião minoritária, mas está claro que a lógica por trás da proteção planetária precisa ser reconsiderada e refinada.