Tom Vasel é um típico ídolo nerd. Gordinho e de óculos, tem um hobby pouco popular (jogos de tabuleiro modernos, não-Monopoly e War), posta compulsivamente em fóruns e tem um canal de vídeos semanais no Youtube com uma audiência que dificilmente passa das 3 mil visualizações – ele não é linkado em sites “pop”. Mas Tom é, acima de tudo, um cara muito legal, que eu nunca conheci pessoalmente, mas que me ajudou indiretamente – e enormemente – no meu hobby favorito. Ele passou por uma experiência pessoal terrível este mês e os seus amigos que nunca o viram fizeram algumas das demonstrações de compaixão mais tocantes que vi nos últimos tempos, tudo online. Geeks do bem, segurem a emoção, que a história deste sábado é triste, mas bonita.

Além de ser uma carta de Magic, o americano Tom Vasel é um professor de matemática para crianças e pastor batista na Flórida que gasta muito, muito tempo, com seus jogos de tabuleiro. Ele tem uma coleção de 700 jogos e já escreveu longas e ótimas resenhas para mais de mil deles no Boardgamegeek, site que é a primeira (e definitiva) parada para quem gosta do assunto. O conhecimento dele me ajudou – e a tanta gente – a decidir quais jogos comprar, entender melhor regras e estratégias em vídeos bem-humorados. Podemos não ter a mesma opinião (ele gosta de jogos demais para o meu gosto), mas como é um cara que expressa e respeita as opiniões educadamente, sempre foi o cara mais conhecido – e querido dos jogadores de tabuleiro hardcore do mundo (categoria a qual me incluo), um exemplo de comportamento em fóruns, tantas vezes povoados por trolls.



O último vídeo de seu Dice Tower, sempre divertido canal de resenhas de jogos, mostra fotos do pequeno Jack, seu filho que nasceu prematuro em novembro, teve uma infecção e passou 2 meses no hospital até falecer, esta semana. Foi um baque quando assisti isso. Antes, quando a notícia de que Jack estava doente apareceu, Tom postou em um tópico do fórum as melhoras – e pioras de saúde – até sua lenta morte.  Tom anunciou aos seguidores do BGG a notícia, vieram as condolências, sinceras e emocionantes.

E, espontaneamente, veio a ajuda.

De duas formas. A primeira, financeira. Tratamento médico (especialmente nos EUA) é algo terrivelmente caro, imagine então dois meses de UTI para recém-nascidos. Tom aparentemente precisa de dinheiro (não que ele tenha pedido), e a comunidade de jogadores se organizou. Pouco depois da notícia da morte, começaram a ser publicados leilões especiais. Uma Geeklist (os tópicos de fórum ilustrados do Boardgamegeek) com o título “I need to do something – a Jack Vasel auction” (eu preciso fazer algo – um leilão para Jack Vasel) rapidamente subiu aos tópicos quentes. As pessoas de diversos lugares do mundo começaram a leiloar jogos, destinando a grana para Tom.

No momento que escrevo, já são mais de 300 itens colocados a leilão. Coisas raríssimas, booster de Magic selados de 1994, jogos assinados pelos autores, artistas de jogos leiloando arte original e o povo dando lances insanos – como, por exemplo, 200 dólares em um vale-compras de 100. Jogos de 15 dólares por US$ 150, jogos favoritos da coleção, raridades fora de catálogo há mais de 10 anos. Não há como não acompanhar os leilões e não ficar com o coração apertado. Veja este diálogo, por exemplo:

(Alguém oferece 150 dólares para um jogo de US$ 20 “para a família Vasel”, o outro fica feliz em alguém ter dado um lance maior que ele, que estava ganhando o leilão, e o cara que está agora na frente é um finlandês que também nasceu prematuro e lamenta o fato de Jack não ter tido a mesma sorte)

Quem não tinha muito a oferecer em termos materiais arranjou um jeito de entrar na onda. Sean Dooley, que pinta meticulosamente as miniaturas dos jogos, ofereceu seus serviços para quem pagasse mais por 12 pinturas personalizadas – com o dinheiro revertido ao Tom. O segundo lance já passava dos 100 dólares.  Outro prometeu fazer caricatura personalizada de Lego. O designer de Duel of Ages, um jogo de cartas obscuro, fora de catálogo, mas ainda o favorito de Tom Vasel, colocou em leilão a coleção completa, com os 10 decks. O lance estava em 400 dólares – mais que o dobro do que alguém paga no eBay.

Dinheiro é importante, mas não é tudo. E por isso hoje, logo mais, a comunidade de jogadores do Boardgamegeek que tem filhos está organizando um evento em memória especial. Nesta Geeklist cada pai e mãe diz o que vai jogar com o respectivo filho, o motivo, a idade da molecada, e algumas palavras de alento a Tom. A ideia é dividir uma mesa de jogo com o filho no momento que acontecerá o velório, que será transmitido online.

Aliás, se alguém for cadastrado no BGG e gostar dessa história de jogos de tabuleiro modernos, coloquei um Ascension, um jogo bem recente que fãs de Magic irão curtir, lacrado, para leilão, que o querido Tom Vasel resenhou ano passado:

O que me chamou atenção nessa história é como as pessoas podem se organizar rapidamente  para prestar solidariedade online, especialmente nós mais ligados à tecnologia e mais familiarizados com essas ferramentas. Os mesmos geeks do Boardgamegeek fizeram leilões semelhantes quando aconteceu o furacão Katrina em 2005 – eles levantaram mais de 1 milhão de dólares em leilões e donativos e ainda organizaram expedições de ajuda aos desabrigados – com times formados por especialistas diversos, tal qual uma equipe da Entrerprise. UPDATE: Como bem lembrou o Guilherme aí embaixo, boardgamers brasileiros e gringos se juntaram para ajudar um amigo que perdeu a casa nas enchentes do Rio ano passado. O leilão para levantar fundos para ele foi muito bem sucedido, e mostrou mais uma vez a força da comunidade.

E no meio deste enorme texto eu parei para me perguntar se não estava abusando do direito de escrever assuntos pessoais off-topic, no site que sou editor. Mas quer saber? É uma história que merece ser contada. Por mostrar o quanto que as pessoas “virtuais” podem desenvolver relações tão fortes quanto as “reais” (distinção que boa parte da mídia e “adultos” gosta de fazer). Sua mãe já deve ter te falado alguma vez para “sair do computador para falar com gente de verdade”, quando você estava aqui conversando – ou discutindo – com alguém num post ou passando cantadas pelo MSN. Gente de verdade, diga-se.

Enterrado na vigésima página do tópico de condolências, um cara resumiu tudo:

Tom, eu não posso oferecer muito mais do que já foi oferecido. O seu trabalho deixa a minha vida mais rica, certamente, e de longe sempre me pareceu que você é uma pessoa genuinamente boa e um grande pai. Eu gostaria de adicionar minhas condolências nesta longa lista de pessoas ao redor do mundo que você tocou de alguma forma e que vieram prestar o luto ao seu filho Jack. Eu nunca encontrei você, Tom, e mesmo assim eu sinto sua perda até os meus ossos. Jack está nas minhas orações. Assim como você e sua família.

O vídeo em memória a Jack e o tópico de condolências está aqui. É das coisas mais tristes – com reações mais bonitas e sinceras – que vi em qualquer fórum da internet.