Sylvia mora no Kansas e trabalha em marketing online. A sua história, primeiro narrada no seu blog pessoal e depois republicada pelo The Guardian, é sinistra em infinitos níveis. 

Há o fato de que o homem resolveu ligar para o telefone do restaurante e pedir para o gerente passar a ligação para ela, descrevendo-a baseado na sua foto do perfil online. Há o tom ameaçador, como se ele estivesse querendo ensinar uma lição, empregado logo após ela decidir que não tinha ficado infinitamente feliz com os seus avanços. De alguma forma, o simples fato de pular entre as plataformas, direto no espaço físico, em um momento de fragilidade da mulher, é a coisa mais sinistra de todas. Será que ele nunca ouviu falar em se aproximar de alguém pelo Twitter nesses casos?

Em um texto publicado junto com o da Sylvia, Leo Hickman escreve sobre como ele já esteve do outro lado da equação: em um experimento, ele escolheu uma mulher do Foursquare, fez uma pesquisa sobre ela na internet e então se aproximou dela em um evento de trabalho em um bar de Londres. Quando ela apareceu, "sensatamente acompanhada de um colega homem", estava obviamente incomodada pela coisa toda. 

Ainda assim, serviços como o Foursquare foram feitos exatamente para isso, ao menos em parte: criar um laço entre pessoas que usam os mesmos serviços e frequentam os mesmos lugares, mas que nunca se falaram. É por isso que as pessoas escolhem estar nestes serviços, apesar desta sensação de falta de privacidade em tempo real ser exatamente o motivo de eu ter optado ficar de fora deles, mesmo quando abraço e apoio entusiasticamente outras redes sociais. Todo usuário de internet equilibra e decide quantas e quais informações pessoais vai compartilhar, e quando e como e onde, mas eu diria que para as mulheres a situação é muito mais sensível, a vulnerabilidade é muito mais assustadora. (Será coincidência que tanto o alvo do experimento quanto o do caso real tenham sido mulheres?) E depois que você convida pessoas a algum aspecto da sua vida privada de forma pública, é difícil expulsar.

Ano passado, antes do Twitter ter geolocalização e antes do Foursquare decolar, eu estava em uma festa, vasculhando uma geladeira atrás de uma cerveja, quando alguém deu uma batidinha no meu ombro e perguntou se o meu nome era Irin. "Eu encontrei o seu tweet!", ele disse triunfante, colando o iPhone na minha cara. Como, exatamente? Eu tinha twittado uma menção a uma "festa no terraço" e o bairro onde era essa festa; ele estava mostrando o Twitter para um amigo na festa, digitou o nome do bairro e viu meu tweet. Depois ele usou a minha foto para perguntar para as pessoas da festa até me achar. 

Agora, apesar do meu susto inicial, o cara no fim das contas não era um bizarro como o que ligou para a Sylvia, e nós ainda somos amigos. De fato, nós temos amigos mútuos na vida real, incluindo os que deram a festa. Daria para argumentar que o Twitter diminuiu a constrangedora distância entre estranhos se conhecendo em uma festa, estimulou o desenvolvimento dos laços sociais quebrados da nossa sociedade fragmentada, e por aí vai. Mas alguns desses laços sociais estão quebrados por um bom motivo: há pessoas terríveis no mundo, nós não deveríamos confiar em todo mundo implicitamente e é necessário e pode ser útil ter limites naquilo que compartilhamos.

Sobre a sua experiência, a Sylvia escreveu: "Eu estou chateada. Sinto que alguém quebrou um pacto que todos nós, pessoas geralmente legais, temos online: não passe dos limites". É claro que mesmo as pessos que você conhece muito bem na sua vida offline podem acabar não sendo "pessoas geralmente legais". Mas nesses casos as possibilidades são mais limitadas e controladas, e você escolhe compartilhar diferentes níveis da sua vida com, digamos, a sua mãe, seu colega de trabalho e o cara que te vende café. Quando estes níveis se sobrepõem e os limites são ultrapassadas, isso é suficiente para fazer uma pessoa querer não sair mais de casa. 

How I Became A Foursquare Cyberstalker [Guardian]
The Night I Was Cyberstalked On Foursquare [Guardian]