O Quibi foi apresentado na CES este ano. Ele é o primeiro serviço de streaming móvel para “quick bites”, como eles chamaram — algo como “bocadinhos”, em tradução livre. A empresa apresentou sua tecnologia Turnstyle como o futuro do streaming — um recurso criado para pessoas em movimento, que podem retirar seus smartphones do bolso em praticamente qualquer lugar e hora e assistir a vídeos de alta qualidade, independentemente da orientação do dispositivo. É um conceito divertido, além de uma jogada de marketing extraordinária.

O serviço prometeu uma experiência de streaming móvel de qualidade com conteúdo e elenco de estrelas, e olha, ele entrega isso mesmo. Mas a insistência do Quibi em limitar o vídeo ao celular faz parecer que muito desse valor de produção e narrativa está sendo desperdiçado em telas pequenininhas. Eu tive boa vontade e até gostei, mas queria poder ter mais opções de onde ver.

O serviço de streaming se concentra em episódios curtos de 10 minutos ou menos que os usuários podem ver durante seus “momentos de intervalo” ou durante o tempo em que você está esperando na fila, indo para o trabalho ou apenas dando um tempo de outra coisa. O conceito do serviço foi criado Jeffrey Katzenberg, ex-Dreamworks. Ele levantou um financiamento absolutamente impressionante de US$ 2 bilhões antes do lançamento.

O Quibi parecia um pouco com o Juicero — aquela máquina de suco inteligente que foi um fiasco — do streaming. Qual o objetivo deste serviço se, tecnicamente, você pode assistir a qualquer coisa no seu telefone a qualquer momento e por qualquer período de tempo? Por que cortar conteúdo de alto nível de produção em pedaços pequenos? E quem raios é o público-alvo dessa coisa?

Depois de passar vários dias com o serviço, posso dizer com segurança que o conteúdo do serviço é muito bom e seu formato é atraente. Mas ainda não estou convencida de que Quibi é para todo mundo.

O QUE É ISSO?
Primeiro serviço de streaming para celular com episódios de de 10 minutos ou menos.

PREÇO
US$ 5 com anúncios ou US$ 8 sem anúncios.

GOSTEI
Bom conteúdo com alto valor de produção.

NÃO GOSTEI
Não há suporte a telas maiores, exceto no iPad.

O Quibi tem dois planos: um modelo com anúncios por US$ 5 por mês e um sem propaganda por US$ 8 mensais. A característica que diferencia o Quibi é a tecnologia chamada Turnstyle, que permite ver os programas perfeitamente em tela cheia tanto em paisagem quanto em retrato — basta mudar a posição do celular para a que você preferir.

Retrato ou paisagem

Um dos benefícios do Quibi é que cada série é filmada especificamente para esses dois modos, o que significa que qualquer jeito terá uma ótima experiência de visualização. Isso também significa que as imagens não serão cortadas incorretamente ou reduzidas a pequenos quadros pequenos do tamanho de uma caixa de fósforos quando o aparelho estiver em retrato.

Esse é um recurso perfeito para streaming no celular, mas nada além disso. Talvez ele não seja tão útil em casa, onde é provável que as pessoas estejam segurando o telefone em uma única orientação ou deixando-o apoiado em alguma coisa. Tentei alternar a orientação vertical e horizontal regularmente enquanto usava o Quibi em casa, sério, o negócio perde a graça muito rápido.

O formato retrato do Turnstyle geralmente corta quadros para ampliar detalhes específicos, como um close no rosto do personagem que está falando. Isso acontece às custas de alguns detalhes, como pôsteres em uma parede ou dicas visuais sutis de reações de personagens ao fundo. Isso não será uma grande questão para muita gente, mas, para mim, foi.

Séries, formato e interatividade

O Turnstyle não é a única coisa legal sobre Quibi, no entanto. Por um lado, ele conseguiu garantir uma lista surpreendente de talentos — de Liam Hemsworth e Chance the Rapper a Steven Spielberg. Mas a empresa também planeja usar praticamente todas as ferramentas que pode acessar — incluindo o relógio, o giroscópio, a tela sensível ao toque e até o GPS de um telefone — para contar histórias interativas que se adaptam especificamente ao que você está fazendo e como assiste ao vídeo ao longo do dia.

The Hot Drop, uma série sobre encontros, por exemplo, incorporará a interação do espectador. E uma série futura de Steven Spielberg só poderá ser vista à noite, dependendo de onde você estiver — um truque para deixá-la mais “assustadora”. Talvez funcione! Mas vale a pena notar que isso já foi feito, inclusive pela entrada do Tinder no streaming.

Em termos de conteúdo, algumas séries são mais atraentes e mais adequadas ao formato mais curto. Survive, por exemplo, um drama estrelado por Sophie Turner e Corey Hawkins sobre uma mulher lutando contra um trauma — e um dos “filmes em capítulos” de Quibi — usa o formato com bastante sucesso para intensificar o suspense a cada episódio de 10 minutos.

Por causa disso — e em grande parte graças às performances de suas estrelas — a série é extremamente viciante. Depois de assistir os três primeiros episódios da série, achei que Survive foi uma das ofertas de conteúdo mais fortes do serviço. Este programa não será para todos, no entanto, e a série vem com alertas sobre crises de saúde mental.

Imagem: Gizmodo/Quibi

Dez minutos também é a duração perfeita do episódio para um programa de pegadinhas como Punk’d, apresentado por Chance the Rapper. When the Streetlights Go On — um mistério de assassinato adolescente nostálgico dos anos 90, estrelado por Chosen Jacobs e Queen Latifah e outro dos “filmes” em capítulos do serviço — também dá vontade de ver sem parar, mesmo sendo às vezes estranho e propenso a enredos bizarros que parecem mais destinados a chocar do que a desenvolver a história de maneira significativa.

Outra das produções do Quibi, Flipped — estrelando Will Forte e Kate Olson como Jann e Cricket — consegue espremer uma quantidade extraordinária de história em episódios de 6 a 8 minutos. Isso não surpreende, no entanto, dado que a série é do Funny or Die. Eles criam conteúdo de comédia de curta duração há mais de uma década, pelo amor de Deus.

Outras séries pareciam ter dificuldades com o formato reduzido. O programa de reformas de casas Murder House Flip é exatamente o que o nome sugere: uma série em que casas onde assassinatos ocorreram são reformadas e ganham uma segunda vida, por assim dizer. Eu tinha grandes expectativas, mas muitas vezes ela parece apressada, apesar de dedicar três “episódios” individuais para cada reforma.

A série tenta muito e acaba pecando pelo excesso, algo que suspeito que seja um problema para programas ou filmes excessivamente ambiciosos que não conseguem equilibrar formatos mais curtos com histórias convincentes e com alto valor de produção.

Catálogo e interface

Mas há cerca de 50 títulos originais chegando ao serviço no lançamento e 175 até o final do ano — em outras palavras, um verdadeiro caminhão de programação específica para o Quibi. Um período de testes de três meses está disponível até abril e clientes da T-Mobile ganham um ano de acesso. Isso significa que muitos consumidores terão a oportunidade de ver o que o serviço oferece antes de pagar.

Esse é o mesmo caminho adotado pelos serviços de streaming lançados recentemente, como Disney+ e Apple TV+, e é uma maneira inteligente de atrair assinantes pagantes que podem esquecer de cancelar suas contas ou simplesmente continuar pagando a mensalidade de US$ 5 ou US$ 8 sem se importar.

Descobrir programas é um pouco complicado, e me vi constantemente tendo que procurar um programa que eu já conhecia, mas que não estava aparecendo. Na tela inicial do serviço, que a Quibi chama Hoje Para Você, os programas são exibidos como cartões individuais que você precisa folhear para encontrar algo para assistir.

A empresa disse ao Gizmodo que acha que essa é a “maneira mais rápida e confiável de encontrar algo divertido de assistir nos seus momentos intermediários”. No começo, você fica um pouco perdido, se comparado aos feeds do Netflix ou Prime Video, onde você pode ver vários títulos ao mesmo tempo. Mas a Quibi diz que seu algoritmo acompanhará o que você passa, ignora e fecha para dar sugestões melhores.

A empresa acrescenta que também usa aprendizado de máquina para prever o que os espectadores desejam ver e também a hora do dia para serem “específicos à sua vida e seus hábitos”. Ou seja, para o algoritmo funcionar, ver o Quibi tem que ser um hábito na sua vida.

Diferentemente da maioria dos outros serviços populares de streaming, o Quibi limita os perfis de usuário a um por conta, o que significa que cada usuário individual precisa ter sua própria assinatura. O serviço suporta downloads ilimitados, no entanto.

Imagem: Gizmodo/Quibi

E isso nos leva ao maior obstáculo do Quibi. Neste momento em que as pessoas passam mais tempo sem sair, pode ser difícil justificar um serviço de streaming quase exclusivo para celular.

Os fundadores disseram ao Gizmodo na CES em janeiro que o serviço foi feito para ser visto entre 7h e 19h, como no transporte público ou no almoço — exceto, é claro, a próxima série de Spielberg.

Em teoria, Quibi é perfeito para aqueles intervalos de trabalho de cinco ou dez minutos ao longo do dia para pessoas que estão trabalhando em casa. Mas, novamente, é difícil imaginar que as pessoas prefiram assistir no celular se tiverem uma experiência de streaming sem dúvida melhor em uma tela maior à sua disposição. O melhor recurso do Quibi — que é perfeitamente adequado à vida em movimento — pode ter dificuldades neste momento.

Um streaming para adolescentes

Dito isto, muita gente vê séries e filmes em seus telefones, principalmente adolescentes. E o Quibi, em muitos aspectos, parece um serviço de streaming para a geração Snapchat. Muitos dos programas (por exemplo, Punk’d, When the Streetlights Go On e o documentário sobre natureza Fierce Queens, apresentado por Reese Witherspoon) parecem pensados especificamente para este público.

Os recursos sociais no serviço confirmam essa suspeita. Cada série tem sua página — incluindo as de notícias importantes e outras de não-ficção. que o Quibi chama de “itens essenciais do dia a dia” — com uma seção “Elenco e equipe”, com links para as mídias sociais e contas do IMDb do ator ou âncora.

Por fim, o que mais me frustrou no Quibi é também o objetivo principal do serviço. Como produto projetado para dispositivos móveis, você não poderá transmitir o aplicativo para uma tela maior. Você também não poderá acessá-lo no seu laptop, PC ou smart TV. Ele até funciona no iPad, mas é uma versão do aplicativo para iPhone e ainda não é nativa do iPad.

Quando perguntado se o serviço tem planos de introduzir um aplicativo para outros tablets, o porta-voz disse que Quibi “ouvirá nossos usuários após o lançamento sobre como e onde eles gostariam de consumir os programas do Quibi”. Pessoalmente, eu adoraria colocar algumas das séries na minha Apple TV para assisti-las em uma tela muito, muito maior em casa, mas, por enquanto, o app parece determinado a reforçar a experiência móvel. Parece uma grande falha na hora de conquistar espectadores mais velhos. Mas, novamente, o público-alvo aqui são os jovens.

Notas

  • O Quibi é o primeiro serviço de streaming móvel para conteúdo em “pedacinhos”, que deve ser visto naquelas pequenas pausas ao longo do dia.
  • O conteúdo é de qualidade, mas algumas séries parecem mais apressadas e inadequadas para caber no formato mais curto.
  • Cada usuário individual precisará assinar sua própria conta.
  • O serviço permite downloads ilimitados.
  • Grande parte do conteúdo do serviço e alguns de seus recursos parecem ser voltados principalmente para adolescentes.
  • Você não pode transmitir vídeo em qualquer dispositivo que não seja um celular ou iPad, o que significa que este não é um serviço para pessoas que gostam de ver na maior tela possível.