Rajadas rápidas de rádio, ou FRBs, na sigla em inglês, chamam a atenção de astrônomos há mais de uma década, mas sua origem permanece incerta. Uma pesquisa recém-concluída identificou uma FRB que se repete em um ciclo inesperado e incomumente longo de 157 dias. Esta descoberta que está redefinindo o que sabemos sobre esses misteriosos pulsos intergalácticos.

Alguma coisa — não sabemos o que — está disparando pulsos curtos de rádio de alta energia nas profundezas do espaço. Isso está acontecendo com regularidade, de acordo com uma nova pesquisa publicada na Monthly Notices of the Royal Astronomical Society.

A fonte dessas explosões, denominada FRB 121102, está localizada em uma galáxia anã a cerca de 3 bilhões de anos-luz da Terra. O padrão recém-detectado dura 157 dias. FRB 121102 fica ativa por 90 dias, depois completamente silenciosa por 67 dias. E de novo, e de novo, e de novo…

Esse padrão foi detectado por astrônomos da Universidade de Manchester, que usaram o telescópio Lovell para monitorar a FRB nos últimos quatro anos. Esta pesquisa capturou 32 rajadas distintas que, quando combinadas com dados dessa FRB coletados anteriormente, revelaram o padrão.

A FRB 121102 é a primeira de apenas duas FRBs de repetição conhecidas, sendo a outra FRB 180916.J10158+56. O padrão de 157 dias, porém, não era conhecido até agora. A nova pesquisa foi liderada pelo astrofísico Kaustubh Rajwade, da Universidade de Manchester.

Descobertas pela primeira vez em 2007, acreditava-se que as FRBs eram causadas ​​por eventos únicos, como estrelas explosivas, mas a descoberta de FRBs repetitivas obrigou os cientistas a repensar o conceito. As teorias atuais incluem estrelas de nêutrons em rotação rápida com fortes campos magnéticos (conhecidos como magnetares), fusões de objetos super densos, buracos negros supermassivos e até atividades de civilizações extraterrestres.

É importante ressaltar que a FRB 180916.J10158+56 também segue um padrão distinto, como revelaram cientistas canadenses no ano passado. Ela fica ativa por quatro dias e depois quieta por 12. Este ciclo de 16 dias é aproximadamente 10 vezes mais curto que o período observado na FRB 121102. Essa é uma nova e potente pista para os astrônomos que tentam identificar a fonte de essas estranhas emissões celestes.

Avi Loeb, astrônomo da Universidade de Harvard que não participou da nova pesquisa, diz que a “explicação mais natural” para esse ciclo de 157 dias envolveria um objeto fonte como uma jovem estrela de nêutrons em órbita ao redor de um objeto companheiro, em uma configuração que dispararia rajadas radioativas mais ou menos em nossa direção durante uma fração de sua órbita.

Outra possibilidade, Loeb acrescenta, é que o objeto companheiro não seja uma estrela de nêutrons, mas uma estrela normal ou algum tipo de remanescente estelar que pesa aproximadamente tanto quanto o nosso próprio Sol.

“Um período orbital de 0,43 anos corresponderia a uma separação orbital [a distância entre dois corpos] de cerca de metade da separação Terra-Sol”, comenta Loeb. “Se a fonte emitir um par de raios em direções opostas, é possível que 157 dias sejam apenas metade do período orbital — nesse caso, o raio orbital é semelhante ao da Terra ao redor do Sol”.

Uma hipótese possivelmente descartada pela nova pesquisa é de a fonte ser um magnetar oscilante, conforme observado em um comunicado da Universidade de Manchester:

As FRBs repetitivas podem ser explicadas pela precessão, como um topo oscilante, do eixo magnético de uma estrela de nêutrons altamente magnetizada, mas com os dados atuais, os cientistas acreditam que pode ser difícil explicar um período de precessão de 157 dias, dados os grandes campos magnéticos esperados nessas estrelas.

Também é possível que FRB 121102 e FRB 180916.J10158+56, embora repetitivas com períodos fixos, sejam geradas por dois tipos diferentes de fenômenos celestes. Ainda temos muito a aprender sobre essas rajadas. E como Loeb disse ao Gizmodo, “dados adicionais são necessários para ter certeza da periodicidade estatística inferida” para essas duas FRBs.

Podemos não entender o que são essas FRBs, mas elas são muito reais. Tão reais que estão sendo usadas ​​para resolver mistérios científicos de longa data, como a localização da matéria perdida no universo, como revelado em um estudo recente.