Parecendo um cruzamento entre um furão, um gambá e um porco-espinho, o rato-de-crista africano pode ser adorável, mas tem um poder venenoso. Uma nova pesquisa explica a maneira notável como esses mamíferos adquirem sua toxina e como esses ratos – antes considerados solitários – tendem a ter relacionamentos monogâmicos e até mesmo familiares.

Eles são fofos, sem dúvida, mas você não gostaria de se aconchegar com uma dessas criaturas. O rato-de-crista africano (Lophiomys imhausi) cobre seu pelo com uma toxina mortal. Este veneno não é brincadeira, já que alguns miligramas podem derrubar um elefante e até matar um humano, de acordo com um artigo da Universidade de Utah.

O fato de o rato-de-crista ser perigoso não deve ser uma surpresa, dada sua aparência audaciosa de gambá – um aviso para que os possíveis predadores deem o fora. Quando esses ratos sentem uma ameaça, os pelos de suas costas ficam eretos para formar uma crista proeminente, daí seu nome. Essa postura permite que o animal do tamanho de um coelho intimide ainda mais seus inimigos.

Estamos aprendendo mais sobre essas criaturas raras graças a uma nova pesquisa publicada no Journal of Mammalogy. A bióloga Sara Weinstein, da Universidade de Utah, junto com seus colegas dos Museus Nacionais do Quênia e do Smithsonian Conservation Biology Institute, descobriu novas evidências que afirmam o método usado por esses animais para obter o veneno, o que eles fazem extraindo-o de uma planta. A nova pesquisa também rendeu algumas descobertas inesperadas sobre seus comportamentos. O rato-de-crista não é um animal solitário, como se presumia; eles parecem ser monogâmicos e até mesmo orientados para a família, formando pequenas unidades com seus descendentes.

Um rato-de-crista africano (olhe essas mãozinhas adoráveis). Imagem: Universidade de Utah

Um artigo científico de 2011 revelou algo que as pessoas no Quênia já sabiam há muito tempo: esses ratos são venenosos. O estudo afirmou que os ratos-de-crista adquirem suas toxinas de uma árvore venenosa chamada Acokanthera schimperi, que os humanos tradicionalmente usam como fonte de toxinas para flechas venenosas. Essas plantas contêm cardenólidos – compostos tóxicos semelhantes aos encontrados em borboletas-monarcas e sapos-cururus.

As borboletas monarca, que são venenosas, adquirem cardenólidos pela ingestão de erva-leiteira, enquanto os sapos-cururus venenosos têm glândulas especiais que produzem o produto químico. O rato-de-crista é mais parecido com a borboleta-monarca no sentido de que deve adquirir o veneno externamente. Para se tornar repentinamente tóxico, os ratos mastigam a casca da árvore venenosa e depois se lambem para espalhar o químico mortal em seus pelos.

Uma grande deficiência do artigo de 2011 é que o comportamento de extração de veneno foi limitado ao estudo de um indivíduo. Para a nova pesquisa, os cientistas buscaram aprender mais, contando com câmeras escondidas e analisando e observando criaturas capturadas.

A equipe montou 35 armadilhas fotográficas no centro do Quênia, que monitoraram ratos de março a setembro de 2018. As câmeras tiverem dificuldade para detectar seus movimentos, enquanto os ratos-de-crista se moviam lentamente pelo ambiente. No futuro, “mapear sua distribuição e preferências de habitat exigirá pesquisas cuidadosamente planejadas e direcionadas”, escreveram os autores em seu artigo.

Imagem da armadilha fotográfica mostrando um rato-de-crista solitário. Imagem: SB Weinstein et al., 2020/Journal of Mammalogy

Um fato emocionante é que os pesquisadores conseguiram capturar 25 indivíduos. Este foi um número extraordinário, considerando o quão raras essas criaturas são, mas também porque são excepcionalmente difíceis de capturar. O uso de alimentos aromáticos como peixe e manteiga de amendoim acabou atraindo-os.

Com um contato mais próximo aos animais, os pesquisadores determinaram seu sexo e peso, coletaram amostras de fezes, tecido e pelo e colocaram etiquetas em suas orelhas (os cientistas usaram luvas de couro para evitar o contato com o veneno). A maioria dos ratos capturados foi devolvida à natureza e os métodos usados ​​estavam de acordo com as diretrizes da American Society of Mammalogists sobre o tratamento ético de objetos de pesquisa.

Dez ratos foram levados para uma estação de pesquisa próxima. E por estação de pesquisa, estamos falando de um galpão de vacas abandonado. Dentro dessa instalação improvisada, os pesquisadores fizeram o possível para simular o habitat natural dos ratos em cavidades de árvores, construindo baias equipadas com pequenas escadas e caixas de ninho. Usando câmeras, a equipe reuniu 447 horas de monitoramento diurno e 525 noturno, durante as quais documentaram muitos de seus comportamentos.

“Eles são herbívoros, essencialmente vacas em forma de rato”, explicou Weinstein no artigo da Universidade de Utah. “Eles passam muito tempo comendo, mas nós também os vemos passear, acasalar, subir pelas paredes, dormir no ninho.”

Os animais exibiram muitos comportamentos sociais durante seu tempo em cativeiro. Imagem: SB Weinstein et al., 2020/Journal of Mammalogy

Os animais foram monitorados como indivíduos, pares e grupos. Uma das observações mais reveladoras ocorreu quando uma fêmea foi colocada com um macho capturado no mesmo local. Ratos-de-crista africanos, como sugere a nova pesquisa, são monogâmicos.

“Colocamos esses dois ratos juntos no recinto e eles começaram a ronronar e se acariciar”, disse Weinstein. “O que foi uma grande surpresa, já que todos com quem conversamos pensavam que eram solitários. Percebi que tínhamos a chance de estudar suas interações sociais”.

Curiosamente, grandes indivíduos jovens foram capturados em locais habitados por pares de adultos. Isso sugere que eles ficam com os pais por um longo período. Outras observações feitas no galpão de vacas, ou seja, estação de pesquisa, mostraram que os casais de ratos gostavam de passar o tempo um ao lado do outro e frequentemente se seguiam.

Os pesquisadores também presentearam os animais com galhos da árvore venenosa. Na maioria das vezes, eles não deram a mínima, mas 10 indivíduos se deram ao trabalho de mastigar os galhos, passar a substância em volta da boca com saliva e depois lamber em seus pelos especializados. Como o artigo aponta, “mastigar A. schimperi e a exposição ao cardenolídeo não tiveram efeito na alimentação, movimento ou atividade total”. O rato-de-crista, ao que parece, desenvolveu tolerância ao veneno. O fato de os animais não terem aproveitado imediatamente a oportunidade de extrair o veneno dos galhos é um possível indício de que a toxina permanece por um longo período em seus pelos, o que se sabe pelo uso de veneno em pontas de flecha.

Olhando para o futuro, os pesquisadores gostariam de aprender mais sobre os comportamentos desses animais e o tamanho da população. A IUCN atualmente lista as espécies como menos preocupantes, mas a equipe gostaria de aprender mais apenas para ter certeza. Conforme aponta a IUCN, ações de conservação são necessárias para manter o estado atual dos ratos. Além disso, a equipe gostaria de aumentar a consciência do público sobre esta criatura notável. Eu, pelo menos, certamente gostaria de aprender mais sobre esses pequenos ameaçadores excêntricos.