Além de escrever para o TechCrunch, Sarah trabalha para o site da “Business Week” e o Yahoo! Finance. Abaixo, segue um resumo do conteúdo de seu texto:

  • Sarah decidiu vir ao Brasil para conhecer startups e empreendedores, pois prepara um livro sobre “empreendedorismo em mercados emergentes”.
  • “O Brasil era o lugar que ninguém no Vale do Silício insistiu” para que ela visitasse, e seu marido até lhe pediu que não viesse, pois ouvira “muitas notícias de sequestros e violência”.
  • Mas ela estava “convencida” de que havia “um mundo de empresas e história empolgantes” por aqui. Assim, durante cerca de quatro meses estudou português e planejou a viagem.
  • Seu visto deveria ter chegado no dia 28 de agosto, mas isso não ocorreu – com isso, ela perdeu tempo e dinheiro, sendo obrigada a reorganizar seu calendário.
  • Garantiram a ela que o visto chegaria até dia 2 de setembro, mas a nova data também não foi cumprida – com isso, Sarah perdeu mais tempo e dinheiro.
  • Ela trocou a passagem ao Brasil por uma à China.
  • Aparentemente, “o governo brasileiro decidiu mudar para um novo sistema de computadores” em seus consulados, e esse processo tem causado severos atrasos – Sarah foi vítima disso.
  • Ela conclui dizendo o seguinte:

Você quer investimento externo e atenção, Brasil? Eis uma ideia: DEIXEM AS PESSOAS ENTRAR NO MALDITO PAÍS. Você quer mostrar seu valor de TI? Que tal equipar seus consulados com sistemas de computadores que funcionam? Ou talvez implantar [a mudança] lentamente, para que outros postos possam cuidar da demanda. Ou treinar pessoas primeiro.
O país deveria se sentir embaraçado, e suas empresas deveriam estar furiosas. Vou planejar tentar todo esse negócio de Brasil novamente em dezembro ou janeiro. Não é por culpa dos empreendedores ou dos nossos leitores que isso aconteceu, e ainda acredito que há ótimas histórias no Brasil que eu vou querer contar. Mas ser um país mais difícil de entrar do que a China não é um bom indício para o investimento externo, Brasil.

O texto de Sarah gerou muita polêmica, com cerca de 500 comentários no TechCrunch e repercussão em outros sites, além de um interessante artigo de Paul Carr (que já ultrapassou os 450 comentários) no mesmo blog.

Carr diz que, se tivesse uma startup, estaria puto, pois teria perdido uma oportunidade mostrar seu negócio para alguém de fora do país.

Ele nota que a maioria dos leitores que comentaram ataca Sarah e a política norte-americana de vistos. “Alguns deles usaram palavras como ‘reciprocidade’ e ‘troco’”, e muitos “sugeriram furiosamente que ela deveria ter começado a solicitar o visto mais cedo”. Houve ainda reclamações à montagem da bandeira brasileira e à afirmação do marido sobre a violência no Brasil.

Confuso diante de tanta agressividade, Carr releu o texto de Sarah para ver se não deixara passar algum trecho batido – um pedido para que o Brasil seja “bombardeado de volta à idade da pedra” ou uma insinuação de que as mulheres do país não são limpas, por exemplo. “Mas não, ela realmente havia apenas reclamado que uma atualização de computadores causou inconveniências a ela e outros viajantes que já tinham seus vistos aprovados, mas que não o receberam no dia prometido.”

Uma reclamação completamente válida. Mas que gerou centenas de comentários raivosos.

Assim, há basicamente dois grandes problemas nos comentários sobre o post de Sarah: grande parte deles (1) foge do assunto principal – a suposta falha técnica e burocrática do governo brasileiro – e (2) demonstra excessiva agressividade.

Planejamento, bandeira, violência, reciprocidade. A maior parte dos comentaristas concentrou-se nesses pontos e fugiu do mais importante no texto de Sarah.

Sim, ela poderia ter solicitado o visto mais cedo, usado outra imagem para ilustrar o post e, sei lá, casado com um homem que não liga para a falta de segurança em outros países. Os Estados Unidos poderiam ter um processo menos caro, desgastante e irritante para os brasileiros conseguirem o visto.

Que seja.

Nada disso muda o fato de que Sarah não recebeu seu visto na data prometida. Duas vezes. Nada disso muda o fato de que as startups brasileiras perderam uma boa oportunidade de divulgar seus negócios para a mídia do exterior. Culpa, segundo a jornalista, do governo brasileiro.

Esse é o cerne da questão, ignorado na maioria dos comentários.

Não digo que Sarah não merece críticas. Muito pelo contrário. Como nota o Valleywag, ela aparentemente não solicitou o visto a tempo, pois teve que recorrer a um tipo de serviço de despachante – e foi a dona desse serviço que a informou sobre os problemas consulares. Não duvido que o Brasil realmente tenha atrasado a entrega do visto de muita gente, mas existe também a possibilidade de a empresa ter cometido falhas e jogado a culpa para o governo brasileiro, e Sarah não levou isso em conta.

Enquanto isso, Jenna Wortham, do “New York Times”, conseguiu entrar aqui sem problemas, o que levou Peter Kafka, do All Things Digital, a dizer no Twitter que ela deveria dar dicas de visto a Sarah.

Para piorar, o artigo de Sarah exala certa arrogância. “Esta é definitivamente a pior coisa que já ocorreu ao Brasil, Sarah Lacy não ser autorizada a visitá-lo… ‘Epic-est fail’, de fato”, ironizou o Valleywag.

Tanto Sarah quanto os seus leitores têm direito a criticar. Mas é preciso uma atenção especial quando muitos dos que comentam fogem do assunto principal (o atraso na entrega do visto) e, pior, atacam o autor do texto com argumentos rasos (ou nenhum), ofensas absurdas e alto nível de agressividade – incluindo até ameaças. Por que tudo isso ocorreu? Como as coisas chegaram a esse ponto?

Paul Carr dá a dica.

Ele diz que foi contratado pelo TechCrunch para ser o controverso, para “dizer coisas inflamatórias e incitar debates furiosos entre idiotas”. Como seus textos provocaram muito menos comentários do que o de Sarah, Carr diz que passará a usar títulos como estes abaixo, “deliberadamente provocativos”:

“O Estado de Israel passou dados à RIAA?”
“Aquisição do Last.fm pela CBS: o mais inteligente acordo norte-americano com um alemão desde Wernher von Braun?”
“Educação dos EUA não produziu um aluno decente desde o atentado de Oklahoma: então por que é tão difícil para terroristas estrangeiros conseguir vistos H1B?”
“Os fanboys do Brasil: por que os usuários latino-americanos de Mac são ainda mais insuportavelmente presunçosos do que aqueles no resto do mundo”
“Os franceses são preguiçosos, os americanos são preguiçosos, os britânicos têm dentes ruins, os palestinos são todos terroristas, e os suíços ficaram ricos com ouro nazista – e é tudo culpa da AT&T”
“Vá se foder, Bélgica”

Brilhante.

O “erro” de Sarah foi falar mal de um país. No caso, o Brasil.

“Erro” entre aspas porque o grande problema daquele post não é o texto dela, mas os comentários, que demonstram um nacionalismo exacerbado em manifestações insanas e sem razão, não raras vezes aproximando-se da xenofobia e do racismo.

A questão aqui não é o nacionalismo em si, mas alguns atos que derivam (em parte) dele. Essas reações extremadas parecem ser infelizmente cada vez mais comuns, principalmente com o relativo anonimato proporcionado pela internet.

Críticas em geral podem atingir as pessoas de diferentes maneiras, provocando reações variadas. Quando elas envolvem um sentimento de identificação – como o nacionalismo –, as reações frequentemente são mais coléricas e menos racionais.

Repito: não é um problema (apenas) do nacionalismo. No próprio post de Sarah os comentários ofensivos não são apenas de brasileiros. Muita gente de outros países também meteu o pau nos Estados Unidos. Por quê? Provavelmente rolou uma identificação com os brasileiros – em maior ou menor escala, o antiamericanismo é um sentimento muito difundido pelo mundo.

Outro exemplo: futebol. Mesmo entre amigos, quando critico outros times, preciso tomar cuidado. Se não, acontece isto:

– Você viu o Juvenal Juvêncio? O cara é um…
– Ah, tá falando o quê? Vocês têm o Andres Sanchez!
– Sim, eu também não sou fã do Andres, mas…
– Deixa o meu time em paz!

Pois torcer por um clube envolve um sentimento de identificação. Então não raro eu preciso criticar o meu próprio time ou fazer algum tipo de ressalva antes de falar sobre o time dos outros, para “desarmar” o meu interlocutor. “Eu sei que no Corinthians é assim e assado, não gosto disso e daquilo. Ponto. Mas agora quero falar do Palmeiras.”

Mesmo quando o assunto é tecnologia, vemos reações exageradas de gente que de alguma maneira se “identifica” com Apple, Linux, Microsoft, Sony, Nintendo, Canon, Nikon…

Esse sentimento de identificação – seja com nação, clube, marca, filosofia, religião ou qualquer outra coisa – é comum, aceitável e muitas vezes incontrolável. Mas ele não pode justificar atos extremos e irracionais, que não raras vezes têm consequências graves.

É necessário haver maior tolerância a opiniões alheias, especialmente quando elas tocam em assuntos que envolvem sentimentos. Obviamente, não há uma solução evidente para isso – se houvesse, o mundo seria um lugar bem mais pacífico –, mas não é por isso que vamos ignorar esses excessos, deixar de debatê-los. Talvez não exista de fato uma solução definitiva para a intolerância, mas há como diminuí-la – e discutir o problema certamente faz parte desse processo.

A intolerância generalizada pode ser consequência de uma tolerância excessiva. Para ficar no caso do TechCrunch, a internet é um ambiente tão tolerante que acaba dando espaço a manifestações de intolerância. Nesse caso, o desafio é estabelecer os limites da tolerância – ela não pode servir como subterfúgio para atos de intolerância.


– Como você vai nas suas resoluções de Ano Novo?
– Não fiz nenhuma.
– Note que, para alguém se aperfeiçoar, ele precisa ter alguma ideia do que é “bom”. Isso envolve certos valores.
– Mas como todos sabemos, valores são relativos. Cada sistema de crenças é igualmente válido, e precisamos tolerar a diversidade. Virtude não é “melhor” que vício. É apenas diferente.
– Não sei se consigo tolerar tanta tolerância assim.
– Eu me recuso a ser sacrificado segundo noções de comportamento virtuoso.

O Brasil supostamente falhou com Sarah, e ela tem todo o direito de reclamar disso, assim como nós temos liberdade para criticá-la. Mas tudo isso deve ocorrer dentro de certos limites – que, a meu ver, foram respeitados pela jornalista, mas ignorados por grande parte dos leitores que deixou comentários no post.

Quando os limites são desrespeitados, a liberdade de expressão perde um pouco do seu sentido. A manutenção desse direito passa pelo controle dos limites da tolerância.